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Ministro Serguei Lavrov fala aos alunos da Universidade MGIMO em formato de videoconferência, Moscovo, 27 de abril de 2020

613-27-04-2020

Excelentíssimo senhor Reitor,

A Universidade Estatal das Relações Internacionais de Moscovo (MGIMO) está a adotar novas tecnologias no contexto do coronavírus, que evidentemente limitou a comunicação direta. Disseram-me que o senhor conseguiu fazer isso muito rapidamente sem prejudicar o material transmitido durante o curso lectivo. Estou convencido de que a MGIMO é capaz de realizar exames a um nível digno, organizar a defesa das teses de ano e o exame estatal final. Espero que o senhor consiga encontrar meios criativos para admitir mais alunos na Universidade. Não sei como vai ser organizada esta campanha, mas pode contar conosco, faremos tudo para o ajudar. Daremos um jeito de ser úteis.

Não acho que isso seria uma aula, parecendo mais com um seminário, porque acho importante destacar a parte interativa.

Não vou falar muito sobre como a infeção pelo coronavírus mudou aquilo que chamamos de paisagem geopolítica global, como tem vindo a afectar muitos aspectos das relações interestatais, da vida internacional. A economia mundial sofreu um duro golpe. A maioria dos especialistas acredita que a recuperação deverá ser prolongada. Obviamente, todo e qualquer contato entre pessoas ficou seriamente limitado, inclusive a nível de intercâmbios humanitários, educativos, científicos, turísticos. Infelizmente, as capacidades da diplomacia ficaram reduzidas. Já tive a oportunidade de comentar a capacidade de a comunicação on-line substituir contatos diretos. Tais métodos de conversação podem compensar, de forma insignificante, a comunicação viva, direta. Acho que a todos os meus colegas falta-lhes também isso. Pelo menos, ao conversar com eles por telefone regularmente, sinto semelhantes avaliações e sensações.

Estamos a preparar-nos a avaliar, de maneira abrangente, e a compreender as consequências da epidemia para a vida internacional, a elaborar abordagens conjuntas, complexas para a organização do nosso trabalho no período pós-pandemia. Com certeza, nesta etapa, bem como nas etapas seguintes, deveremos contar com um apoio e contribuição por parte do potencial científico e prático da MGIMO. Estamos interessados nisso.

No momento, ainda não compreendemos as consequências na sua totalidade, mas acho que há conclusões que podem ser feitas já hoje. A principal delas, a meu ver, é que a crise demonstrou com toda a clareza (se alguém precisou comprovar isso) a interdependência de todos os Estados, de todas as áreas do mundo contemporâneo.

Falamos desde há muito que era perigoso subestimar a natureza transfronteiriça de muitas ameaças, inclusive novos desafios, refiro-me ao terrorismo internacional, ao risco de uso não controlado de armas de extermínio em massa, ao cibercrime e a muito mais. Acresça a esta lista também os processos climáticos que têm preocupado vários países desde há muito e, para além disso, as pandemias semelhantes àquela que a humanidade está a viver. Nesta etapa, uma das principais conclusões, a meu ver, é que todos, até os céticos mais obstinados, devem compreender por fim que “fossos e muros” não salvam ninguém desta ameaça. Tentar agir cada um por si próprio, ficar quieto num “porto tranquilo”. Isso já é evidente para todos. Os países que tinham optado por fechar ao máximo a comunicação com o mundo eterno e aqueles que têm atitude mais filosófica (por exemplo, a Suécia), sofrem mais ou menos o mesmo. Ninguém ficou a salvo disso e não poderá ficar a salvo. Os nossos apelos, que tinham existido antes destes acontecimentos, a todos os países para trabalharem em conjunto, elaborar em conjunto as respostas às ameaças transfronteiriças, que não distinguem entre vítimas, eram relevantes naquela altura, e agora, com toda a certeza, são ainda mais relevantes, porque um imperativo das ações solidárias de toda a humanidade está evidentemente a crescer.

Espero que a crise (conforme o ditado: “ Há males que vão para o bem”) obrigue os atores da política mundial, principalmente aos Estados líderes, a recusarem-se das divergências conjunturais, a começarem a trabalhar em conjunto para o bem do futuro de paz e o bem-estar de todos os povos. Os Presidentes da Rússia e dos EUA, Vladimir Putin e Donald Trump, respetivamente, deram um sinal otimista. Ontem, eles ressaltaram este fator na sua Declaração Conjunta por motivo do 75o aniversário do encontro dos aliados no rio Elba. Naquela altura, a União Soviética e os EUA puderam superar as divergências, as contradições e unir os esforços para realizar o combate decisivo contra o inimigo comum. A tarefa atual é mais ou menos a mesma.

Claro que não nos apraz muito ver tentativas que infelizmente continuam no sentido de usar a crise atual para promover interesses de vantagem própria, momentáneos, ajustes de contas com governos indesejáveis ou com concorrentes geopolíticos. Repito que estamos a observar tais tentativas.

É paradoxal a situação em que os países que se posicionam como defensores dos direitos humanos, como principais tutores da democracia, continuam a usar ferramentas ilegítimas das chamadas sanções, adotadas sem o consentimento do CS da ONU, esforçam-se por politizar a ajuda humanitária no contexto da pandemia. Isso vulnera as camadas mais desprotegidas da sociedade que carecem de acesso à alimentação e geralmente aos cuidados médicos. Nós refutamos categoricamente a prática de métodos ilegais que eu mencionei. Mais do que isso, semelhante atitude é inadmissível numa época deeste grande mal da humanidade.

Vocês sabem que o Presidente Putin, durante a cimeira on-line do Grupo dos Vinte, lançou a iniciativa de criar “corredores verdes”, livres das guerras comerciais e das sanções para fornecer remédios, alimentos, equipamentos e tecnologias necessárias para se proteger do coronavírus e combater a pandemia. Nós apoiámos as declarações que fizeram neste sentido o Secretário-Geral da ONU, António Guterres, e a Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, Michelle Bachelet, que se manifestaram, entre outras coisas, a favor de levantar ou aliviar as restrições impostas contra certos países. Antes de tudo, trata-se dos países que são alvo de sanções unilaterais, além das introduzidas pela ONU. Mencionaria aqui a Síria, a Venezuela, a Coreia do Norte. Há uma série de outros países que também precisam deste alívio. A representação da Rússia junto da ONU está a formar activamente um grupo de partidários para fazer esta abordagem realidade.

Consideramos muito perigosas as tentativas de usar a situação atual para minar os princípios básicos do funcionamento da ONU, do sistema da Organização em geral, cujos estabelecimentos especializados continuam a ser mecanismos sem alternativa de cooperação multilateral nas respectivas áreas. Isso se aplica ainda à actividade da Organização Mundial da Saúde (OMS). Consideramos contraproducentes e injustos os ataques a esta Organização, as tentativas de culpá-la de tudo. A esmagadora maioria de países considera que a OMS tem agido de maneira profissional em todas as etapas da crise, ao tomar medidas preventivas, ao divulgar as informações e recomendações aos Estados.

Esperamos poder usar a compreensão das lições da crise que continua para fortalecer o caráter ONUcéntrico da arquitetura global. Claro que outras estruturas também existem, mas elas se baseiam nos princípios inscritos na Carta da ONU, fazendo um trabalho muito útil. Destacaria especialmente o Grupo dos Vinte, que reúne os países do Grupo dos Sete, do BRICS e de outras economias do mundo. A criação e o funcionamento do Grupo dos Vinte comprovam que os países ocidentais que se associam aos Sete, já não são capazes de examinar por conta própria os problemas chave do desenvolvimento mundial e conseguir decisões significantes.

