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"Megalomania" dos EUA está a aumentar", diz porta-voz do MNE russo, Maria Zakharova Moscovo, 1 de abril de 2021

614-01-04-2021

Ministro Serguei Lavrov terá encontros com os seus homólogos azeri e armênio


Como anunciámos no último briefing, no dia 2 de abril, Moscovo acolhe uma reunião ordinária do Conselho de Ministros dos Negócios Estrangeiros da Comunidade de Países Independentes (CEI), cuja presidência rotativa está, este ano, a cargo da Bielorrússia. 

A agenda inclui questões que abrangem as principais áreas de interação no âmbito da CEI. Os participantes trocarão opiniões sobre tópicos regionais e internacionais relevantes e identificarão perspetivas do reforço da cooperação multifacetada no âmbito da CEI, incluindo nas áreas jurídica e humanitária. 

O evento principal será realizado amanhã. As reuniões à margem do Conselho de Ministros da CEI começaram hoje. Em particular, hoje, dia 1, haverá reuniões separadas do Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, com os Ministros dos Negócios Estrangeiros do Azerbaijão e Arménia, Djeyhun Bayramov e Ara Aivazian, respetivamente.

Durante as reuniões, os ministros passarão em revista as questões da cooperação bilateral, a situação em Nagorno-Karabakh, a implementação dos acordos, de 9 de novembro de 2020 e de 11 de janeiro deste ano, dos líderes da Rússia, Azerbaijão e Arménia e alguns tópicos da agenda regionais e internacionais.

Em resposta às numerosas perguntas que recebemos antes do briefing, gostaria de repetir que as referidas reuniões serão separadas.

Após as reuniões, serão publicadas notas de imprensa. 


Ministro Serguei Lavrov fará visitas à Índia e Paquistão


Nos dias 5 e 6 de abril, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, fará uma visita de trabalho a Nova Deli durante a qual terá uma reunião com o seu homólogo indiano, Subrahmanyam Jaishankar. 

O tema da reunião serão o estado das relações bilaterais, os preparativos para o encontro do mais alto nível programado para este ano, a cooperação no combate à Covid-19 e as questões-chave da agenda regional e global. Será avaliada ainda a cooperação bilateral no cenário internacional e em fóruns multilaterais como a ONU, BRICS (presidido, este ano, pela Índia) e OCX. 

Nos dias 6 e 7 de abril, o Ministro Serguei Lavrov fará uma visita à República Islâmica do Paquistão onde terá uma reunião com o seu homólogo paquistanês, Shah Mahmood Qureshi. 

Entre os temas agendados para o encontro figura o estado atual e as perspectiva das relações bilaterais, as possibilidades do reforço da cooperação nas áreas comercial, económica e no combate ao terrorismo. Os Ministros trocarão opiniões sobre questões candentes da agenda regional e internacional e dispensarão especial atenção à problemática afegã e à cooperação bilateral em fóruns internacionais, inclusive a ONU e a OCX.


Ministro Serguei Lavrov fará visita ao Cazaquistão


Nos dias 7 e 8 de abril, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação da Rússia, Serguei Lavrov, fará uma visita de trabalho ao Cazaquistão. No dia 8, o Ministro Serguei Lavrov será recebido pelo Vice-primeiro-ministro e Ministro dos Negócios Estrangeiros do Cazaquistão, Mukhtar Tleuberdi, com quem pretende debater um vasto leque de questões da cooperação bilateral, da articulação nas associações de integração, principalmente na União Económica Eurasiática (UEE), Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC) e CEI. Os Ministros dispensarão especial atenção às questões da luta conjunta contra as consequências da infeção pelo coronavírus e às atividades a serem desenvolvidas pelas duas diplomacias com vista a contribuir para a reabilitação e aumento das relações bilaterais no pós-Covid, de acordo com as diretrizes formuladas pelos Presidentes da Rússia e do Cazaquistão. 

