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19.02.2021 19:55:00

Ministro Serguei Lavrov concede entrevista à holding de média RBC Moscovo, 19 de fevereiro de 2021

    Pergunta: Tenho a sensação de que o Ocidente está muito irritado com o aparecimento da vacina russa Sputnik V. No início, foram realmente muito agressivos ao impedir a sua entrada. Quando falei com o Ministro da Indústria e Comércio da Rússia, Denis Manturov, ele disse que se tratava de uma " guerra de vacinas". Agora o Ocidente mudou de opinião. O senhor acha que é uma questão da qualidade da vacina ou da política? 

    Ministro Serguei Lavrov: Esta situação confirma o ditado russo que reza: "O mel é doce, mas a picada da abelha é dolorida". O Ocidente compreende que a Sputnik V é uma das melhores vacinas, para não dizer a melhor. De contrário, não haveria uma enxurrada de pedidos da vacina tão grande, ela cresce em progressão geométrica. 

    Por outro lado, o Ocidente apercebe-se de que a difusão da Sputnik V e das nossas outras vacinas que estão prestes a entrar no mercado internacional significa o aumento da credibilidade e do peso da Rússia no cenário internacional. Eles não querem isso, embora tenham chegado a compreender que a sua primeira reação foi absolutamente escandalosa em termos de factos, em termos de ciência médica. Depois de o Presidente Putin da Federação da Rússia, Vladimir Putin, ter anunciado, em agosto de 2020, que a Rússia tinha uma vacina, as declarações que seguiram foram nada diplomáticas, deixando transparecer uma irritação, o senhor tem toda a razão.

    Agora muitos países (a República Checa e vários outros) dizem querer aguardar que a vacina Sputnik V seja certificada pela Agência Europeia de Medicamentos. A Hungria acredita que já está pronta para aplicá-la, como resultado, já estamos a começar a exportá-la para este país. O número de pedidos da Europa está a crescer. Outro dia, recebemos o pedido do Príncipe Alberto II do Mónaco para fornecer a vacina para toda a população do Principado.

    Quando foram publicadas as avaliações científicas feitas por organismos independentes, o Ocidente teve de reconhecer que a nossa vacina era boa. Mesmo assim, as tentativas de desacreditá-la continuam.

    Ontem, li uma declaração bastante ambígua do Presidente francês, Emmanuel Macron. Ele colocou a Rússia e os chineses na lista daqueles que pretendem obter vantagens no cenário internacional à custa das suas realizações na área de medicina. Anteontem, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, havia feito um discurso negativamente conotado no que respeita ao fornecimento da vacina russa a outros países. 

    Devemos seguir a nossa posição de princípio, muito correta, expressa pelo Presidente da Rússia, Vladimir Putin, no sentido de que fomos os primeiros a criar a vacina e iríamos aumentar a sua produção. Não seria fácil, disse ele, não tínhamos capacidades suficientes, por isso estávamos a negocia-lo com a Índia, a Coreia do Sul, e outros países. Ao mesmo tempo, ele disse que estávamos abertos a uma cooperação o mais ampla possível. 

    Outro aspeto a destacar. Outro dia, quando a ONU estava a debater esta questão, o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, exortou os países que tinham a vacina ou tinham dinheiro para comprá-la a não se esquecerem dos países pobres. Isso quando estamos a ser acusados de tentarmos ganhar pontos geopolíticos, exportando a nossa vacina. Portanto, há aqui uma contradição óbvia. O Ocidente está mal preparado para este debate.

    Pergunta: Verifica-se algo semelhante ao que aconteceu no Fórum de Davos onde o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, disse que não podíamos viver para beneficiar o "Bilhão do Ouro". Na realidade, estamos a ser acusados de fornecer a vacina a este "Bilhão do Ouro". Esta atitude para com a nossa vacina é porque foi criada na Rússia?

    Ministro Serguei Lavrov: Não encontro outra explicação, porque ninguém tentou sequer realizar uma análise médica ou científica. Disseram-nos logo que isso não podia ser, porque isso não podia ser nunca: "Ninguém faz nada tão depressa". Apenas em outubro de 2020, o Ocidente disse que não podia dizer que as coisas corriam bem em termos de vacina enquanto o Presidente da Rússia, Vladimir Putin, havia anunciado em agosto que a Rússia tinha uma vacina pronta. 

    Infelizmente, vejo que, em muitos casos, tudo o que fazemos, dizemos ou sugerimos encontra uma reação desconfiada. E isso é, na melhor das hipóteses. Como regra, dizem que "os russos estão a fazer novamente os seus jogos geopolíticos".

    Pergunta:  O Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Josep Borrell, que visitou recentemente a Rússia e com quem o senhor teve uma reunião, disse que a Rússia se afasta do Ocidente por iniciativa própria. Ao mesmo tempo, o secretário de imprensa do Presidente russo, Dmitry Peskov, disse que estávamos prontos a cooperar com a Europa. O senhor disse que estávamos prontos a romper as nossas relações, mas não estamos a rompê-las. O que é que está realmente a impedir que as relações entre a União Europeia e a Rússia sejam normais?

    Ministro Serguei Lavrov: De modo geral, a parcialidade. Trabalhei com o Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Josep Borrell, meu bom colega quando ele era Ministro dos Negócios Estrangeiros de Espanha. Agora muita gente procura imprimir uma tonalidade escandalosa à visita do Alto Representante à Federação da Rússia, esquecendo como tudo começou. Quando, em maio de 2019, Josep Borrell disse: "O nosso velho inimigo, a Rússia, está a dar novamente sinais de si e é novamente uma ameaça", pedimos esclarecimentos junto do seu serviço de protocolo. Disseram-nos que era uma figura de linguagem e que ele foi mal compreendido. Mas os seus pensamentos vieram para fora. 

    Somos vistos como forasteiro. Quando o jornalista Vladimir Soloviov me perguntou, durante a entrevista, se estávamos prontos para romper as relações com a União Europeia, eu disse que sim porque já não havia nenhumas relações. Como o ex-presidente americano Barack Obama disse uma vez (em relação à economia russa), as relações estavam "despedaçadas".