Neste ano, comemoramos o 75o aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica, na Segunda Guerra Mundial. Todos os povos da União Soviética desempenharam o papel decisivo na vitória sobre o fascismo. É difícil sobreestimar a importância deste acontecimento para a humanidade. Hoje, devemos fazer tudo para não permitir que caia no esquecimento aquela façanha, evitar que os jovens esqueçam quais poderão vir a ser consequências do egoísmo nacional, da falta de união, de tolerância com manifestações de supremacia e xenofobia.

Infelizmente, as tentativas de reescrever a história continuam. O MNE da Rússia, juntamente com outros órgãos da Federação da Rússia, usando os nossos arquivos, faz tudo para lutar contra estas ideias destrutivas para não permitir revisão dos resultados jurídicos internacionais da Segunda Guerra Mundial, inclusive as decisões do Tribunal de Nuremberga. A esmagadora maioria dos membros da comunidade mundial partilha esta posição, o que é confirmado pela resolução sobre a inadmissibilidade da glorificação do nazismo, aceite anualmente pela Assembleia Geral da ONU, com a maioria dos votos a favor.

Os líderes dos países da Comunidade de Estados Independentes (CEI) adotaram uma declaração neste sentido que foi divulgada na ONU. A Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) também trabalha neste sentido. Espero que a MGIMO, que se empenha nos nossos esforços conjuntos, continue a contribuir para a tarefa comum de proteção da verdade histórica, de proteção do bom nome daqueles que sacrificaram as suas vidas pela paz.

O 75o aniversário da Vitória coincide com o 75o aniversário da criação da Organização das Nações Unidas que se tornou possível graças à nossa Vitória comum, graças ao espírito de cooperação e à coesão dos Aliados. Hoje, as grandes potências que deram a contribuição decisiva para a derrota do fascismo e para a criação da ONU, são especialmente responsáveis, conforme a Carta da Organização. Estamos cientes do valioso contributo do “quinteto” nesta etapa crucial do desenvolvimento mundial para a formação de um rumo necessário para a evolução das relações interestatais na época pós-crise.

Geralmente, numa situação em que o mundo está a passar por mudanças tectónicas, estão a ser relegados para o passado o modelo bipolar e os modelos monopolares, está a formar-se uma ordem do mundo policéntrica, com vários grandes centros de crescimento económico, de potência financeira; e o crescimento económico e as capacidades financeiras levam consigo a influência política. Isso não vai acontecer dentro de um ou dois meses nem anos. É uma época histórica prolongada. Está a mudar-se o mundo que durante um meio milénio tem seguido modelos ocidentais de desenvolvimento, e agora é preciso levar em conta maior diversidade cultural e civilizacional na política mundial.

Levando em conta o papel previsto para os cinco membros permanentes do CS da ONU pela sua Carta Magna, o Presidente russo propôs, no início do ano corrente, realizar cimeira de chefes de Estado e de governo para examinar todo o complexo de tarefas que precisam de solução ao nível superior para fazer valer, nas condições atuais, os princípios e os objetivos da Carta da ONU. Antes de tudo, a garantia da igualdade soberana dos Estados, a não intervenção nos seus assuntos internos, a garantia de regularização pacífica de conflitos e litígios. Todos os países do “quinteto” apoiaram a iniciativa. Primeiro, a China, depois, a França, os EUA e o Reino Unido. Agora, por razões óbvias, estamos a aguardar pela mudança da situação para podermos começar a elaborar na prática a organização deste encontro que só pode ser presencial. Todos concordam com isso. No entanto, o “quinteto” está a pensar em fazer uma contribuição também para o combate ao coronavírus. Neste sentido, uma videoconferência foi aprovada. A data está a ser discutida.

Continuaremos a usar o potencial da OCX, BRICS na formação da nova ordem mundial. Sem dúvida, a tarefa de aumentar a eficiência dos esforços coletivos em todos os sentidos estão a ser estudados na União Económica Eurasiática (UEE) e na CEI, inclusive no contexto do coronavírus.

Para terminar, volto a agradecer as autoridades da MGIMO, o seu corpo docente pela contribuição que vocês têm feito para dar passos concretos no exercício da política externa do nosso país e pela contribuição para os eventos dedicados à Vitória na Grande Guerra Patriótica. Tive a oportunidade de ouvir a bela canção interpretada pelo coro da Universidade. Isso gera sentimentos de um profundo respeito e gratidão.

Estou pronto para responder às suas perguntas.

Pergunta: Apesar de a Internet estar há muito tempo connosco, sempre se limitou a duplicar o ambiente offline. Agora não é uma janela, mas uma porta. Portanto, precisamos de construir um espaço de interação eficaz e criar uma nova arquitetura social. Até que ponto o senhor acha que a reação do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo foi eficaz? Quais mudanças permanecerão ou poderão ocorrer na estrutura da organização ou no seu processo de trabalho?

Ministro Serguei Lavrov: É muito difícil prever agora o que vai acontecer a várias organizações e como elas vão sobreviver a esta crise. Foram mencionadas a NATO e a UE. Qualquer organização enfrenta a necessidade de dar uma resposta à questão de como organizar o seu trabalho no futuro. Não se trata apenas de métodos, estes irão, certamente, mudar devido ao aumento da presença de eventos online nas agendas. Embora as reuniões presenciais se mantenham certamente, será muito tentador realizar algumas discussões pouco confidenciais em regime online, dado a experiência online bem sucedida, com a ajuda das novas tecnologias. Todavia, sublinho, os contactos pessoais são de importância fundamental. 

Evidentemente, o funcionamento das organizações e o conteúdo dos seus trabalhos mudarão. Há um debate sobre qual parte das competências de uma estrutura multilateral deve ser concedida a organismos supranacionais e qual parte deve ficar os governos nacionais. A isso acrescentou-se um outro debate sobre se não vale a pena tirar aos organismos supranacionais parte das funções que lhes foram confiadas anteriormente, porque o nível supranacional não permite ver tudo tão claramente como se vê a partir das capitais de países. A pandemia mostrou claramente a necessidade de confiar mais nas avaliações e decisões nacionais (muitos membros da UE declararam isso publicamente). Os governos nacionais compreendem melhor o que se passa nos seus territórios nacionais podem tomar medidas concretas muito mais rápidas e eficazes e, se necessário, o que também é muito importante, corrigir rapidamente os seus passos caso estes se tornem pouco adequados. 

Portanto, haverá muitas discussões, o mais importante é que compreendamos o que referi no meu discurso de abertura, ou seja, a partir de agora e para sempre, as ameaças enfrentadas pela humanidade não conhecerão obviamente quaisquer fronteiras. Muitas pessoas não queriam compreendê-lo, agora vão compreendê-lo. Estas ameaças não conhecem nenhumas fronteiras, não as respeitam nem as observam. Isto diz respeito ao terrorismo, à pirataria e a todas as outras formas de crime organizado, incluindo o tráfico de droga. Isto também diz respeito às crescentes possibilidades de entidades não-governamentais de obter acesso às armas de destruição em massa. Isto também diz respeito às calamidades naturais, desastres de origem tecnológica e, naturalmente, às doenças infecciosas. Os Chefes de Estado dos países BRICS, que mencionei, tomaram, há um par de anos, uma decisão especial de desenvolver a cooperação na luta contra as infecções e de produzir e aplicar conjuntamente vacinas. Esta semana, teremos uma videoconferência dos Ministros dos Negócios Estrangeiros dos BRICS. Falaremos, entre outros assuntos, sobre como poderíamos acelerar o funcionamento deste mecanismo criado por decisão dos Chefes de Estado. 

Repito, o mais importante é que estas mudanças inevitáveis sejam consideradas e acordadas conforme a lógica do nosso destino comum, de acordo com a lógica dos princípios consagrados na Carta das Nações Unidas e que implicam garantir a segurança por meios coletivos em todas as dimensões da nossa situação internacional.