As partes trocarão opiniões sobre as perspetivas dos processos de integração e cooperação eurasiáticos na região do Mar Cáspio, concertarão as posições sobre a situação na Ásia Central à luz dos riscos à segurança decorrentes da instabilidade no vizinho Afeganistão e das atividades das organizações extremistas nas regiões adjacentes. 


Ministro Serguei Lavrov fará visita ao Egito 


No dia 12 de abril, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, fará uma visita à República Árabe do Egito, onde será recebido pelo Presidente do país, Abdel Fatah Al-Sisi, e terá uma reunião com o seu homólogo egípcio, Sameh Shoukry. As conversações serão centradas nas perspetivas da cooperação bilateral nas áreas política, comercial e económica, cultural, humanitária e outras e na situação no Médio Oriente e Norte de África.

A Rússia considera especialmente importante manter um elevado nível de cooperação com o Egito, um dos seus principais parceiros no Médio Oriente e no Norte de África. As suas relações com esse país têm-se sempre baseado nos princípios de amizade, respeito e consideração mútua de interesses.

No Cairo, o Ministro russo terá igualmente uma reunião com o Secretário-Geral da Liga Árabe, Ahmed Aboul Gheit. 


Ministro Serguei Lavrov fará visita de trabalho ao Irão 


No dia 13 de abril, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação da Rússia, Serguei Lavrov, fará uma visita de trabalho a Teerão, a convite do Ministro dos Negócios Estrangeiros da República Islâmica do Irão, Mohammad Javad Zarif. 

Os Ministros pretendem discutir toda uma série de questões da agenda bilateral, com destaque para a sua componente comercial e económica no contexto da implementação de projetos-chave conjuntos em energia e transportes, bem como as perspetivas da intensificação das relações culturais e humanitárias entre a Rússia e o Irão e da cooperação na luta contra a Covid-19. 

Continuarão a trocar opiniões sobre questões internacionais, incluindo a situação relativa ao Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA), a situação na Síria, Afeganistão, Iémen e no Golfo Pérsico.


Rússia e Bielorrússia comemoram Dia da Unidade dos Povos


No dia 2 de abril, a Rússia e a Bielorrússia comemoram o Dia da Unidade dos Povos da Rússia e Bielorrússia. A data foi criada há 25 anos por ocasião da assinatura do Tratado sobre a Criação da Comunidade da Rússia e da Bielorrússia. como primeiro passo rumo ao Tratado sobre a Criação do Estado-União Rússia-Bielorrússia assinado em 1999. Os dois documentos tornaram-se pontos de referência para o estreitamento da cooperação entre os dois países baseada em séculos de história partilhada e de amizade entre os povos irmãos dos nossos países.

Há 25 anos, a Rússia e a Bielorrússia decidiram criar voluntariamente uma Comunidade política e economicamente integrada "a fim de unir os seus potenciais materiais e intelectuais com vista ao desenvolvimento das duas economias e à criação de condições iguais para a melhoria dos padrões de vida dos dois povos e o desenvolvimento cultural dos indivíduos" (Artigo 1º do Tratado de 1996).

Os progressos da construção do Estado-União são evidentes. Muitas coisas se enraizaram tanto na vida das pessoas comuns que são tomadas como evidentes de por si. Refiro-me à igualdade dos direitos dos cidadãos da Rússia e da Bielorrússia em matéria de medicina, segurança social, pensões, ensino, liberdade de circulação, residência e emprego.

Os nossos dois países têm vindo a concretizar importantes projetos conjuntos nos domínios comercial, económico, de defesa, humanitário, científico e técnico e outros. No plano internacional, têm vindo a promover iniciativas, que são importantes não só para o desenvolvimento sustentável da Rússia e da Bielorrússia, mas também para toda a comunidade internacional, e a enfrentar conjuntamente desafios e ameaças comuns.

Estamos prontos a trabalhar em conjunto com os nossos amigos bielorussos em todo o espectro da agenda bilateral para garantir o desenvolvimento estável dos nossos dois países.