    É verdade, o Acordo de Parceria entrou em vigor em 1997 e continha toda uma série de objetivos declarativos para avançarmos rumo à construção de espaços comuns: económicos e humanitários. Durante muitos anos, tivemos um mecanismo de cimeiras, que se realizavam alternadamente de seis em seis meses na Rússia e na UE. Tínhamos reuniões anuais do Governo russo, de facto na íntegra, com a Comissão Europeia em que debatíamos os desafios enfrentados pelos agentes da cooperação no âmbito de mais de 20 diálogos setoriais. Tínhamos perspectiva da criação de quatro espaços comuns, mapas da estrada para cada um, projetos concretos. Tudo isso foi destruído, tal como o Conselho de Parceria e Cooperação onde o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo e o Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança passavam em revista todo o conjunto de relações. Isto deixou de existir muito antes da crise da Ucrânia.

    Há muitas pessoas no país a aguardar pela oportunidade de criticar duramente a política do governo russo no cenário internacional. Perguntam-nos como é que podemos dizer que estamos prontos para romper as relações com a União Europeia numa altura em que a UE é o nosso maior parceiro comercial e económico. Se encararmos a UE como parceiro coletivo, em termos de comércio bruto, é o nosso maior parceiro. Todavia, por exemplo, em 2013 (no período anterior aos acontecimentos ucranianos), a Rússia aderiu à Organização Mundial do Comércio. Desde que aderimos à OMC as nossas relações comerciais passaram a basear-se nos princípios desta organização, e não nos princípios propostos pela União Europeia. A UE como um todo, como um bloco comercial único, também participou nas atividades da OMC. Comerciámos com os países membros segundo os princípios da OMC. Se acham que a UE é um parceiro económico e comercial tão valioso, vejam as estatísticas: em 2013, o maior parceiro da UE foram os EUA (com cerca de 480 mil milhões de dólares em comércio bilateral), seguidos da China (com 428 mil milhões de dólares) e da Rússia (com 417 mil milhões). Por outras palavras, estes números são do mesmo quilate. O que está a acontecer agora? Em 2019, o comércio bilateral da União Europeia somou 750 mil milhões de dólares com os EUA, 650 mil milhões com a China, contra cerca de 280 mil milhões com a Rússia; em 2020, 218 mil milhões de dólares, contando com o Reino Unido, e 191 mil milhões de dólares, tirando o Reino Unido. 

    Qual é a causa disso? As sanções impostas pelo nosso maior e "valioso" parceiro económico por razões que, em nenhum momento, tiveram justificação factual. Pelo menos, não nos apresentaram nenhuns factos. No caso da Crimeia e da Região de Donbass tudo está claro: a União Europeia viu-se incapaz ou não quis evitar um golpe de Estado inconstitucional de natureza abertamente russófoba e acabou por virar tudo de pernas para o ar. Bruxelas "deitou as culpas para a vítima", impondo sanções contra a Rússia e não contra os golpistas que não deram a mínima às garantias da União Europeia que havia assinado os respetivos acordos. Como eu já disse, a UE deixou passar despercebido o facto de as ações do governo o qual ela apoiou terem sido abertamente antirrussas.

    Pergunta: Se não tivessem sido os acontecimentos na Ucrânia, as nossas relações com o Ocidente teriam chegado ao ponto em que agora se encontram?

    Ministro Serguei Lavrov: É-me difícil dizer. Mais tarde, sofremos acusações de "envenenamento de Salisbury". Não recebemos nenhuma peça de prova. Não nos permitiram encontrar-nos com o nosso cidadão. Algo semelhante verifica-se atualmente no caso de envenenamento de A. Navalny. 

    Pergunta: Tenho a sensação de que o Ocidente está à procura de um pretexto para piorar as relações bilaterais.

    Ministro Serguei Lavrov: Está, as razões nunca faltam: os pretextos sempre se encontram quando se precisa de canalizar as relações para o rumo desejado. Neste caso, não é que eles queiram piorar as relações bilaterais. Não creio que este seja o seu principal objetivo. Eles querem afirmar-se e começam a agir como os EUA, apresentando uma mentalidade de um grupo exclusivo de países. Citei o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, Heiko Maas. Quando lhe perguntaram porque eles continuavam a debater as sanções contra a Rússia e qual o objetivo que eles alcançaram após impor as sanções, ele disse não considerar que as sanções deveriam necessariamente ser impostas para alcançar algum objetivo. O facto de eles não deixarem impunes a ação da Rússia já confirmava alguma coisa.

    Eles começaram a ocultar factos que pudessem justificar as acusações contra a Rússia muito antes da crise ucraniana. Podemos citar 2007 em que Litvinenko foi envenenado no hospital. Houve uma tentativa de elucidar os factos com a ajuda de um médico legista. Depois, este processo foi declarado "público", o que, de acordo com a lógica de J. Orwell, significa no Reino Unido "processo secreto", no âmbito do qual nenhuns resultados do inquérito podem ser apresentados. Trata-se de problemas sistémicos.

    Listei aquilo que realmente tivemos nas nossas relações com a União Europeia. Já não resta nada, nem sequer contactos esporádicos sobre a agenda internacional. No caso do programa nuclear iraniano, fazemos parte de um grupo de países empenhados em trazê-lo de volta ao normal e não colaboramos com a União Europeia nesta questão. Quanto ao Médio Oriente, participamos no Quarteto de Mediadores Internacionais composto pela Rússia, os Estados Unidos, a UE e as Nações Unidas. Isto é, neste caso trata-se de uma cooperação multilateral e não das relações bilaterais com a UE. 