Pergunta: Já estamos habituados à palavra “autoisolamento” e estamos a usá-la em relação aos humanos. Podemos dizer que hoje, os países se autoisolaram no cenário internacional e que o vírus não é a única causa disso? Em que medida as ideias de desglobalização poderão desenvolver-se na política mundial no futuro?

Ministro Serguei Lavrov: O termo autoisolamento foi usado pela primeira vez há muitos anos, há décadas. Foi utilizado em relação a uma das formas de política externa dos EUA. Em regra, quando o Partido Democrático se coloca à frente da administração norte-americana, atua sempre no cenário internacional com base no princípio da conveniência de um alcance global. Os republicanos preferem frequentemente recolher-se em si mesmos e não gastar muito tempo, dinheiro e energia para promover as prioridades da sua política externa nas regiões longínquas. 

A administração Trump começou com esta filosofia. Durante a sua campanha eleitoral, Donald Trump afirmou que os EUA não tinham nada que fazer nos países e regiões distantes e que deveriam terminar as guerras, absolutamente sem sentido. Os europeus sentiram muito rapidamente que os EUA não estavam propensas a assumir a responsabilidade por aquilo que estava a acontecer na Europa e se interessam mais por coisas tangíveis e pragmáticas, em primeiro lugar, pela venda externa de bens, serviços e armas norte-americanos. Donald Trump e a sua equipa insistem em que todos os membros da NATO paguem pelo menos dois por cento do seu PIB pela compra de armas, principalmente norte-americanas. Agora, no meio da pandemia do coronavírus, a Alemanha foi pressionada a comprometer-se a comprar bombardeiros norte-americanos para substituir os seus aviões de fabrico europeu com vida útil vencida. Note-se que os novos aviões serão de fabrico norte-americano, e não europeu, embora a indústria aeronáutica europeia, em primeiro lugar a Airbus e outros consórcios fiquem felizes ao receber uma encomenda no valor de dezenas de mil milhões de dólares. Mas Berlim vai comprar aviões norte-americanos. Este deve ser um reflexo da política que mencionei. A Alemanha vai comprar estes aviões para colocar neles armas nucleares norte-americanas armazenadas na Europa (em outros quatro países para além da Alemanha) e que, na nossa opinião, deveriam ser retiradas de lá. Este será provavelmente o tema das futuras negociações que ocorrerão quando os nossos colegas norte-americanos tiverem amadurecido para isso. Esperamos muito que as declarações sobre o interesse em entabular estas negociações não sejam meras palavras.  

Os outros países da UE, bem como os países da NATO, já dizem com alguma irritação que os EUA dizem e fazem cada vez mais coisas que os levam a crer que Washington não vai ajudar a Europa se alguma coisa acontecer. Não é claro o que eles querem dizer com isso, mas a Rússia não pretende fazer nada daquilo de que é acusada. Apesar de os EUA terem enviado contingentes de tropas adicionais à Europa, fazerem aumentar a presença da NATO no flanco leste, perto das fronteiras da Rússia, aumentarem o número de exercícios militares, os europeus continuam a ter a sensação de que os norte-americanos se isolam deles e não querem assumir uma responsabilidade demasiadamente grande pela segurança da Europa. Portanto, assim que o confinamento terminar, outros países também tenderão a recolher-se em si mesmos e a confiar mais em si próprios. 

Veja-se como está a decorrer o diálogo entre a Hungria e as instituições centrais da UE. Alguns outros países também adotaram leis que permitem aos seus respectivos governos agir, em situações de crise, sem olhar para as estruturas centrais da UE. 

A discussão sobre a correlação ideal entre as funções delegadas aos organismos supranacionais e as atribuídas aos governos nacionais está pela frente. Afirmámos reiteradas vezes estarmos interessados em uma União Europeia forte e unida, livre de velhas fobias e de novos receios fictícios e fiel aos acordos básicos fechados entre a Rússia e a UE. Esta nossa posição é sincera e honesta. O acordo de parceria e cooperação estratégica continua em vigor. Os nossos colegas europeus não o cumprem, cortando todos os canais de comunicação estabelecidos ao abrigo deste acordo, e colocaram-se em uma posição de ressentimento por não termos apoiado o golpe de Estado anticonstitucional na Ucrânia, apoiado por eles. Esta foi a principal causa. Assistiremos, portanto, a um desdobramento dialético. É possível que as tendências para o autoisolamento e apoio nas suas próprias forças se tornem mais fortes em muitos países. Ao mesmo tempo, chegarão a compreender que não basta apoiar-se nas próprias forças para combater ameaças transfronteiriças que, como já dissemos, desconhecem fronteiras. É necessário procurar um equilíbrio entre os países forte, pois os países fortes são hoje os que melhor combatem o coronavírus, e os compromissos internacionais sérios e duradouros relativos ao trabalho coletivo. Quanto aos contornos e configurações exatos do mundo após a vitória sobre o coronavírus, sabê-los-emos mais tarde.  

Pergunta: No início de abril, a Rússia enviou ajuda aos Países Unidos para combater a propagação do coronavírus. O número de contactos pessoais entre Vladimir Putin e Donald Trump aumentou. O Presidente dos EUA também se declarou disposto a enviar ajuda à Rússia, se necessário. Além disso, a Rússia e os EUA trabalham em conjunto para estabilizar o mercado de petróleo e concordando em elaborar medidas conjuntas. É possível dizer que, no meio da pandemia, as relações russo-norte- americanas estão a voltar à normalidade? 

Ministro Serguei Lavrov: As relações a nível presidencial nunca foram anormais. Foram sempre normais no sentido pleno. As conversas telefónicas e os contactos pessoais entre Vladimir Putin e Donald Trump, em Hamburgo, à margem do G20, depois em Helsínquia e na cimeira asiática do G20, foram sempre respeitosos e voltados para a promoção da cooperação. Durante estes contatos, as partes concordaram em constituir um Conselho Empresarial composto pelos executivos das maiores empresas privadas da Rússia e dos EUA, um conselho de peritos em que os atuais políticos, cientistas políticos e peritos possam fazer brainstromings sobre questões da estabilidade estratégica e da segurança global e elaborar recomendações para os governos dos dois países referentes a todos os aspectos das questões em causa. Durante estes contatos, as partes anuíram em retomar a articulação em matéria de cibersegurança, para que quaisquer receios ou preocupações de que alguém possa utilizar o ciberespaço para interferir nos assuntos internos da outra parte sejam abordados a nível de profissionais.  

Durante as recentes conversas, os dois Presidentes reiteraram e assinalaram a necessidade de retomar, quanto antes, e tornar abrangente o diálogo sobre a estabilidade estratégica de modo a relacionar diretamente esta questão às armas ofensivas estratégicas, uma vez que, em pouco menos de um ano, o Tratado START-III expira e novas armas vêm à tona. Estamos prontos para as discutir já fora do Tratado START-III. Tudo isto foi acordado a nível dos Presidentes. Infelizmente, praticamente nada disto se concretizou. A nova ronda do diálogo sobre a estabilidade estratégica realizou-se em janeiro deste ano, não tendo a parte norte-americana revelado nenhum impulso para a busca de soluções construtivas.

Mencionei a declaração de ontem de Vladimir Putin e Donald Trump por ocasião dos 75 anos do encontro no rio Elba. O documento é de menos de uma página e presta homenagem àqueles que lutaram e apertaram a mão no rio Elba, àqueles que trabalharam na retaguarda, construindo armas necessárias e fazendo tudo o que era necessário para que a vitória acontecesse. O documento contém também uma mensagem política fundamental ao mundo, segundo a qual a URSS e os EUA conseguiram ultrapassar as divergências e unir-se para travar uma batalha decisiva contra um inimigo comum. Esta última frase valeu a Donald Trump e a sua equipa uma enxurrada de críticas por parte da imprensa norte-americana. Ele é criticado por ter feito de novo o jogo de Vladimir Putin e ter tentado inocentá-lo. É esta a reação à constatação de um facto óbvio que só deve ser elogiado e que foi acolhido com grande entusiasmo pelas pessoas normais. 