Rússia condena ataque terrorista em Moçambique


No dia 25 de março, um grupo de mais de 100 homens afiliado ao País Islâmico (EIIL) atacou a cidade de Palma, na província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique, provocando dezenas de mortos, entre os quais cidadãos estrangeiros que trabalharam num campo de gás local. Há relatos de desaparecidos. De acordo com a Embaixada Russa em Maputo, não há cidadãos russos entre as vítimas.

Segundos os dados disponíveis até ao dia 30 de março, o exército e a polícia moçambicanos retomaram o controlo da cidade. Investidas esporádicas de terroristas foram registadas também em vários outros distritos da província. Todavia, a situação geral em Moçambique permanece estável.

Condenamos veementemente este ato sangrento que vitimou civis. Apresentamos as nossas mais sinceras condolências às famílias das vítimas e desejamos uma rápida recuperação aos feridos.


Ministro Serguei Lavrov concedeu entrevista ao programa televisivo "O Grande Jogo"


Hoje foi publicado uma entrevista do Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, ao programa de televisão "O Grande Jogo". O texto e o vídeo estão disponíveis no website do MNE da Rússia. Boa parte da entrevista está dedicada às atuais realidades internacionais e à interação dos principais atores internacionais. A entrevista é interessante, incisiva e explicativa no que se refere à atual situação das relações internacionais.


Departamento de Estado dos EUA publica novo relatório sobre a situação dos direitos humanos no mundo


O Departamento de Estado dos EUA publicou mais um relatório sobre a situação dos direitos humanos no mundo. Na nossa opinião, os EUA deveriam dedicar os seus relatórios à situação no seu próprio país, mas continuam a centrar a sua atenção em outros países. Uma rápida olhada no texto, bastante volumoso, mas, de modo geral, oco, e no capítulo dedicado à Rússia deixa uma sensação persistente de "déjà vu". 

O texto, como isso acontece de ano para ano, tem "dois pesos e duas medidas" para avaliar a situação dos direitos humanos em diferentes países, dividindo-os em "bons" e "maus", em função do seu desejo de seguir as diretrizes estratégicas dos EUA sobre como devem viver e desenvolver-se. Não vale a pena ler o relatório para saber quais os países que constam da lista de "infratores e quais as acusações que lhes são apresentadas. É impossível ler sem ironia a afirmação de que a Administração dos EUA lutará contra as violações dos direitos humanos onde quer que ocorram, seja no território dos países parceiros ou dos países adversários dos EUA. Acho que é melhor Washington ter os olhos postos nas suas próprias organizações governamentais, o Pentágono, e outras agências de segurança. Não imaginam o que elas fazem no mundo. Não se trata de casos isolados de violação dos direitos humanos, mas de violações a nível global. 

Prestámos atenção ao relatório publicado pelo Conselho de Estado da China sobre as violações dos direitos humanos nos EUA em 2020. O documento não é um conjunto de acusações padronizadas e apresenta provas convincentes de que a situação nos EUA está fora do controlo das autoridades, destacando como fatores agravantes a propagação maciça da infeção pelo coronavírus, motins políticos, conflitos étnicos e a agravada divisão social.

Apesar de os EUA não analisarem a situação dos direitos humanos no seu próprio país, eles referem, por vezes, quando isso é necessário por razões políticas internas, a divisão e violações dos direitos humanos na sociedade norte-americana, não levando, contudo, essa discussão a nível internacional. 

O documento chinês assinala ainda que a confiança dos norte-americanos no sistema eleitoral nacional diminuiu para o nível mais baixo em 20 anos.

A julgar pela reação de Washington, a "megalomania" dos EUA só está a aumentar quando se trata da necessidade de se cumprir as normas dos direitos humanos.

Salientámos muitas vezes que os EUA e os seus aliados estão a interferir de forma cada vez mais aguerrida e descarada nos assuntos internos de outros países. Como disse o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, numa das recentes entrevistas, não só os EUA como também o Ocidente, desaprenderam a usar a diplomacia clássica, utilizando, na maioria dos casos, sanções como principal ferramenta. Estão a promover uma agenda ideológica destinada a preservar o seu domínio e conter o desenvolvimento de outros países. Esta política é contrária à tendência objetiva nos assuntos internacionais.