    Em relação aos passos dados pelas partes para impedir, por pouco que seja, uma deterioração ainda maior das relações bilaterais. Quando o Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Josep Borrell, se preparava para chegar a Moscovo, estávamos a pensar exatamente nisto. Ele sugeriu que tratássemos em conjunto das questões relacionadas com o setor de saúde, vacinas. Já falámos disso.  É pouco provável que a União Europeia como sediada em Bruxelas seja autorizada a trabalhar sozinha com instituições russas e a cooperar com a Rússia em matéria de vacinas. É mais provável que cooperemos diretamente com os fabricantes da vacina AstraZeneca, como já está a acontecer.

    Na véspera da visita de Josep Borrell, sugerimos aos seus peritos que o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo e o Alto Representante da UE para o Médio Oriente, onde as nossas posições são praticamente idênticas fizéssemos uma declaração conjunta para exortar à retomada das atividades do Quarteto, ao reinício das negociações diretas palestino-israelitas, ao respeito pelas resoluções existentes da ONU, etc.

    Passámos-lhes uma proposta de declaração absolutamente aceitável, de uma página e meia. Poucos dias antes da sua chegada, recebemos uma notificação de que não deu certo. Vou-lhe dizer um segredo, porque é um exemplo gritante.

    Durante a reunião, perguntei a Josep Borrell: "Como vão as coisas com a declaração, porque é que não deu certo?" Começou a virar a cabeça para os lados. Como se verificou e ele confirmou, ninguém lhe tinha sequer dito isso. É este o tipo de pessoas que se ocupam daquilo a que alguns dos nossos liberais chamam "relações com a UE".

    Pergunta: Para terminar este assunto. Nasci na URSS. A URSS e o Ocidente tinham ideologias e economias diferentes. Depois, tudo se tornou igual: eles eram pela democracia, e nós éramos pela democracia, eles tinham uma economia de mercado, e nós tínhamos uma economia de mercado. Então quais são as contradições? Porque é que não podemos, até agora, encontrar uma linguagem comum a qual, na minha opinião, tínhamos nos anos 90? Porque conseguimos encontra-la naquela altura?

    Ministro Serguei Lavrov: Conseguimos encontra-la naquela altura porque não havia na Rússia divergências quanto à resposta à pergunta sobre quem "mandava na casa". O Presidente russo, Vladimir Putin, disse isso várias vezes. Decidiram que chegou o fim da história. Francis Fukuyama declarou que, daí em diante, o pensamento liberal iria governar o mundo. Agora há novas tentativas de colocar este pensamento liberal em primeiro plano da luta pela influência no cenário internacional. Mas quando a Rússia disse que não queria viver numa "casa cujo dono se nomeou a si próprio", começaram dificuldades de relacionamento. 

    No início, quando Vladimir Putin subiu à Presidência do país, ele e a sua equipa tentaram enviar sinais diplomáticos que são normalmente compreendidos pelas pessoas cultas e inteligentes. Mas ninguém tomou nota disso. Então teve de repetir isso de forma educada e franca no seu "Discurso de Munique". 

    Quando ninguém percebeu este sinal (ou melhor, tomaram novamente a Rússia por "desordeiro" no cenário internacional e quiseram ensinar-lhe bons costumes), tudo isso começou.

    Pergunta: Quanto às sanções. Hoje, a agência Bloomberg divulgou uma notícia de que novas sanções contra a Rússia estão a ser preparadas devido ao projeto Corrente do Norte-2 e que estas serão "brandas". Por outro lado, afirma-se que os norte-americanos querem impedir a concretização do projeto de modo a não entrar em conflito com a Alemanha. Qual é a nossa situação?

    Ministro Serguei Lavrov: Encontramo-nos na situação em que um país cumpre a 100% os compromissos assumidos pelas suas empresas envolvidas no projeto juntamente com as empresas dos países da UE que aderiram a este projeto. A atual situação deve-se, em grande medida, à decisão tomada por aquilo a que chamamos União Europeia, decisão que mostra de forma convincente que tipo de associação ela é. Quando, há alguns anos, os polacos e os seus companheiros tentaram travar o projeto Corrente do Norte-2, pedimos um parecer oficial especial do serviço jurídico da Comissão Europeia. O documento apresentado afirmava sem reservas que o projeto de investimento tinha sido lançado muito antes de a Diretiva do Gás da UE, o "terceiro pacote energético", sofrer alterações. Pronto. O assunto está encerrado e é tido como tal por qualquer pessoa que respeite a lei. No entanto, aconteceu o contrário. A Comissão Europeia iniciou procedimentos internos quase-legais e concluiu que o projeto havia sido realmente iniciado antes, mas, de qualquer maneira, era abrangido pelo "terceiro pacote energético" e pela Diretiva do Gás. É o parceiro que temos.

    Quanto à questão de como nos permitimos "atacá-los" e expressar a nossa disponibilidade em romper as relações com eles numa altura em que eles são o nosso principal parceiro económico, veja-se que tipo de parceiro económico temos. Só a Alemanha está agora a lutar por este projeto.

    Na verdade, a administração Biden não vai anular nada daquilo que Donald Trump fez, exceto a retirada do país da Organização Mundial de Saúde (OMS), para onde os democratas vão regressar.

    Realizou-se uma reunião dos Ministros da Defesa da NATO. Os EUA não se retrataram da exigência de que os países membros pagassem 2% do seu PIB para a defesa, ou seja, para as compras de armas americanas, nem da de que a Europa deixasse de participar no projeto Corrente do Norte -2 e nas questões prejudiciais à segurança europeia. Bem, conseguem ver melhor a partir daí, não conseguem? É quanto à questão de quem manda na casa. A Europa também quer mandar na sua casa, mas lhe dizem que deve saber qual é o seu lugar. A situação do projeto Corrente do Norte-2 é completamente clara.

    Atualmente, escreve-se que Washington e Berlim estão a negociar a possibilidade de concluir as obras no âmbito do projeto Corrente do Norte - 2. No entanto, se o trânsito de gás através da Ucrânia diminuir, o gasoduto Corrente do Norte-2 será encerrado. Não posso decidir pela Alemanha, mas é óbvio que esta ressalva é humilhante. Como disse o Presidente russo, Vladimir Putin, numa reunião com os líderes das bancadas parlamentares russas, esta é mais uma prova de que eles querem apoiar financeiramente o seu projeto geopolítico intitulado "Ucrânia" à custa da Rússia.