Espero que ainda hoje consigamos ultrapassar as nossas divergências e sejamos capazes de combater as ameaças reais e não lidar com as falsificações. Por falar da Segunda Guerra Mundial e da Grande Guerra Patriótica, em maio de 1943, por iniciativa da União Soviética, a Internacional Comunista decidiu dissolver-se. Mais tarde, em uma entrevista à imprensa ocidental, Estaline disse sem rodeios que era necessário fazê-lo a fim de eliminar todos os obstáculos ideológicos à união dos esforços das grandes potências na luta contra o nazismo. Este é um dos exemplos que me veio à mente. É suficientemente indicativo para compreender o espírito das relações de aliados que prevaleceu durante os anos de luta contra um inimigo comum. Penso que, em muitos aspectos, as ameaças atuais exigem o mesmo nível de unidade.

Pergunta: O seu colega, Ministro dos Negócios Estrangeiros de França, Jean-Yves Le Drian, falou recentemente sobre o futuro do nosso mundo. Vou citar as suas palavras: “Receio que o mundo depois de mim seja semelhante ao anterior, mas nas suas piores manifestações”. O senhor não acha que a atual pandemia pode ter um impacto não só negativo como também positivo na cooperação entre os mais importantes players mundiais?

Ministro Serguei Lavrov: Penso que a pandemia terá um impacto na cooperação dos mais importantes players internacionais. Espero que a atual crise tenha um impacto positivo nas relações entre os países líderes. Não vi esta declaração de Jean-Yves Le Drian, mas sei que tem dado muitas entrevistas ultimamente, inclusive aquelas sobre o novo conceito de multilateralismo. 

Há quem afirme que, após a pandemia, o mundo será pior do que é agora. Estas previsões refletem-se, em parte, nos aspectos que hoje aqui referimos. Refiro-me à correlação entre o supranacional e o nacional, à tentação de se recolher em si mesmos e se cercar do mundo. Tudo isto é uma ilusão e não pode ser feito. Nós também compreendemos isso. Todavia, estas tendências irão certamente surgir em alguns políticos, estes apelos serão feitos durante a preparação para as eleições neste ou naquele país. 

Bem, eu acho que devemos orientar-nos pelos princípios básicos que ninguém contesta: a Carta das Nações Unidas, a igualdade soberana dos países, o respeito pela integridade territorial e pela independência política dos outros, a não-ingerência nos assuntos internos, a resolução pacífica dos conflitos e muito mais daquilo que os países fundadores da ONU escreveram na Carta da ONU, assinada posteriormente por 193 países do nosso planeta. Temos uma legitimidade única, uma estrutura única em termos de poderes, em termos de cobertura das questões da agenda: da paz e segurança ao meio ambiente, alimentação, combate à proliferação de armas de extermínio em massa e muito mais. 

Se o pessimismo que mencionou e que predetermina a deterioração da interação no sistema mundial foi demonstrado por um país com um espírito forte, como a França, isso não é muito positivo, talvez. 

Eu disse que já é o segundo ano que a França e a Alemanha promovem o conceito de multilateralismo, defendendo a criação de uma aliança dos seus apoiantes, ou seja, do multilateralismo. Eu havia perguntado por que razão Paris e Berlim e aqueles que os apoiam acreditavam que o multilateralismo era algo diferente da ONU? Não recebi, até agora, nenhuma resposta. Talvez, por uma questão de clareza, seja melhor falarmos da inclusão para deixar bem claro que todos os países devem fazer parte de um esforço conjunto. Provavelmente, uns serão mais ativos, outros, menos. Os grandes países, por definição, têm um peso maior. Os países de menor dimensão orientam-se tradicionalmente pelas opiniões dos grandes países, mas isso não altera o cerne da questão. Pode-se ser um líder, mas não se pode deixar ninguém de lado, muito menos por razões ideológicas. Se a União Europeia, representada pela França e pela Alemanha, assumiu a responsabilidade de declarar que o multilateralismo é a conquista da UE e que a UE é um modelo de conduta multilateral e de responsabilidade multilateral, então todos devem seguir o exemplo de Bruxelas? É um pouco presunçoso e descortês, porque o verdadeiro multilateralismo está corporizado na ONU. 

O princípio da democracia na Assembleia Geral: um país, um voto. No Conselho de Segurança prevalece o princípio da responsabilidade especial das potências nucleares, daí o seu compromisso sob a forma de veto. A própria Carta das Nações Unidas está equilibrada, reflete os papéis dos grandes países e, ao mesmo tempo, não deixa ninguém melindrado. Repito, a Assembleia Geral atua com base no princípio: um país, um voto. Por isso, a criação de alianças de toda a espécie fora desta estrutura multilateral única e totalmente legítima deixa sempre dúvidas. As tentativas dos nossos colegas ocidentais de levar questões que não lhes convêm para fora da ONU para solucioná-los isoladamente e apresentá-las posteriormente como exemplo da atividade coletiva verificam-se nas áreas de proliferação de armas químicas, de disseminação de informação, de proteção do ciberespaço e outras. Espero que façamos os possíveis para explicar os efeitos prejudiciais dos desdobramentos baseados em outras estruturas que não sejam a Carta das Nações Unidas.

Pergunta: Boa tarde, Ministro. Se me permite, antes de fazer a minha pergunta, eu gostaria de expressar, em nome dos estudantes, os nossos agradecimentos aos dirigentes da Universidade MGIMO por terem tomado todas as medidas necessárias nesta altura difícil e imprevisível, por estarem a dar ouvidos aos estudantes em regime de ensino à distância e a fazer os possíveis para tornar o ensino à distância cómodo e eficaz. Agora a minha pergunta propriamente dita. A minha pergunta diz respeito às perspectivas de formalização da cooperação entre a UE e a UEE. Sabe-se que as tentativas neste sentido foram feitas em 2016 e nos anos seguintes. Sabe-se também que são mantidos contactos a nível de duas comissões: a europeia e a euroasiática. É positiva a cooperação entre a Comissão Económica Euroasiática e alguns países da UE. Existem hoje alguns progressos no processo de formalização das relações entre as duas associações de integração e há alguma alteração na posição da UE sob a nova direção? No ano passado, o Parlamento Europeu e a Comissão Europeia elegeram novos líderes. 

Ministro Serguei Lavrov: Até agora, não há grandes progressos para além daquilo que já referiu. Foram estabelecidos contactos entre as duas comissões. A iniciativa foi da Comissão Económica Eurasiática. A respectiva proposta fora enviada há bastante tempo, há 5 anos. A resposta demorou muito a chegar. Depois chegou uma reação sobre as questões que não podiam ficar pendentes. Refiro-me às questões da regulamentação técnica e das normas fitossanitárias. Isto é, tratava-se de questões que deviam ser solucionadas para que o comércio corresse bem e que, tanto no nosso caso como no caso da União Europeia, deviam ser delegadas a organismos supranacionais. Os nossos colegas europeus assumiram uma posição puramente utilitária. Para nós, isso também foi um resultado positivo. Pelo menos reconheceram as realidades existentes, reconheceram que, para continuar o comércio, com efeito, todos querem comerciar, era necessário lidar com as estruturas criadas por cinco países no espaço pós-soviético e que continuam a desenvolver-se. 

Claro que queríamos fazer aquilo que mencionou, nomeadamente assinar um acordo que criasse uma moldura política e tornasse, assim, mais convenientes e confortáveis o comércio e a interação económica, a resolução de outras questões relacionadas com a existência de um mercado comum na UE e a formação de um mercado comum no território da UEE. 

Até à data, o principal obstáculo é a parcialidade política e a obstinação em manter em vigor os “cinco princípios” formulados por F. Mogherini enquanto Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança. Estes princípios fazem, de facto, depender a normalização das relações entre a Rússia e a UE do cumprimento dos acordos de Minsk sobre a crise ucraniana. 

