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Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, faz intervenção inicial e responde a perguntas de jornalistas em conferência de imprensa conjunta com Ministro dos Negócios Estrangeiros do Mali, Abdoulaye Diop, após as conversações, Moscovo, 11 de novembro de 2021

2296-11-11-2021

Boa tarde,

Tivemos conversações detalhadas e construtivas sobre a nossa cooperação bilateral baseada na herança histórica, incluindo a tradição de superação do colonialismo, dependência colonial e recaídas neocoloniais a que assistimos em África. Infelizmente, eles ainda hoje estão presentes.

Falámos da necessidade de intensificar o nosso diálogo político, que tem sido bastante bem-sucedido. Dispensámos especial atenção à cooperação comercial, económica e de investimento. Pelo terceiro ano consecutivo, a nossa cooperação apresenta um crescimento estável. No entanto, os volumes absolutos não correspondem ao potencial da nossa cooperação, aproximando-se dos 100 milhões de dólares, o que, obviamente, está longe de ser o limite. Abordámos as áreas que nos pareciam mais promissoras para a aplicação de esforços conjuntos de ministérios e empresários dos nossos dois países. Trata-se do setor de energia, prospeção geológica, mineração, tecnologias da Internet, agricultura. Já foram estabelecidos contactos sobre estas questões no âmbito da Associação para a Cooperação Económica com África, criada por decisão e com base nos resultados da Primeira Cimeira Rússia-África, realizada em Sochi, em 2019. A Associação trabalha bem, atraindo empresas russas para as suas fileiras. Representantes russos visitaram o Mali no ano passado, conversaram com os seus parceiros, traçaram vias concretas da criação de projetos conjuntos.

Foi um gosto receber uma delegação malinesa chefiada pelo Ministro da Energia e dos Recursos Naturais do Mali que participou na Semana da Energia de Moscovo no mês passado. Ele também teve contactos com empresas russas, entre as quais a "RusHidro", "Power Machines" e "Geologorazvedka" (Prospeção geológica). Tudo isto nos permite avançar rumo a acordos de grande escala mutuamente vantajosos.

Reiteramos o interesse dos nossos dois países em continuar a desenvolver a nossa cooperação técnico-militar e os nossos laços militares que têm uma rica história. Com este objetivo, nos últimos anos foram assinados os respetivos acordos. Iremos cumpri-los, ajudando igualmente o Governo malinês a reforçar a capacidade defensiva do Mali, especialmente face à ameaça do terrorismo que ainda se mantém. 

Estamos a desenvolver as nossas relações culturais e aquelas no setor de ensino. Centenas de estudantes malineses estudam na Rússia. No total, mais de dez mil malineses foram formados por universidades soviéticas e russas durante anos da nossa cooperação. Concordámos em aumentar o número de bolsas de estudo para os estudantes malineses para os estudos nas nossas universidades. Continuamos a prestar ajuda na formação do pessoal militar e policial do Mali. 

Mencionei a Cimeira Rússia-África realizada em 2019. Estamos agora a trabalhar com os nossos amigos africanos para preparar a segunda edição agendada para o próximo ano.

O Senhor Ministro falou detalhadamente sobre a situação interna no Mali, a atual fase de implementação do Acordo de Paz de Argel e os preparativos para as eleições gerais (no contexto da situação local real). É evidente que a intensificação das unidades terroristas, especialmente no norte do país, não é favorável à criação de condições para o início da campanha eleitoral. De acordo com Abdoulaye Diop, o Governo do Mali pretende fixar as datas desta campanha até ao final do ano em curso. 

Compreendemos a necessidade de reforçar as capacidades antiterroristas do Mali. Fornecemos ao Mali o respetivo equipamento, armas e munições. Faremos tudo o que estiver ao nosso alcance para evitar ameaças ao Estado e à integridade territorial do Mali. Não devemos permitir que surja um vazio de poder no norte do país devido à decisão dos nossos parceiros franceses de retirar parte do seu contingente de tropas do Mali e encerrar três das cinco bases militares, precisamente nas regiões onde os terroristas são mais ativos.

Apoiaremos o Mali no Conselho de Segurança da ONU na busca de uma solução para os conflitos em África. A nossa posição é firme e não está sujeita a alterações. Os africanos devem buscar por si próprios soluções para os seus problemas, enquanto a comunidade internacional deve dar-lhes o apoio necessário. Neste contexto, examinámos a situação noutras partes da região africana, em particular a África Ocidental, a região do Saara-Sahel, a Guiné, a Líbia e o Sudão. Os problemas são muitos. No Conselho de Segurança, lutaremos para que estes problemas sejam solucionados com base nos princípios da Carta das Nações Unidas, entre os quais a não-ingerência nos assuntos internos, a necessidade de uma resolução pacífica dos conflitos e o respeito pelo direito de cada país de escolher o seu próprio caminho para o desenvolvimento.

O Senhor Ministro convidou-me a visitar o Mali. Aceito com prazer o seu convite. As datas e a agenda da minha visita serão acordadas oportunamente. 

Pergunta: Apesar de o senhor ter deixado bem claro, durante a conferência de imprensa em Nova Iorque, que a Rússia e o Mali não têm acordo fechado sobre assistência militar a nível estatal, a cooperação entre as autoridades malinesas e as empresas militares privadas russas continua a ser motivo de preocupação para a União Europeia, especialmente a França. As atividades dos mass media ocidentais para pedalar este tema continua a prejudicar a imagem da Rússia. Como o senhor vê esta situação? 