    Pergunta: E nós devemos pagar por este projeto geopolítico? Porque é que eles pensam que temos de pagar por isso?

    Ministro Serguei Lavrov: Porque eles não querem pagar por isso. Só precisam do regime ucraniano para irritar constantemente a Rússia e procurar novos pretextos para dar continuidade à sua política russofóbica. Querem enfraquecer tudo à nossa volta: Bielorrússia, Ásia Central e agora Transcaucásia. Quando o Presidente russo, Vladimir Putin, intermediou bem o conflito entre a Arménia e o Azerbaijão, eles ficaram indignados: como isso poderia ter acontecido sem eles? Agora estão a tentar penetrar e aumentar a sua atividade naquela região. Isto não tem nada a ver com a ideologia da época da Guerra Fria nem com o confronto entre os dois sistemas, do qual o senhor falou há alguns minutos. Tudo isto acontece porque os nossos parceiros ocidentais não quererem, nem estão dispostos nem sabem falar de igual para igual, quer se trate da Rússia, da China ou de um outro país. Querem criar uma estrutura onde eles estejam necessariamente no comando. É por isso que eles não gostam cada vez mais da ONU, porque não conseguem controlá-la a 100%.

    Pergunta: O senhor acha que a UE é realmente coesa ou tem países que dizem querer ser amigos da Rússia? Os principais ideólogos das sanções são os países bálticos que não têm um grande peso na UE, mas, por alguma razão, lhes dão ouvidos.

    Ministro Serguei Lavrov: Não é bom perguntar sobre a coesão da UE alguns meses após o Brexit. A UE não é tão coesa como antes. Muitos países têm relações com a Rússia. A visita de Josep Borrell foi a primeira a este nível em três anos. Neste mesmo espaço de tempo, pelo menos duas dezenas de ministros dos países comunitários visitaram a Rússia. Temos um bom diálogo. Não desperdiçamos tempo para com os problemas do confronto e declarações moralistas, embora tragam naturalmente consigo textos, de uma ou duas páginas, elaborados de acordo com as orientações de Bruxelas para ler na Rússia. 

    Pergunta: Isto é, têm um manual de instruções? 

    Ministro Serguei Lavrov: Claro que têm. Não podem permitir-se nenhuma omissão. Devem mencionar tudo: o caso A. Navalny ou, por exemplo, o caso Skripal ou a situação dos direitos humanos, como era comum no passado. Agora falam do caso do cientista Dmitriev, da Carélia. Não aceitam nenhuns argumentos a favor do seu envolvimento em crimes, pedofilia. Eles leem, eu cito contra-argumentos, explico a nossa visão e as razões por que não conseguimos obter, até agora, provas no caso A. Navalny ou no caso Skripal. Em resposta, leem novamente a mesma página. À margem da "solidariedade comunitária", temos uma conversa normal. Sim, a UE explica-lhes quais as condições em que os seus respetivos países participam na Organização Mundial do Comércio (OMC). Nós comerciamos na OMC com estes países, com base nas condições e que a Rússia aderiu a este organismo internacional. A UE não tem nenhuma relação com a nossa cooperação na área de comércio e investimento, se não mencionarmos as suas tentativas de sufocar as nossas relações económicas e comerciais por meio de sanções. 

    O senhor mencionou os países bálticos. Sim, eles "estão no comando". Já o disse várias vezes em entrevistas aos seus colegas. Em 2004, quando estes países estavam a ser arrastados apressadamente para a UE, a Rússia tinha diálogos muito francos com Bruxelas (a Comissão Europeia era presidida por Romano Prodi). Em 2005, fixámos o objetivo de adotar um regime de isenção de vistos.

    Pergunta: Ninguém se lembra disso agora.

    Ministro Serguei Lavrov: Lembramo-nos disso quando respondemos àqueles que nos perguntam sobre como ousamos dizer que estamos prontos para romper as relações com a UE. O senhor mencionou os países bálticos. Negociámos, durante longo tempo, para modernizar o Acordo de Parceria e Cooperação entre a Rússia e a UE denunciado pela UE em 2014. Este instrumento tinha por objetivo irmos um pouco além das normas da OMC e acordarmos as preferências comerciais adicionais. Tínhamos o objetivo, já esquecido, de criar uma área de livre comércio. No entanto, tínhamos intenções de modernizar o acordo para liberalizar ainda mais o nosso comércio, em complemento às normas da OMC. Em 2014, tudo isso parou, um outro exemplo do rompimento das relações bilaterais. 

    O acordo sobre a isenção de vistos também estava pronto em 2013. Cumprimos todas as condições da UE: concordámos em que o regime de isenção de vistos só abrangesse os titulares dos passaportes biométricos, que aqueles que violassem as regras de entrada na UE ou de estada na UE fossem readmitidos (assinámos o respetivo acordo). Fizemos tudo o que eles nos pediram e que nos convinha. Quando chegou o tempo de assiná-lo e ratificá-lo, a UE disse-nos: "Vamos esperar". Descobrimos logo a causa disso, eles não a esconderam. Os manda-chuvas de Bruxelas chegaram à conclusão de que seria incorreto conceder à Rússia a isenção de vistos antes de a Geórgia, Ucrânia e Moldávia a obterem.

    Pergunta: Por outras palavras, a questão da Rússia passou a depender de outros países?

    Ministro Serguei Lavrov: Sim, por iniciativa dos países bálticos. Isto também diz respeito à questão das relações com a UE. Esta é a atitude das pessoas que decidiram que são Europa, mas não o são. A Rússia encara a Europa em toda a sua diversidade. Se os manda-chuvas de Bruxelas não gostam disso, o amor não pode ser forçado a acontecer.

    Pergunta: A Europa vai até aos Urais.