O problema é que os acordos de Minsk devem ser cumpridos pela Ucrânia através de um diálogo direto com os governos de Donetsk e Lugansk. A posição assumida pela UE é astuta. Na altura, a UE enviou simplesmente um sinal muito claro ao Presidente Petro Poroshenko e agora ao Presidente Volodymyr Zelenski para não fazerem nada daquilo que deviam fazer nos termos dos acordos de Minsk para que as sanções contra a Rússia permanecessem para sempre. Se traduzirmos estes “cinco princípios” para a língua das pessoas normais, é exatamente o que foi dito a Kiev a partir de Bruxelas. Esta mensagem, usando uma linguagem moderna, continua intacta. Embora o novo Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros espanhol, Josep Borrell, tenha anunciado repetidamente a sua intenção de proceder à revisão da política da UE na vertente russa, até agora, não registámos nenhuma mudança. Mas estamos sempre abertos a falar com qualquer estrutura da UE. 

Anteriormente, tínhamos cimeiras duas vezes por ano, o Conselho Permanente de Parceria reunia-se anualmente a nível do Alto Representante e do Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia. A reunião examinava o progresso de todos os projetos conjuntos sem exceção, incluindo mais de vinte diálogos setoriais entre a Rússia e a UE. Tudo isto foi “congelado” e reduzido a discussões esporádicas de questões internacionais mesmo antes dos acontecimentos na Ucrânia, antes do golpe de Estado anticonstitucional perpetrado não obstante as afirmações da UE sobre a necessidade de um compromisso entre a oposição e o governo ucraniano. Tudo foi espezinhado. As garantias da UE foram menosprezadas, nenhum dos golpistas prestou-lhes atenção. Vocês sabem em que estados se encontram as nossas relações desde então. 

Repito, nas nossas relações com a UE, não acentuamos as ofensas que sofremos. Muitos países comunitários estão interessados em desenvolver relações bilaterais com a Federação da Rússia. Claro que vamos ao seu encontro. Quando os conspiradores de Bruxelas e de outras capitais começam a acusar estes países e a Rússia de que, ao desenvolvermos contactos bilaterais com países comunitários individualmente, torpedeamos assim a solidariedade europeia e quase toda a UE. A nossa resposta é muito simples: como é que podemos fazer com que vocês comuniquem connosco se não quiserem cumprir o Acordo de Parceria Estratégica e Cooperação existente? Mas há países que cooperam com êxito com a Federação da Rússia em plena conformidade com as competências que lhes foram conferidas pela União Europeia. Não são países pequenos, mas a França, a Itália, a Hungria e vários outros. As tentativas de acusar-nos de torpedearmos alguma coisa, semearmos a divisão, são tentativas com meios impróprios. Verificámos algo semelhante quando éramos acusados de nos termos virado para o Leste e termos abandonado a Europa. Em primeiro lugar, não temos o direito de não olhar para o Leste, tal como não temos o direito de não olhar para o Oeste. Isso porque tem uma posição geopolítica específica. Seria insensato e irracional não obter vantagens comparativas com isso. Desenvolvemos as nossas relações com o Oeste e o Leste, desejando igualmente em ambos os casos uma cooperação e parceria. Quando o Ocidente nos impõe sanções, mostrando ser um parceiro desconfiável e tem ressentimento de nós por não termos apoiado o golpe de Estado na Ucrânia, golpe esse que foi orquestrado por alguns países e aceite por outros, aplicando-nos medidas restritivas ilegítimas, muitos projetos conjuntos param. E o Ocidente ainda quer que reduzamos as nossas relações com o Oriente, é ingénuo.

Já percebemos que não queremos depender dos parceiros, entre os quais a UE, que contribuíram para o desenvolvimento de algumas das nossas indústrias e que se revelaram desconfiáveis. Daí o programa de substituição das importações. Não é justo acusar-nos de nos virarmos para o Leste e cooperarmos de forma mais intensa com a China, a Índia e outros países da Ásia-Pacífico numa altura em que o Ocidente nos impôs sanções. 

Gostaria de salientar uma vez mais que a nossa posição não foi uma reação a uma mágoa. Na Cimeira Rússia-ASEAN, em Sochi, em maio de 2016, o Presidente russo, Vladimir Putin, avançou a iniciativa de criação de uma Grande Parceria Euroasiática com a participação dos países da UEE, da OCX, da ASEAN e de todos os outros países localizados no nosso enorme continente euro-asiático comum, incluindo, evidentemente, os países da UE. Nunca criamos estruturas fechadas à adesão de outros países interessados que partilhem os seus princípios estatutários. Garanto-vos que a Grande Parceria Euroasiática que abrange aquilo que referi e está perfeitamente correlacionada com a iniciativa chinesa “Uma Faixa, Uma Rota” irá definir cada vez mais as tendências que estão a tomar forma no nosso continente. 

Por enquanto, a União Europeia encara de forma neutro-negativa (dizer “de forma comedida” é não dizer nada) todos estes conceitos, mostrando desconfiança, como, infelizmente, em muitos outros casos. Todavia, o Reino Unido abandonou a UE. Enfrentam agora sérias dificuldades quando negoceiam um acordo entre Bruxelas e Londres. Aparentemente, o próximo passo será um novo acordo entre os EUA e a UE. Conhecendo a administração Trump, acho que estas negociações serão muito difíceis. Nestas circunstâncias, não ver as vantagens do nosso continente comum, não as utilizar significa tirar a si próprio, refiro-me à UE, oportunidades adicionais de concorrência neste mundo tão altamente competitivo. Podemos falar sobre este tema durante muito tempo, eu tentei citar as principais tendências. Tudo isto deverá ser discutido detalhadamente. Estou seguro de que tais discussões começarão em breve. 

Pergunta: Após o colapso dos preços dos hidrocarbonetos devido à tentativa mal-sucedida de renovar o acordo com a OPEP e a uma série de outros fatores, os maiores produtores de petróleo, entre os quais os EUA, admitiram a necessidade de um acordo mais amplo. Por exemplo, a “OPEP plus”. Até que ponto este roteiro é possível? Considera-se a perspectiva de expansão dos formatos do Fórum dos Países Exportadores de Gás no sector do gás, onde também uma crise de sobreprodução é possível?

Ministro Serguei Lavrov: Eu não diria que os EUA admitiram a necessidade de uma nova organização. São muito limitados pela legislação antimonopólio. Quando discutiram com a Rússia, a Arábia Saudita e outros membros da OPEP a situação provocada pela forte queda da procura de petróleo e, consequentemente, uma baixa de preços sem precedentes, tiveram em mente a necessidade de não ultrapassar os limites estabelecidos pela legislação antimonopólio. Estritamente falando, não será possível que os EUA adiram a uma organização ou criem uma organização que se ocupe dos mercados de petróleo, gás ou outras commodities devido às normas da sua legislação interna. 

Outra coisa é que, na realidade, eles trabalham na mesma direção da OPEP Plus, atendendo à situação do mercado. Se o mercado estiver saturado, a redução da produção é uma solução normal. Neste contexto, a troca de informações (não me refiro à coordenação e muito menos à conspiração de um grupo de empresas) é por si só um passo sério e completamente novo. Penso que a troca de informações, a possibilidade de se ouvirem mutuamente (seja na OPEP plus ou quanto às decisões relativas à situação do mercado), continuará. 

Por enquanto, não houve notícias de que o Fórum dos Países Exportadores de Gás planeie realizar outra reunião ou uma reunião extraordinária. Mas os países membros estão em contacto uns com os outros através do Secretariado, trocando informações uns com os outros. Por razões óbvias, não vou entrar em pormenores, mas acho que todo o mundo entende que ninguém está interessado no colapso de mais um mercado.