Usando como pretexto a luta pelos direitos humanos, os EUA e os seus satélites impõem sanções ilegais, divorciadas da realidade, que atentam contra os direitos humanos de outros países. Esta posição é absurda, constituindo, porém, um elemento importante da atual política externa norte-americana.

A fim de ajudar Washington a ter uma visão mais objetiva da situação dos direitos humanos no mundo, aconselhamos os EUA a ler a análise da situação dos direitos humanos nos EUA apresentada nos relatórios anuais disponibilizados no website do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Rússia. Os relatórios citam muitos factos interessantes. 

Exortamos mais uma vez Washington a dedicar-se à correção da situação dos direitos humanos no seu próprio país e a abandonar a prática de "dois pesos e duas medidas" e de mentoria.


EUA estão a braços com crise migratória


Um exemplo concreto do que queremos falar quando dizemos que os EUA têm coisas mais importantes a fazer do que publicar análises globais da situação dos direitos humanos no mundo. 

A crise migratória em curso na fronteira entre os EUA e o México está a ganhar uma dimensão de um desastre humanitário. A situação exige a intervenção urgente das Nações Unidas, outros organismos internacionais, entidades de direitos humanos e de todos aqueles que não são indiferentes ao sofrimento das crianças que ficaram em condições terríveis.

A realidade é chocante: cerca de 18.000 menores de idade estão atualmente detidos em centros de deportação superlotados que não foram concebidos para longas estadias. Os EUA não possuem fundos nem recursos suficientes para mantê-los em condições mais ou menos próximas das condições humanas. De facto, as crianças estão a ser mantidas amontoadas em recintos gradeados em condições insalubres onde a infeção pelo coronavírus se está a propagar. Elas têm de dormir no chão. 

Os seus pais estão literalmente a "atacar" a fronteira sul dos EUA. O número de detidos já ultrapassa cem mil. Os media americanos estimam que, até mil pessoas, cruzam a fronteira ilegalmente todos os dias. Cerca de 50 mil estrangeiros ilegais, dos quais muitos têm cadastro criminal ou são traficantes de droga, entraram no país entre fevereiro e março. Estima-se que, durante este ano, o número de refugiados na zona fronteiriça atinja 1 milhão.

Acreditamos que o tratamento dado por Washington aos imigrantes, em particular aos menores de idade, nos centros de alojamento temporário, pode ser qualificado como violação grosseira dos seus compromissos internacionais em matéria de direitos humanos. Referimo-nos também aos Artigos 6º (direito à vida) e ao Artigo 7º (vedação à tortura) do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos e à Convenção contra a Tortura e Outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes. As condições em que se encontram os imigrantes ilegais nos EUA podem ser consideradas como tortura e tratamento desumano por muitas características, enquanto a situação criada merece certamente atenção dos respetivos mecanismos de monitorização internacionais, entre os quais o Comité dos Direitos Humanos e o Comité contra a Tortura.

Esperamos que os meios de comunicação social dos EUA não só centrem as suas atenções neste assunto como o tornem especialmente relevante. Sabemos o quanto a sociedade civil norte-americana está preocupada com a situação dos direitos humanos nos outros países. Gostaria que a liberdade de expressão servisse os EUA e fosse benéfica ao seu povo. 

Compreendo que este tópico não é de grande preocupação para o Departamento de Estado que está mais preocupado com a "perna de Aleksei Navalni", dedicando-lhe todos os briefings. Ainda assim, a situação das 18.000 crianças também merece atenção. 

Gostaria de lembrar a este respeito que os EUA continuam a ser o único país do mundo que ainda não aderiu à Convenção sobre os Direitos da Criança, instrumento universal para a proteção dos direitos das crianças, nem aos dois maiores acordos em matéria de controlo da migração adotados no quadro da ONU: o Pacto Global sobre Refugiados, nem o Pacto Global para a Migração Segura, Ordenada e Regular.