    Ministro Serguei Lavrov: Até aos Urais. Em 2009, quando José Manuel Barroso era presidente da Comissão Europeia, realizámos uma cimeira Rússia-UE em Khabarovsk. Os nossos colegas europeus chegaram à noite. Saíram para dar um passeio pelo marginal. Levámo-los a dar uma volta pela cidade. José Manuel Barroso disse: "É impressionante, voámos 13 horas de Bruxelas para chegar aqui e continuamos a estar na Europa". Esta é a essência do slogan "Europa do Atlântico ao Pacífico".

    Pergunta: Permita-me perguntar sobre um outro país, a Bielorrússia. No dia 22 de fevereiro de 2021, o Presidente bielorrusso, Aleksandr Lukachenko, chegará à Rússia para se reunir com o Presidente russo. Vladimir Makei, Ministro dos Negócios Estrangeiros da Bielorrússia, deu recentemente uma entrevista à holding de média RBC em que mencionou a natureza multivetorial da política externa da Bielorrússia. O senhor acha que foi possível chegar a um acordo com Minsk sobre a integração? O que devemos esperar desta reunião?

    Ministro Serguei Lavrov: Uma política multivetorial não deve ser vista como expressão obscena. Qualquer país normal quer uma política multivetorial.  O princípio multivetorial também está presente na política externa russa desde 2002. Todavia, entendemos que o princípio multivetorial só pode ser aplicado com base na igualdade de direitos, respeito e procura de um equilíbrio de interesses e vantagem mútua. Esta é a única maneira.

    Primeiro somos ameaçados com sanções, e depois as mesmas pessoas nos dizem que "chegámos ao extremo", aplicando-nos restrições unilaterais. Depois dizem-nos que "não somos bons" porque "olhamos para o Oriente". Tudo está virado de cabeça para baixo.

    A Rússia é uma potência eurasiática. Temos estreitos contactos com a Europa. Estes contactos foram cultivados durante séculos e remontam à época em que ninguém pensava na União Europeia e os europeus lutavam e competiam entre si. A propósito, reconciliámo-los frequentemente e ajudámo-los a alcançar um resultado justo nas guerras.

    Pergunta: Até salvámos as suas monarquias?

    Ministro Serguei Lavrov: Sim, e eles sabem disso. Tal como o regime republicano nos EUA, em certa medida. 

    Estes aspetos da nossa vizinhança prejudicam quase todas as relações bilaterais, deixando apenas contactos esporádicos sobre algumas crises internacionais que são de interesse para a União Europeia, para que esta não desapareça do cenário internacional. São, em grande parte, motivados pelo desejo de serem notados na questão síria e noutras questões. Se eles não querem cooperar connosco, continuamos a cooperar com os nossos outros vizinhos que não têm este tipo de caprichos.

    Objetivamente, o nosso comércio com a União Europeia diminuiu praticamente para metade desde 2013, duplicando, neste mesmo período, com a China. 

    Pergunta:  De volta a Minsk. O que devemos esperar da reunião entre o Presidente russo, Vladimir Putin, e o Presidente bielorrusso, Aleksandr Lukachenko, no dia 22 de fevereiro?

    Ministro Serguei Lavrov: Há quem queira acha que o desejo de Minsk de seguir uma política multivetorial mostra que a Bielorrússia é um parceiro desconfiável. Acho que não. 

    No Conselho da Europa, do qual a Bielorrússia ainda não faz parte, somos a favor de que este organismo estabeleça relações com Minsk. Apoiámos a adesão de Minsk a algumas convenções do Conselho da Europa. Sempre fomos a favor de relações normais da Bielorrússia com os seus vizinhos ocidentais. Agora nem sequer sei o que o Conselho da Europa irá fazer. A russofobia invadiu a maioria dos países membros da UE aí representados, enquanto os russófobos mais ferrenhos impõem a sua ordem de trabalhos.

    Li as afirmações do Presidente da Bielorrússia, Aleksandr Lukachenko (nem toda a entrevista, alguns excertos) de que não ele vê nenhuns obstáculos ao estreitamento da integração. Os dois Presidentes atuarão conforme o acordo a que chegarão. 

    Faltam dois dias para a reunião. Penso que não faz sentido antecipar os seus resultados. Saberemos de tudo muito em breve.

    Pergunta: O Presidente dos EUA, Joe Biden, disse recentemente que os EUA não seguirão mais na estreia dos russos (pode-se pensar que Trump seguia na nossa estreia). Como podem as nossas relações ser organizadas hoje? Temos o que conversar com Washington? O senhor acha que os EUA estão dispostos a conversar connosco?

    Ministro Serguei Lavrov: Estes comentários sobre quem seguiu a quem deixam transparecer uma cisão muito profunda na sociedade americana. As coisas chegaram a tal ponto que os políticos americanos começaram a expressar animosidade pessoal, às vezes de forma agressiva, o que é contrário à cultura política americana. Na verdade, eles nunca foram muito comedidos nas suas declarações durante a campanha eleitoral para a Presidência do país ou para o Congresso, mas não me lembro de as coisas chegarem a este ponto. 

    Os nossos meios de comunicação liberais orientados para o Ocidente, emprenhados em encontrar na Rússia objetos para a crítica, passam dos limites da decência, descem a ofensas pessoais, quebram o decoro jornalístico e atuam como propagandistas de carreira, do que não se cansam de acusar os outros.

    O facto de termos conseguido prorrogar rapidamente o Tratado de Redução de Armas Estratégicas (START-3) é um passo muito positivo. Todavia, não devemos sobrestima-lo nem o subestimar. Nos seus discursos eleitorais, Joe Biden disse que estava pronto para prorrogar este Tratado, mas não devemos esquecer que estas foram as suas declarações eleitorais. Depois, ele poderia dar uma interpretação diferente à sua promessa eleitoral, mas ele prorrogou este documento importante por mais cinco anos sem quaisquer condições, conforme propusemos. Se isto não tivesse acontecido, não teria havido nenhum instrumento jurídico internacional, não só nas relações entre a Rússia e os Estados Unidos, como também em toda a paleta de relações multilaterais, que impusesse restrições no domínio do desarmamento, controlo de armas e não-proliferação de armas nucleares.