Serguei Lavrov: No que diz respeito às atividades dos mass media ocidentais para "pedalar" o tema das relações existentes entre o Governo do Mali e os seus parceiros estrangeiros, incluindo a Federação da Rússia, gostaria de enfatizar mais uma vez o seguinte. A Rússia tem uma longa história de cooperação militar e técnico-militar com o Mali. Continuamos esta tradição, fornecendo ao Governo e às forças armadas do Mali material de guerra, equipamento, munições e armas para fazerem frente à ameaça terrorista que ainda se mantém e tem o potencial de se tornar ainda mais grave, dada a decisão do Governo francês de reduzir significativamente a sua presença (Operação Barkhane), especialmente no norte do Mali, onde os terroristas estão cada vez mais à vontade.

Continuaremos a prestar todo o tipo de apoio às forças armadas do Mali a nível estatal, tanto fornecendo produtos militares como formando oficiais malineses nos estabelecimentos de ensino superior do Ministério da Defesa russo.

Quanto ao nervosismo demonstrado nos últimos meses pelos franceses e alguns outros representantes ocidentais por causa das notícias dos planos do Governo do Mali de pedir serviços a uma empresa militar privada da Federação da Rússia (anunciados publicamente na sessão da Assembleia Geral da ONU pelo Primeiro-Ministro do Mali), esta questão é da competência exclusiva do Governo legítimo do Mali. 

Quanto ao fenómeno das empresas militares privadas, não temos relação com as atividades de estruturas como esta criadas por cidadãos russos. Elas fazem contratos sozinhas. Se fazem contratos com os governos legítimos de países soberanos, não vejo o que há de negativo nisso. 

O mercado dos serviços prestados pelas PMC no domínio da cooperação militar e segurança foi há muito criado e é explorado pelos países ocidentais. Entre os líderes do mercado de empresas militares privadas encontram-se os EUA (com dezenas de milhares de efetivos em diferentes regiões do mundo), Reino Unido e França, com cerca de uma dúzia de PMC a prestarem os mais diversos serviços em diferentes regiões do mundo - não só em África, mas também nas regiões muito próximas da Federação da Rússia.

Se alguém pensa que a "pedalagem" deste tema "sugado do dedo"  prejudica a imagem da Rússia, eu não penso assim. Acho que a "pedalagem" deste assunto confirma a imagem e reputação daqueles que se ocupa disso e cuja reputação tem por base o sentido de "superioridade", permissividade, quando alguém que se intitula a si próprio de democracias "completamente formadas", "maduras", se considera no direito de fazer tudo em qualquer região do mundo. Consideram todos os outros como parceiros de "segunda categoria" e pensam que têm o direito de lhes dar lições. Isto está errado. Isto está muito longe da democracia que, entre outras cosias, nasceu no território da atual República Francesa. 

Pergunta: O que o senhor pensa do facto de o Ministro dos Negócios Estrangeiros da França, Jean-Yves Le Drian, ter dito que, na reunião de amanhã, no formato 2+2, a França pretende levantar a questão das atividades da Rússia na África Ocidental, o que a preocupa, e também da situação na Ucrânia?

Serguei Lavrov: Podemos levantar ali quaisquer questões. A ordem de trabalhos está acordada. Considero que o facto de a França avisar de que levantará a questão da Ucrânia significa que os nossos colegas franceses compreendem que não podem escapar, na reunião de amanhã,  à responsabilidade pelo comportamento dos seus "pupilos" de Kiev (refiro-me ao regime de Vladimir Zelensky), que estão a ignorar ostensivamente todos os conselhos que lhes são dados sobre a necessidade de cumprir os acordos de Minsk que não têm alternativa, e a miná-los com a conivência tácita dos coautores franceses e alemães do Pacote de Medidas de Minsk. 

Teremos uma conversa séria sobre este tópico. Quando os nossos colegas franceses disseram que a Rússia se tinha recusado a reunir-se no formato Normandia, a 11 de novembro, a nível de Ministros dos Negócios Estrangeiros, explicámos-lhes tudo detalhadamente em papel. Mas mesmo deixando de lado as questões concretas, quando tais declarações saem do Ministério dos Negócios Estrangeiros da França, não são, de modo algum, as maneiras a que estamos habituados a esperar dos nossos parceiros franceses, até porque, durante o encontro de há quinze dias com o Ministro dos Negócios Estrangeiros da França, Jean-Yves Le Drian, à margem da Cimeira do G20, ele mencionou a sua proposta (foi a primeira vez que a ouvi na altura) de nos reunirmos em Paris a 11 de novembro. Eu disse-lhe logo que, para além das questões concretas que requeriam um ajustamento adicional, a data de 11 de novembro não me convinha, porque eu tinha na minha agenda uma reunião com o chefe da diplomacia de um país amigo marcada para esta data. Se este argumento não vale, então, repito, é necessário retomar as maneiras a que estamos acostumados na diplomacia e, em geral, na comunicação humana normal.

Pergunta: Como comentaria as declarações da Polónia sobre o envolvimento da companhia aérea russa Aeroflot na crise migratória na fronteira entre a Polónia e a Bielorrússia?

Serguei Lavrov: Diplomaticamente falando, isto não é verdade. A Aeroflot não tem voos entre as capitais dos países de onde os refugiados estão a afluir à Europa depois de a Europa e os EUA terem bombardeado os seus países. A Aeroflot não voa destas capitais para a capital da República da Bielorrússia.


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