Malabarizando o tema da migração, a nova Administração norte-americana parece ter aberto uma Caixa de Pandora. A crise humanitária que explode perante os olhos do mundo num país que afirma ser o principal defensor dos valores democráticos e dos direitos humanos é um exemplo eloquente de como a demagogia eleitoral com fins conjunturais acompanhada de promessas de receber "todos os necessitados" se transformou em sofrimento humano agravado pela impotência das autoridades. É vergonhoso e inaceitável fazer as crianças reféns das disputas políticas internas.


Como EUA interferem nos assuntos internos de outros países 


É tempo de abordarmos o tema da interferência dos EUA nos assuntos internos de outros países. Fomos levados a fazê-lo pelos próprios EUA, pela atual Administração norte-americana. 

"Interferência" é um termo muito politicamente correto que não reflete o cerne da questão. Não se trata de uma simples interferência de Washington em várias épocas históricas nos assuntos internos de outras nações. Trata-se de sangue nas mãos das administrações norte-americanas.

Já falámos da interferência dos EUA nos assuntos internos de outros países. É óbvio que a maioria dos casos de intervenção norte-americana aconteceu durante a Guerra Fria. Todavia, no momento presente, eles também têm em que pensar. 

Naquela altura, os opositores ideológicos no cenário internacional, empenhados em reforçar as suas posições geopolíticas, tentaram colocar "o seu" governo num ou noutro país. Após o fim da Segunda Guerra Mundial, a correlação de forças na Europa, dividida em "blocos opostos", era mais ou menos clara, pelo que o palco de ações se mudou para países da Ásia, África e América Latina.

Os motivos políticos das administrações norte-americanas andavam de braço dado com os seus interesses económicos. O desejo dos EUA de controlar os corredores de transporte, recursos naturais, minerais, principalmente petróleo e gás, foi sempre disfarçado de "boas intenções": defesa dos direitos humanos, promoção da democracia, questões da segurança, etc.

Mecanismos de contenção como a ONU nem sempre foram eficazes para fazer frente às tentativas da Casa Branca de remodelar o mapa político do mundo.

Sem a mínima intenção de transformar o presente briefing numa "palestra sobre a situação internacional", gostaria, contudo, de recordar alguns dos factos da interferência dos EUA nos assuntos internos de outros países durante as últimas décadas e as suas consequências.

A 11 de setembro de 1973, no Chile, militares chilenos, liderados por Augusto Pinochet e apoiados pelos EUA, derrubaram governo do Presidente democraticamente eleito, dando início a uma ditadura militar que durou 17 anos e teve como característica fuzilamentos, repressões violentas e uma profunda cisão na sociedade chilena. 

Outro exemplo são as atividades intensas desenvolvidas pelos serviços secretos norte-americanos na Guatemala para "ajudar" o governo militar a chegar ao poder em 1982. No ano seguinte, em 1983, os EUA intervieram militarmente em Granada. Em 1984, financiaram a guerrilha antigovernamental na Nicarágua. O facto da interferência aberta dos EUA nos assuntos internos daquele país foi confirmado pelo Tribunal Internacional de Haia, a 27 de julho de 1986, no âmbito do famoso processo "Irão-Contras".

Em 1989, os EUA intervieram militarmente no Panamá. Uma das razões foi a indisponibilidade dos EUA para cumprir o acordo de entrega do controlo do Canal do Panamá ao governo panamenho em 1999 o qual eles próprios haviam assinado em 1977. O Presidente Manuel Noriega, que havia trabalhado para a CIA desde os anos 50, fazendo chegar armas ilegais, equipamento militar e dinheiro às mãos das forças apoiadas pelos EUA em toda a América Latina, foi capturado por tropas norte-americanas, levado para os EUA e condenado a 40 anos de prisão por extorsão, contrabando de drogas e branqueamento de dinheiro. Passou 17 anos atrás das grades nos EUA. 