    É muito importante que o Presidente russo, Vladimir Putin, e o Presidente americano, Joe Biden, tenham reiterado na sua primeira conversa telefónica após as eleições presidenciais americanas a sua intenção de dar continuidade às negociações sobre a estabilidade estratégica nas novas circunstâncias. Isso aconteceu quando faltavam poucos dias para o dia 5 de fevereiro de 2021, data a partir da qual o Tratado foi prorrogado por mais cinco anos. A situação mudou muito desde 2010: os americanos e nós temos novas armas, das quais algumas são abrangidas pelo Novo Tratado START. Dissemos isso no ano passado e dissemos que estas armas deveriam ser tidas em conta. Todavia, algumas outras armas não são abrangidas pelo Tratado por utilizarem princípios completamente diferentes.  

    Pergunta: O senhor tem em vista armas hipersónicas?

    Ministro Serguei Lavrov: Sim, os americanos têm armas semelhantes. As armas hipersónicas, caso se trata de mísseis balísticos, enquadram-se no Novo Tratado START.

    Algumas armas são abrangidas pelo Novo Tratado START. Devemos incluir estas armas no Tratado para os próximos cinco anos e ver como tudo isso será verificado. Outras armas não são abrangidas. 

    Os americanos têm um novo sistema, o conceito de ataque global imediato (convencional). Propusemos colocar em cima da mesa de negociações todos os temas sem exceção que impactam, de uma forma ou de outra, a estabilidade estratégica e os interesses legítimos das partes contratantes.

    Pergunta: Eles aceitaram-no? Estão prontos para isso?

    Ministro Serguei Lavrov: Em outubro passado, passámos à administração Trump um projeto de "entendimentos" conjuntos, uma espécie de convite para a negociação sobre a ordem de trabalhos. Não recebemos nenhuma resposta. O Enviado Especial do Presidente para o Controlo de Armas, Marshal Billingslea, não se ocupava deste assunto. Em vez disso, ele fazia declarações altissonantes de que os "EUA desejam fazê-lo de todo o coração enquanto os russos não querem fazer isso" 

    Quando falei com o Secretário de Estado, Antony Blinken, eu disse que entregámos à administração anterior as nossas propostas sobre esta e várias outras questões, incluindo a segurança cibernética e as preocupações devido à ingerência nos assuntos internos uns dos outros. Gostaríamos de os renovar para que a administração Biden nos pudesse dar a sua opinião. Compreendemos que eles precisam de tempo para se instalar na Casa Branca e no Departamento de Estado. Esperamos que isso não demore muito.

    Há ainda questões em matéria de desarmamento. Por exemplo, a composição dos negociadores. A posição americana em relação à China e a uma série de outras questões elaborada por Donald Trump continua inalterada. 

    Se falarmos da possibilidade de negociações multilaterais, em primeiro lugar, isto não deve cancelar os acordos Rússia-EUA, porque temos muitas vezes mais armas do que os outros países nucleares. Em segundo lugar, se tornarmos este processo multilateral, deverá haver um acordo voluntário de todos os participantes (em primeiro lugar, as cinco potências nucleares). Nunca vamos persuadir a China a fazê-lo. Respeitamos a posição de Pequim que quer alcançar-nos ou propõe que, primeiro, reduzamos os nossos arsenais para o seu nível e depois conversemos. Em todas as circunstâncias, se este for um processo multilateral, não conseguiremos avançar sem o Reino Unido e a França. 

    A administração Trump insistiu na participação da China, dizendo ao mesmo tempo sobre os seus aliados que eles eram "normais", "nossos», literalmente usaram estas palavras. Tudo isto é ridículo.

    Nas áreas alheias ao processo de desarmamento, que é complicado e longo, não temos muitas esferas em que tenhamos perspetivas de uma cooperação construtiva.

    Pergunta: É porque têm visões completamente diferentes ou porque não querem relacionar-se connosco?

    Ministro Serguei Lavrov: A mentalidade de "quem manda na casa" e, como consequência, a busca de inimigos (a China ainda não foi chamada de inimiga, e nós já fomos apelidados de inimigo algumas vezes), não desapareceu, tanto mais que os democratas têm razões adicionais para intensificar esta política: dizem que, ao contrário de Donald Trump, eles não serão um "cão que se deixe mexer pelo rabo russo". 

    Pergunta: O senhor não tem a sensação de que os democratas tenham vindo para tirar a desforra da política da administração anterior para a Rússia: vão fazer-nos aquilo que Trump não conseguiu fazer em quatro anos?

    Ministro Serguei Lavrov: Disseram exatamente isso durante a campanha eleitoral. Joe Biden e a sua equipa não só disseram que a administração anterior era branda para com a Rússia, bajulava a Rússia e até trabalhava para o serviço de informações russo. Já Donald Trump rebatia, dizendo que era "o mais duro para com a Rússia". Disse que gostava de Vladimir Putin, impondo, contudo, mais sanções do que todos os seus antecessores tomados em conjunto. 

    As "lutas de cowboys" para ver quem é mais forte e duro também estiveram presentes. Mas estes são fenómenos normais da política americana, especialmente neste momento. As contradições entre os liberais agravaram-se ao máximo, eles pensavam ser já impossível conter esta tendência. De repente veio Donald Trump que não gostava muito dos princípios e posições liberais, pensando mais nos interesses vitais daqueles que fundaram os EUA, chegaram ali (os EUA sempre foram um país de imigrantes) e lhes deram leis. Eis a questão. A questão é saber se tu és leal ao país que te recebeu ou queres corroer os seus princípios?

    Pergunta: Se estás integrado ou não? 

    Ministro Serguei Lavrov: Sim e queres ser dono deste país. Tudo se resume a isto novamente.