Pergunta: Gostaria de fazer uma pergunta sobre o conflito na Líbia.Apesar de o combate ao coronavírus ter entrado, nesta fase, no primeiro plano e encabeçar a ordem dos trabalhos de países e organizações internacionais, os confrontos entre as forças de Khalifa Haftar e o Governo do Acordo Nacional encabeçado por Fayez al-Saraj continuam. É provável que os esforços da comunidade internacional para resolver este conflito não se mantenham tão intensos nas atuais circunstâncias. Se tivermos em conta que, mesmo com a mediação ativa de diferentes países, em primeiro lugar da Itália, França, Rússia, Alemanha e Turquia, as partes beligerantes não conseguiram chegar a um consenso, surge uma pergunta: Existem perspectivas para a resolução deste conflito num futuro próximo ou este conflito corre o risco de se transformar num problema crónico que atormentará o país desta região sofredora?

Ministro Serguei Lavrov: Você teve razão em citar os países que se ofereceram para ajudar, pelo menos, a iniciar o processo de negociação com vista a resolver a crise líbia. Também teve razão em mencionar a necessidade de haver um acordo entre os protagonistas do conflito, o chefe do Conselho Presidencial, do Governo do Acordo Nacional, Fayez al-Saraj, e o general Khalifa Haftar, comandante do Exército Nacional Líbio, que tem apoio do Parlamento em Tobruk, no leste do país. 

Assinado em 2015, o Acordo Skhirat permaneceu no papel durante muito tempo. A França, a Itália e os EAU tentaram reativar o diálogo direto entre estes dois principais protagonistas. Durante as respectivas conferências em Paris, Palermo, Abu Dhabi, e, recentemente, em Berlim, exortámos, em todas as suas fases, incluindo a sua fase inicial e os preparativos, a considerar o mais importante: a elaboração das decisões compete às partes em conflito, cabendo-nos a todos ajudá-las. O nosso principal objetivo é trazê-los para a mesa de negociações para que cheguem a um acordo. Infelizmente, na maioria dos casos, por exemplo, na Conferência Internacional sobre a Líbia, em Berlim, a organização não queria convidar Khalifa Haftar nem Fayez al-Saraj. Insistimos em que os organizadores tomassem em consideração a nossa recomendação e esta acabou por ser aceite.

Eles vieram, embora estivessem nas salas vizinhas, era possível contactar com eles indiretamente, através da Presidente da Conferência, Chanceler da Alemanha, Angela Merkel. Todavia, o nosso apelo para não aprovar os documentos sem o consentimento explícito de Fayez al-Saraj e Khalifa Haftar não foi atendido. Por isso, veio à luz mais um documento muito bem formulado que exigia coisas corretas, especificava muitos passos mas não foi aceite pelas partes. Outra vez o documento saiu pouco saudável, para não dizer natimorto. 

Agora é muito importante voltar à lógica que sempre defendemos, ou seja, à elaboração de posições que sejam acordadas pelas partes em conflito. Isto compete ao Representante Especial do Secretário-Geral da ONU. Infelizmente, após o fracasso da Conferência de Berlim, Ghassan Salamé,  que, até há pouco tempo, tinha a seu cargo este dossier complicado demitiu-se. Agora as funções de Representante Especial do Secretário-Geral das Nações Unidas para a Líbia estão a ser exercidas pela sua vice, a norte-americana S.T. Williams. Consideramos que é necessário designar, o mais rapidamente possível, o novo Represente Especial para a Líbia. Para nós, deveria ser uma pessoa originária de um país membro da União Africana em que a Líbia é membro.

É nesta direção que buscaremos uma saída de uma profunda crise que atingiu este país depois de a NATO ter bombardeado, em 2011, a Líbia, ao arrepio da Resolução do Conselho de Segurança, e ter efetivamente destruído o Estado líbio para alcançar o seu objetivo egoísta: mudar o regime de Muammar Gaddafi. Desde então, a Líbia tem sido, de facto, abandonada. Para o sul do país, seguem terroristas e armas e drogas, enquanto para o norte, rumo à Europa, migrantes ilegais. Agora estamos todos a lidar com os resultados da aventura desencadeada pela NATO em 2011, em flagrante violação da resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Não obstante, vamos tentar ajudar a Líbia.

Pergunta: A Universidade MGIMO criou um novo curso: os mercados agrícolas mundiais onde serão formados adidos responsáveis pelos assuntos agrícolas. O programa combina agricultura e diplomacia.

A maioria dos países africanos tem uma forma republicana de governo herdada das suas metrópoles. As elites locais formadas na Europa estão familiarizadas com este sistema. Mas a influência real do governo e dos partidos é pequena. Mesmo os governos civis são frequentemente controlados pelos militares, que, sob o pretexto da estabilização, muitas vezes tomam o poder nas suas mãos. Com quem devemos, nesta situação, negociar nestes países?

Ministro Serguei Lavrov: Você quer um conselho gratuito que custa muito caro. Na verdade, não há uma resposta universal. Devemos negociar com aqueles que têm os respectivos poderes e as capacidades para vender bens. Cada país tem as suas próprias estruturas, regras e responsáveis pelo comércio externo e pelo desenvolvimento económico em geral.

Se falarmos da agricultura em África, temos aqui um aspecto geopolítico interessante. Acabamos de falar da Líbia: vagas de migrantes ilegais. Aqueles que realmente fogem às duras provações da guerra são em menor número em comparação com os migrantes por razões económicas que querem melhorar as suas condições de vida e vêm à Europa com telemóveis e cartões bancários. Não são os refugiados os quais estamos habituados a encarar como vítimas de conflitos. Durante todos estes anos, a Europa tem discutido as ideias relacionadas com o afluxo de migrantes ilegais, propondo aplicar medidas coercivas, entre outras, para forçar os países comunitários a aceitar uma quota. Alguns países dizem que não querem migrantes no seu território nacional e querem viver como vivem e preservar as suas tradições nacionais, o seu “código cultural”, etc.

Durante as discussões sobre como reduzir o afluxo de migrantes, ninguém, pelo menos que me lembre, propôs reduzir a zero o imposto de importação de produtos agrícolas africanos na UE. Se você estuda a economia, você compreende que isso terá um efeito dissuasor para os migrantes que vêm à Europa em busca de uma vida e um emprego melhores. Se as importações de produtos agrícolas feitas pela UE originárias de África tiverem tarifa zero, o emprego nos respectivos países africanos aumentará, eles melhorarão o seu nível de vida e a sua população terá menos razões para buscar uma vida melhor no estrangeiro. Todavia, a UE não o aceita, porque a política de subsídios agrícolas é uma “vaca sagrada” e ninguém vai tocar nela. Este é um aspecto muito interessante que diz respeito não só ao comércio como também à geopolítica e tem importância sistémica. 

Pergunta: Na semana passada, foi divulgada uma notícia sobre a preparação de uma reunião dos Ministros dos Negócios Estrangeiros do Quarteto da Normandia por videoconferência. O Ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Heiko Maas, declarou esperar dar um novo impulso à implementação dos acordos alcançados em Paris, em dezembro de 2019. Quais são as expectativas do lado russo para esta reunião? Como podemos dar um novo impulso à resolução deste conflito? A pandemia tem algum impacto no alcance dos progressos?