Segundo diferentes estimativas, a intervenção dos EUA no Panamá fez entre 515 e milhares de mortos. O Conselho de Segurança da ONU votou para condenar a intervenção dos EUA no Panamá. Todavia, os EUA, o Reino Unido e França usaram os seus "vetos" para bloquear a resolução. A Organização dos Estados Americanos condenou a invasão dos EUA ao Panamá e exigiu a retirada das tropas norte-americanas do país.

Cuba continua a ser um exemplo gritante da política dos EUA. Há mais de 60 anos que o povo cubano defende o direito ao seu próprio modo de desenvolvimento, repelindo os ataques diretos de Washington à sua soberania. Recorde-se que tudo começou com uma tentativa de invasão direta de Cuba por mercenários norte-americanos em 1961, conhecida como "invasão da Baía dos Porcos". O embargo anticubano imposto por Washington em 1960 e numerosas medidas administrativas subsequentes para endurecer o regime de sanções contra Havana, incluindo a Lei Torricelli, de 1992, a Lei Helms-Burton, de 1996 e outras, apesar da condenação por parte da comunidade internacional e da Assembleia Geral da ONU, não podem ser vistos senão como agressão económica aberta contra Cuba. A decisão do Departamento de Estado dos EUA de incluir a Ilha da Liberdade na lista de países que apoiam o terrorismo não passa de uma política amoral de dois pesos e duas medidas. 

A Venezuela é um exemplo mais recente de interferência aberta e cínica dos EUA nos assuntos internos de um país soberano. Há vários anos que assistimos às tentativas dos EUA de sufocar a economia do país por meio de sanções, incitar as forças armadas nacionais a um golpe militar para derrubar o governo legítimo da Venezuela. 

Em 1992, em Angola, os EUA financiaram a campanha do "seu" candidato à Presidência do país, Jonas Savimbi.  No entanto, ele acabou derrotado. Antes e depois das eleições, os EUA prestaram-lhe ajuda militar para combater o governo legítimo do país, usando como justificação formal a luta contra o governo comunista. Como resultado, o conflito ceifou a vida de 650 mil pessoas. Em 2002, os EUA obtiveram os benefícios desejados para as suas empresas e deixaram de precisar de Jonas Savimbi. Exigiram que ele parasse de lutar, mas este recusou-se. Como disse um diplomata norte-americano a este respeito: "O problema dos bonecos é que eles nem sempre se movem ao serem puxados por um cordel". Como resultado, Savimbi foi morto durante um combate contra as tropas governamentais.

Em 1998, os EUA afirmaram que a fábrica al-Shifa, no Sudão, estava a produzir armas químicas para o terrorista Osama Bin Laden. Bombardearam com mísseis de cruzeiro a fábrica que se revelou ser uma fábrica farmacêutica especializada na produção de medicamentos contra o paludismo no Sudão e era responsável por 90% da produção nacional de medicamentos. O ataque provocou a morte de dezenas de milhares de pessoas que morreram por não terem recebido medicamentos necessários. 

O mais interessante é que uma investigação jornalística do New York Times, em 1999, provou que a decisão de bombardear a fábrica havia sido tomada sem fundamentos suficientes. Mais do que isso, a liderança do Departamento de Estado norte-americano obrigou o Secretário de Estado Adjunto a destruir o relatório redigido pelos analistas dos serviços secretos do Departamento de Estado, segundo o qual não havia razões suficientes para bombardear a fábrica farmacêutica.

Falámos muito, inclusive no briefing anterior, sobre o papel dos EUA e dos seus satélites nos Balcãs na década de 1990-2000. Sem entrar em pormenores (conhecem-nos, são terríveis), direi que o objetivo dos EUA era tornar os regimes políticos dos países balcânicos tão leais quanto possível às diretrizes dos EUA. Foi utilizado um conjunto de ferramentas que, mais tarde, serviu de modelo para impor a vontade política de Washington e dos seus aliados a outros países da Europa, incluindo as ex-repúblicas soviéticas. Na Jugoslávia, o descontentamento social teve como terreno fértil a difícil situação económica no país, provocada inclusive, pelo "muro de sanções" que, a propósito, não foi levantado pelo Ocidente após a celebração dos Acordos de Paz de Dayton na Bósnia-Herzegovina em 1995, ao arrepio dos entendimentos alcançados. As forças oposicionistas foram apoiadas e estimuladas externamente. Como consequência, após os resultados incertos da campanha eleitoral viscosa, Slobodan Milosevic, pressionado pelos EUA e os seus aliados europeus e pelos protestos de rua, abandonou o seu posto. 