    Pergunta: Bem, vamos à questão de Nagorno-Karabakh. Felizmente a guerra terminou, um acordo de paz foi assinado. Muito se falou sobre o papel da Rússia e do Azerbaijão. Gostaria de perguntar sobre a Turquia. Estive no Azerbaijão durante a guerra e ouvi dizer muito que todos os azeris eram pelo "Grande Turano" (um Estado desde a Turquia até à nossa Ásia Central). Moscovo não teme um reforço da Turquia?

    Ministro Serguei Lavrov: Esta é uma opinião de uma parte da sociedade. Não sei dizer em percentagem. Não creio que todos aqueles que lhe disseram isto saibam o que é o "Grande Turano".

    O tema das relações das etnias turcas deixou uma profunda marca na cooperação da Turquia com o Azerbaijão e alguns países da Ásia Central.

    Existe um Conselho de Cooperação dos Estados de Língua Turca no qual participamos como observador. Algumas das nossas repúblicas federadas estão interessadas em contactos e promovem ali alguns projetos concretos. 

    Existe a TURKSOY, a Organização Internacional da Cultura Turca. Existe também uma estrutura como Assembleia Parlamentar dos Estados de Língua Turca. Todos estes organismos funcionam há muito tempo.  Têm os seus próprios planos, realizam atividades culturais, linguísticas e educativas. 

    Se falamos do "Grande Turano" como formação supranacional no sentido histórico, penso que a Turquia não tem este objetivo. Não vejo como, na realidade, os países que compunham outrora a URSS e se tornaram independentes podem apoiar esta ideia. Pelo contrário, todo o pathos da sua política externa e as suas atividades práticas consiste em fortalecer os seus países. 

    Quanto à Turquia, ela tem interesses que se referem basicamente aos seus compatriotas que falam a mesma língua. Queremos também que o "mundo russo" tenha a possibilidade de se comunicar. Criámos uma rede ramificada de organizações das comunidades russas no estrangeiro, abrimos centros "Mundo Russo" em universidades de outros países que têm fins puramente linguísticos, educacionais e científicos.

    A Polónia encerrou recentemente o centro da língua e cultura russa de Cracóvia criado pela fundação "Mundo Russo". Este é um passo lógico para a Polónia, bem como para os países bálticos que lutam contra tudo o que é russo. A Ucrânia também começou a fazê-lo, cortando o sinal de emissoras e estabelecendo proibições linguísticas. Estamos bem cientes disto. Não deixaremos de chamar a atenção da OSCE, do Conselho da Europa e das respectivas instituições da ONU para isso. Não permitiremos que se faça crer que se trata dos problemas inerentes ao "crescimento" e à "maturação" da nação ucraniana, que, como se costuma dizer, é "sofredora". Os próprios ucranianos declaram que descendem de "Alexandre, o Magno". Então respondam pelas regras que adotam.

    Passou a ser norma que a UE, a Alemanha e a França, como participantes no "formato Normandia", "fogem" a desempenhar as suas funções de "ensinar" a Ucrânia a cumprir os acordos de Minsk. Isto não honra a Alemanha nem a França.

    Pergunta: Foi declarado que a Ucrânia havia sido reconhecida como país hostil à Rússia. Como é que isto irá afetar as nossas relações?

    Ministro Serguei Lavrov: É uma simples característica de um país. O que de amistoso tem? Encerra escolas russas, proíbe a utilização da língua russa nas lojas, permite que o nazi queime bandeiras russas.

    Pergunta: Isto faz lembrar o que aconteceu nos países bálticos há 20-30 anos.

    Ministro Serguei Lavrov: Quando os países bálticos foram admitidos na UE, perguntámos aos burocratas de Bruxelas, aos líderes europeus se estavam convincentes das suas ações. Até agora há problemas que não se compatibilizam com os critérios da admissão na UE, entre os quais o desrespeito pelos direitos das minorias nacionais de língua russa na Letónia e na Estónia. Foi-nos dito que os países bálticos tinham fobias em relação à Rússia (guerra, a chamada ocupação, etc.) e que a UE a tomaria sob a sua tutela. Quando eles se acalmassem, as minorias nacionais ficariam felizes e contentes. Tudo aconteceu exatamente ao contrário. Os russos não obtiveram nenhuns direitos, a prática de apatridia mantém-se. 

    Pergunta:  Voltemos à Turquia: o fortalecimento de Ancara, o seu papel ativo na guerra de Nagorno-Karabakh, a visita do Presidente Recep Erdogan a Chipre do Norte (a primeira em muitos anos). Como é que Moscovo encara isto?

    Ministro Serguei Lavrov: Se falarmos da República da Turquia e de Chipre do Norte, encaramos isso como as relações de Ancara com os seus "compatriotas". Por enquanto, não ouvi dizer que a Turquia se tenha recusado a cumprir os seus compromissos assumidos na ONU em relação às partes em conflito, os quais são a procura de uma solução mutuamente aceitável, a criação de uma federação bizonal, bicomunitária. A questão é saber se esta federação será forte ou fraca, não havendo, contudo, divergências quanto à tese de que deve ser um único Estado, embora, num passado recente, tenha havido dúvidas sobre esta ideia e se tenha sugerido criar dois Estados. Sabemos que Ancara está interessada em que os turcos de Chipre vivam em condições de igualdade e de garantia dos seus direitos. Somos a favor de que estes motivos invocados pela Turquia para justificar as suas ações no Mediterrâneo Oriental e relacionadas, inclusive, aos hidrocarbonetos sirvam de base para o seu diálogo com a Grécia e Chipre.

    No dia 17 de fevereiro, tive uma conversa com o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Grécia, Nikos Dendias. Ele disse-me que, no dia de 25 de janeiro, havia tido um contacto de sondagem com o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Turquia, Mevlut Çavusoglu. Eles não resolveram todos os problemas. Mas é bom que o diálogo tenha sido estabelecido. Concordaram em prossegui-lo. No dia 18 de fevereiro, falei com Mevlut Çavusoglu. Continuámos a trocar opiniões no seguimento dos contactos telefónicos entre os Presidentes Vladimir Putin e Recep Erdogan sobre a Síria, Líbia, Nagorno-Karabakh e as relações bilaterais. Estamos a construir uma central nuclear, temos o projeto Corrente Turca, temos muito em comum.