Ministro Serguei Lavrov: Estamos a trocar propostas sobre como deve ser a agenda desta videoconferência. Infelizmente, as palavras de Heiko Maas de que espera dar um impulso à implementação das decisões da cimeira do Quarteto da Normandia realizada em Paris a 9 de dezembro de 2019 não se refletem na proposta de agenda apresentada pela Alemanha. Todas as questões estão relacionadas com uma nova troca de prisioneiros, desminagem, segurança da Missão Especial de Monitorização da OSCE (SMM) na Ucrânia e o acesso da mesma aos territórios controlados pelas repúblicas autoproclamadas de Donetsk e de Lugansk. A proposta alemã não tem uma só palavra sobre os acordos de reforma política, sobre a “fórmula Steinmeier” que faz depender a questão do estatuto especial da Região de Donbass das eleições. Não tem uma só palavra sobre a forma como o estatuto especial da Região de Donbass deve ser legalmente incorporado na legislação ucraniana numa base permanente. E isso quando estas teses é uma reprodução literal da decisão da cimeira de Paris do Quarteto da Normandia. Esta decisão, de acordo com a posição dos líderes dos países do "formato Normandia”, deveria ser aplicada nestas semanas, nestes meses, o prazo reservado para a sua concretização já passou. Todos partiram da premissa de que, se o que havia sido acordado em Paris fosse implementado, incluindo a reforma política a que me referi, a próxima cimeira em Berlim estaria provisoriamente agendada para abril, ou seja, para este mês. Todavia, nenhuma cimeira será possível nestas circunstâncias em que tudo o que foi acordado em Paris está bloqueado no Grupo de Contacto devido à postura das autoridades ucranianas. As tentativas feitas pelo Chefe do Gabinete do Presidente da Ucrânia, Andrei Yermak, durante os seus contactos com o Chefe Adjunto do Gabinete da Presidência russa, Dmitri Kozak, visaram tirar do ponto morto os acordos políticos fundamentais e acalmar as pessoas dos dois lados da linha de contacto. Todas as suas tentativas estão a ser torpedeadas enquanto o seu autor, Andrei Yermak, é acusado de alta traição por ter ousado começar a discutir a forma como implementar os acordos de Minsk assinados pelo então Presidente da Ucrânia, Petro Poroshenko, e aprovados pelo Conselho de Segurança da ONU. Este é um quadro triste.

Os nossos colegas alemães e franceses só querem discutir as questões relacionadas com a segurança, a desminagem, o bombardeamento e a admissão da SMM nos territórios não controlados pelo governo de Kiev e não querem, de nenhum modo, discutir a questão-chave, a das reformas políticas. 

Quanto às questões da segurança, a forma mais fácil de garantir o cessar-fogo foi rejeitada pelo Presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenski, na cimeira de Paris. Para a cimeira de Paris, foi preparado um acordo que continha tanto questões políticas como as da segurança. O acordo central foi o consentimento dos líderes do Quarteto da Normandia em iniciar, no âmbito do Grupo de Contacto, trabalhos concretos para a separação de forças ao longo da linha de contacto. Se não tivesse havido contactos, não teria havido violações do cessar-fogo. Volodymyr Zelenski recusou-se terminantemente a assinar a disposição referente à separação de forças ao longo de toda a linha de contacto, dizendo que era necessário escolher pelo menos três locais em que a separação de forças pudesse ser discutida. Estão a discuti-la até agora: desde 9 de dezembro de 2019 até ao final de abril deste ano não conseguiram chegar a acordo sobre nenhum dos locais escolhidos para a separação de forças. A causa disso são caprichos dos nossos colegas ucranianos.

Algo semelhante se verifica na questão da desminagem. O lado ucraniano apresenta uma atitute longe de ser construtiva. Quanto às questões políticas que estão num beco sem saída, já disse tudo. As autoridades ucranianas dizem que o Grupo de Contacto também não é necessário. Estão a tentar apresentar a Rússia como parte no conflito e retirar do processo negociador os governos de Donetsk e Lugansk. O Vice-Primeiro Ministro da Ucrânia e Ministro dos chamados “territórios temporariamente ocupados”, Aleksei Reznikov, declarou que o Grupo de Contacto é composto por três integrantes: a Ucrânia como "vítima", a Rússia como "agressor" e a OSCE como "mediador", enquanto Donetsk e Lugansk são observadores ou não são ninguém. Para nós, o Grupo de Contacto conta mesmo com três integrantes: o governo de Kiev, o governo de Donetsk e o governo de Lugansk, enquanto a Rússia e a OSCE são medianeiros que os ajudam a conversar, embora, de modo geral, devam fazer com que o governo de Kyiv cumpra os seus compromissos. 

Por isso, para ser honesto, infelizmente, não espero grandes avanços desta conversa. Temos pela frente uma grande batalha para forçar os governos de Kyiv, de Berlim e de Paris a falar sobre como se cumprem, ou, melhor dizendo, sobre o porque não se cumprem os capítulos políticos da cimeira de Paris.

Pergunta: Com a propagação do coronavírus, aumentou a pressão sobre os serviços de emergência. Entre eles o Departamento Centro de Situações de Crise do Ministério dos Negócios Estrangeiros russo que presta apoia aos cidadãos russos no estrangeiro. São necessárias forças voluntárias adicionais para, por exemplo, trabalhar no call-center ou no apoio técnico a questões consulares? Se esta necessidade existe, para onde posso enviar a minha candidatura como voluntário?

Ministro Serguei Lavrov: Não posso dizer se o Centro de Situações de Crise precisa de alguma ajuda. Eles têm o endereço e telefones para contacto. Por favor, contacte-os. Suponho que possa haver dificuldades quanto à obtenção de acesso a informações confidenciais, mas é bem possível que eles precisem de trabalhos que podem ser executados por voluntários. O Centro de situações de crise e o Departamento Consular do Ministério têm coordenadas. Entre em contacto com eles, eu, da minha parte, vou pedir que eles considerem esta possibilidade, se necessário. 

Pergunta: Há muitas frases históricas famosas atribuídas aos czares russos, segundo as quais a Rússia tem poucos ou nenhuns amigos e aliados. Por exemplo, Alexandre III disse que a Rússia só tinha entre amigos na Europa o duque montenegrino Nicolau I. Avaliando a perspectiva histórica, gostaria de fazer a seguinte pergunta: como foi possível permitir que as relações Rússia-Montenegro arrefecessem e que, em março deste ano, eclodisse um conflito relacionado com o regresso dos cidadãos russos? Como podem desenvolver-se as relações entre os dois países após a pandemia? 

Ministro Serguei Lavrov: Eu também lamento muito porque gosto muito do Montenegro. Infelizmente, o seu atual líder, Milo Djukanovic, que está à frente deste país há quase vinte anos, assumiu uma postura russófoba, ao contrário do bom senso e de tudo o que costumava defender quando falava das relações com a Federação da Rússia. Teve problemas com a justiça no Ocidente, e em vários países europeus foi acusado de contrabando e de alguns outros crimes. Não excluo que esta seja a causa da mudança dramática da sua política. Se os políticos são tão vulneráveis, eles são fáceis de manipular. É-me muito difícil dizer isso. Comuniquei com ele várias vezes e até me lembro de ter lido para ele poemas de Vladimir Vyssotsky, cujo monumento muito bonito se ergue em Podgorica. Ele escreveu um dos seus melhores poemas, na minha opinião, num só fôlego, ao abrir o seu coração ao povo montenegrino. Este poema termina com a seguinte quadra: 

“Nascer uma única vez é pouco para mim, 

Quem me dera ter mais de uma raíz...

Lamento não ter nascido aqui

E que Montenegro não seja meu segundo país”

Estas palavras estão inscritas no monumento. Todos os meus amigos montenegrinos, quando nos encontramos, falam sempre com entusiasmo sobre a afinidade espiritual e a proximidade dos nossos povos. Quando ocorre uma traição em relação a um povo que sempre esteve perto é de lamentar. Mas estou convencido de que os sentimentos descritos no poema de Vladimir Vyssotsky que são partilhados pela grande maioria dos montenegrinos acabarão por vencer, os que chegaram por um tempo ir-se-ão embora.