    Em outubro de 2019, realizou-se, em Sochi, a primeira cimeira de sempre Rússia-África. O evento reuniu um número recorde de Chefes de Estado e de Governo. Quando preparávamos a cimeira, analisávamos como as relações com África se desenvolviam como iam as coisas com o aumento da nossa presença neste continente, o mais promissor numa perspectiva de longo prazo, como dizem os cientistas políticos. Analisávamos como outros países se instalavam ali. Desde 2002, o número de embaixadas da Turquia em África cresceu de 12 para 42. A relação comercial entre a Turquia e a África movimenta cerca de 20 mil milhões de dólares por ano, enquanto a nossa, cerca de 15 mil milhões de dólares. É um exemplo de como a Turquia vê as oportunidades. 

    Pergunta: Pode ser porque a Turquia esteja dececionada com a UE por não ter sido admitida? 

    Ministro Serguei Lavrov: Penso que isto também desempenha um papel. Nos seus contactos com a UE, a Turquia continua a insistir que lhe prometeram a admissão. A Turquia "abre os ombros", "ganha peso», apesar dos seus problemas económicos internos. O país vive acumulando a dívida pública, mas este modelo é muito usado no mundo.

    Pergunta: 2020 é um ano da pandemia. Em anos como este, os países deveriam unir-se e ajudar-se mutuamente. O senhor acha que isto aconteceu? Ou as divergências existentes não permitiram ao mundo unir-se nem mesmo para enfrentar a infeção da Covid-19?

    Ministro Serguei Lavrov: Chegámos ao ponto em que começámos a nossa conversa. Não há ideologias. Todavia, a atitude ideologizada e politizada para com a vacina russa não foi um sinal muito bom. O facto de a Rússia ter a vacina Sputnik V foi anunciado em agosto de 2020, muitos meses após a Cimeira do G20 (de março de 2020), onde Vladimir Putin se manifestou a favor de uma cooperação na produção de vacinas. Já nessa altura estávamos dispostos a criar equipas científicas conjuntas. Os países ocidentais, as suas empresas, não responderam à nossa proposta, não querendo ajudar os seus concorrentes. É quanto à união na área de medicina. 

    Há também a área humanitária. O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, e a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, exortaram a suspender, durante a pandemia, todas as sanções unilaterais em áreas que afetam diretamente alimentos, medicamentos e equipamento médico, a fim de aliviar a situação da população dos países que ficaram sob as sanções unilaterais (independentemente das suas causas). Não houve resposta dos autores das sanções (em primeiro lugar, os EUA e a UE). Também não houve resposta à proposta formulada pelo Presidente russo, Vladimir Putin, na Cimeira do G20 no sentido de criar "corredores verdes", no período da pandemia, para promover mercadorias sob um regime o mais brando possível: sem impostos, direitos, tarifas, atrasos, inspeções alfandegárias.

    O "barco" em que estamos é um só e não é muito grande. Agora já há previsões de que a Covid-19 se manterá por muito tempo e será uma infeção sazonal, diferente da gripe e de outras doenças, exigindo sempre a aplicação de precauções, equipamento de proteção individual. A consciência disto deveria, de alguma forma, motivar os países, especialmente aqueles que hesitaram até recentemente, a cooperar de forma mais sincera.

    Entre os pontos positivos registados está o de os EUA terem regressado à Organização Mundial de Saúde (OMS). Alguns "cabeças-quentes" de Washington acreditam que agora os EUA irão controlar tudo. Os chineses no Secretariado da OMS são menos de 50, nós somos 25, os americanos são mais de 200, os delegados da NATO são mais de 2.000. A administração anterior dos EUA acusava a China de manipulações na OMS. Não é correto ou se trata da impotência total dos 2.000 delegados da NATO que devem constituir uma maioria no Secretariado da OMS.

    Há resultados positivos. Recentemente, este problema foi examinado na Assembleia Geral da ONU e no Conselho de Segurança. Agora o mais importante é concentrar os esforços na cooperação igual no âmbito da OMS. Para além das tentativas de "golpes palacianos" e estabelecer na OMS regras que não se baseiam necessariamente no consenso, existe uma ideia de levar decisões importantes sobre a política internacional na área de saúde para fora das estruturas universais. Já dissemos muitas vezes que existe a tendência de substituir o direito internacional por uma "ordem mundial baseada em regras". Como se verifica na prática, este conceito visa fazer com que todas as decisões não sejam elaboradas num círculo que tem a representação universal, porque ali se tem de discutir, procurar equilíbrios e compromissos, mas num círculo daqueles que sempre concordam e sejam apresentadas posteriormente como "verdade de última instância", após o que exigir que todos respeitem a decisão lavrada. 

    Isto está na origem da iniciativa franco-alemã sobre um novo multilateralismo e algumas das parcerias limitadas criadas no Ocidente. Por exemplo, os franceses criaram a Parceria Internacional contra a Impunidade do Uso de Armas Químicas. No âmbito desta parceria não universal e estranha à ONU, a UE cria o chamado regime de sanções "horizontais" que serão aplicadas contra os países indicados pela Parceria criada pela França. Um regime de sanções semelhante está a ser criado em matéria de segurança cibernética. Em vez de entabular uma discussão aberta, os franceses estão a promover uma parceria para proteger a liberdade no ciberespaço. Assistimos à criação de "regras que servirão de base para a ordem".

    Há tentativas de criar uma estrutura semelhante fora da OMS. Afinal, a saúde humana é uma área em que não devemos "brincar" à geopolítica, a menos que, por detrás disso, haja um objetivo conspirológico de reduzir a população mundial. Muitos estão agora a começar a construir teorias e conceitos semelhantes.