Pergunta: Como atleta profissional que defendeu várias vezes a honra do país na pista de gelo de hóquei, estou a torcer sinceramente pelo desporto russo. Como diplomata desportivo, compreendo que, hoje em dia, as questões da integração igual da Rússia na comunidade desportiva internacional devem ser resolvidas principalmente por via diplomática, pelo que a minha pergunta é específica e muito importante para nós. O Ministério dos Negócios Estrangeiros russo considera a possibilidade de estágios para representantes do nosso programa, para que nós, como futuros diplomatas desportivos, possamos adquirir, desde já, a  experiência de participação na implementação da estratégia de desenvolvimento do desporto russo a nível internacional? 

Ministro Serguei Lavrov: Este tema não surgiu nos nossos contactos regulares com o Ministério dos Desportos da Rússia, Comité Olímpico, federações de vários desportos, mas a sua ideia é boa. Vamos, sem dúvida, tentar dar-lhe vida. Penso que isso será muito útil, porque você teve toda a razão em dizer que há cada vez menos desporto na diplomacia desportiva moderna e há cada vez mais diplomacia, por vezes desleal. Acho que esta sua ideia é boa. Vamos tentar levá-la à prática. 

Pergunta: Hoje o senhor já disse algumas palavras sobre a irrelevância da ordem mundial bipolar. No entanto, no seu encontro com os alunos da filial de Tashkent da Universidade MGIMO, a 16 de janeiro deste ano, o senhor mencionou que a época dos países ocidentais que dominam o cenário internacional está a tornar-se uma coisa do passado, novos jogadores importantes estão a aparecer no cenário mundial. Qual impacto, a seu ver, que a atual situação provocada pelo coronavírus tem neste processo? Como mudará a correlação de forças no cenário internacional após o fim da luta contra a pandemia?

Ministro Serguei Lavrov: Penso que as opções de resposta estão agora a ser ativamente discutidas por cientistas políticos. Há várias conclusões. Mencionei apenas algumas. Mas se falarmos do Ocidente e do "não-Ocidente”, verificamos que o sucesso das medidas tomadas por um país para combater o coronavírus não depende da sua pertença ao chamado “mundo ocidental civilizado”. A eficácia destas medidas depende, antes de mais, do grau de organização dos países e da sua administração pública. A prática mostra que os países que, apesar de todas as tradições democráticas, procuram manter a vertical do poder público respondem de forma mais eficaz aos desafios imediatos quando é necessário produzir ou comprar e distribuir medicamentos, equipamento de proteção individual, outros equipamentos; avisar prontamente a população sobre o regime a cumprir e tomar providências para garantir o cumprimento deste regime. Isto não significa que o sistema de saúde ocidental seja ineficaz. Isto significa simplesmente que os países eficazes são muito mais numerosos do que os países que pertencem ao chamado "Ocidente histórico". 

A época do domínio ocidental nos assuntos mundiais está a passar não porque o Ocidente se tenha tornado fraco ou tenha mudado. As leis do desenvolvimento mundial, as leis objetivas do desenvolvimento económico e, em última análise, da globalização implantada pelo Ocidente em todo o mundo acabaram por levar à liderança económica mundial os países, outrora atrasados, aprenderam tirar proveito da globalização. 

Agora na ordem do dia está a tarefa de trazer de volta as indústrias aos países ocidentais e aos EUA e ocupar-se da desglobalização, como você mencionou, embora eu não acredite que isso seja possível. Afinal, tudo se tornou tão interligado e interdependente que será impossível mudar alguma coisa. Há quem fale sobre a necessidade de desnacionalização e renacionalização de muitos setores industriais de importância vital para um Estado. Num futuro próximo haverá grandes discussões. Como eu já disse, espero que a Universidade MGIMO e a Academia Diplomática (outra instituição científica que depende do nosso Ministério) tenham uma contribuição a dar para estas discussões. Entra no primeiro plano o desafio de evitar tentativas de especular sobre a situação atual e acusar alguém sem fundamentos para fomentar a confrontação e aumentar a ameaça de novos conflitos, desta feita, entre as grandes potências. 

Um dos objetivos da cimeira dos "cinco" membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU proposta pelo Presidente russo, Vladimir Putin, é precisamente evitar este evoluir da situação, sejam quais forem as suas causas: o coronavírus, a corrida pelo título de primeira economia do mundo ou outras. O desafio de preservar a paz, os princípios da Carta das Nações Unidas entra no primeiro plano. Gostaria de salientar uma vez mais: a igualdade soberana dos países, a liberdade de escolher as vias de desenvolvimento, a necessidade de respeitar a diversidade cultural e civilizacional do mundo moderno, a necessidade de unir esforços, de sobrelevar-se às coisas secundárias, entre as quais quase todas as contradições, e de envidar esforços para resolver as questões relacionadas com os desafios globais, inclusive aqueles semelhantes ao do coronavírus. 

Pergunta: Como o senhor afirmou, atualmente, a luta contra a infecção pelo coronavírus é um objetivo verdadeiramente comum para a comunidade internacional. Mesmo assim, algumas contradições políticas e económicas entre os países mantêm-se. Será possível que alguns aspectos da cooperação entre países como, por exemplo, a decisão da Federação da Rússia de enviar os seus especialistas aos países atingidos pelo coronavírus, sejam também utilizados para a solução de problemas em outras áreas depois da pandemia? Em caso afirmativo, isso poderá acelerar o estabelecimento de um sistema de relações internacionais baseado nos princípios da multipolaridade?

Ministro Serguei Lavrov: Não é por estes aspectos que nos orientamos quando enviamos a nossa ajuda. No caso da Itália, recebemos um pedido direto do Primeiro-Ministro, Giuseppe Conte. Tivemos a possibilidade de prestar ajuda. No caso dos EUA, a questão da ajuda foi discutida pelos Presidentes Vladimir Putin e Donald Trump. Donald Trump disse que acolheria de bom grado tal possibilidade. Depois, durante outra conversa telefónica na semana passada, ele disse que estava grato e que os EUA estariam prontos para nos ajudar quando tivessem as possibilidades de nos ajudar. Provavelmente, tudo isto criará uma atmosfera mais propícia para cooperarmos bem e não nos acusarmos mutuamente de todos os pecados mortais. Gostaria de salientar uma vez mais que o objetivo perseguido pelo Presidente da Rússia, Vladimir Putin, durante a tomada da decisão de enviar a nossa ajuda era exclusivamente humanitário, o de ajudar as pessoas.

Pergunta: No meio da pandemia, assistimos à divisão dos países da UE. Os seus governos deram preferência às suas medidas nacionais sobre as medidas pan-europeias. Nas condições em que a antiga unidade entre os membros da UE já não existe, como o senhor vê o futuro das relações russo-europeias? Podem tornar-se mais construtivas? Com que países europeus a Rússia pode construir boas relações de cooperação? Se isso for possível, em que áreas estas relações poderiam ser mais frutíferas? 

Ministro Serguei Lavrov: Não vemos que todos os países da UE queiram lutar sozinhos contra o coronavírus. Não é assim. Ainda se travam as discussões acaloradas sobre se é preciso criar um "coronafundo". Muitos são a favor de o fazer. Alguns países entendem que não devem pagar por outros. Quando o dinheiro é dividido, graves contradições sempre surgem. É o que vemos neste caso. Não vou citar os países com os quais preferimos desenvolver relações. Em primeiro lugar, já estamos a desenvolver relações com muitos deles. Tudo isto está à vista. Em segundo lugar, de modo geral, queremos desenvolver relações com todos, pelo que não quero citá-los para não deixar uma impressão errada sobre os nossos planos.

Os domínios de cooperação não são limitados. Dei um exemplo: o acordo que ainda está em vigor entre a Rússia e a UE define bases para um diálogo sobre mais de vinte áreas setoriais que abrangem quase todas as esferas imagináveis das relações internacionais. Somos a favor de uma cooperação baseada na reciprocidade, queremos fazer amizade com todos quantos estão prontos para isso, numa base de igualdade, vantagem mútua e interesses recíprocos. 

 Muito obrigado.

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