Em 2003, os EUA invadiram o Iraque (sem a sanção do Conselho de Segurança da ONU), justificando as suas ações pela suposta ligação do regime de Saddam Hussein com o terrorismo internacional e a informação da CIA de que o Iraque possuía arsenais de armas de destruição em massa. Como se verificou com o tempo, tudo isso era mentira, uma campanha planeada protagonizada por Colin Powell a agitar perante o Conselho de Segurança das Nações Unidas um frasquinho com o que dizia ser uma amostra de armas iraquianas. 

Saddam Hussein foi capturado por tropas norte-americanas e executado em dezembro de 2006 pela sentença do Supremo Tribunal de Justiça do Iraque. O país passou a ser governado por um governo composto por representantes da maioria xiita.

As tropas norte-americanas passaram quase nove anos no Iraque. Segundo os meios de comunicação ocidentais, entre 2003 e 2011, ano em que as tropas americanas foram retiradas do Iraque, o número documentado de baixas civis foi de 100 a 300 mil pessoas. Segundo os dados de diversas organizações não governamentais, este número é várias vezes maior. 

Em 2011, a Resolução nº 1973 do Conselho de Segurança da ONU, de 17 de março de 2011, autorizou uma intervenção militar na Líbia sob o pretexto de proteger a população da morte em consequência de repressões das autoridades do país contra a oposição armada. Isto permitiu à NATO, especialmente às forças que estavam à frente da Aliança, realizar ataques aéreos contra o regime que existia há mais de 40 anos. Como resultado da guerra civil, o líder da Jamahiriya Líbia, Muammar Gaddafi, foi derrubado e morto em outubro de 2011.

De acordo com o jornal britânico "The Daily Telegraph", os dois lados perderam entre mortos cerca de 20.000 pessoas, incluindo civis. O número de refugiados na zona de conflito atingiu 180.000.

De acordo com um relatório da ONU de 2012, todos os países da região do Sahel: Argélia, Chade, Egito, Mali, Mauritânia, Níger e Tunísia, foram afetados pela crise líbia através do afluxo de refugiados.

Quando os norte-americanos pensam que podem suspeitar, acusar ou rotular alguém, eles devem ter presente a história do seu país. Para tanto, não precisam de ler livros, basta olharem para as suas mãos.


Rússia considera como contraproducentes tentativas de impor normas ambientais artificiais 


Uma das primeiras decisões em matéria de política externa tomadas por Joe Biden como Presidente dos EUA em janeiro deste ano foi o regresso dos EUA ao Acordo de Paris (AP). Esta decisão demonstrou a vontade da nova Administração dos EUA não só de acelerar a transição do país para os "carris ambientais", mas também de tentar colocar-se à frente do movimento ambientalista internacional. 

Gostaria de recordar que apenas alguns meses antes do regresso dos EUA ao Acordo de Paris, eles se retiraram formalmente deste acordo multilateral, a 4 de novembro de 2020. Na nossa opinião, o Acordo de Paris é uma sólida base jurídica internacional para um acordo climático a longo prazo. Ao mesmo tempo, esperamos que, daqui em diante, a política de Washington nesta área seja, pelo menos, previsível e não mude de acordo com os interesses conjunturais do establishment político dos EUA.

A Federação da Rússia atribui grande importância à proteção ambiental e é participante importante nos processos ambientais internacionais, contribuindo muito para a criação de mecanismos globais de proteção ambiental. Ao mesmo tempo, defendemos uma atitude despolitizada e responsável e não declaratória, para com o problema das alterações climáticas globais. Acreditamos que cada país tem o direito de escolher um modelo apropriado de transformação verde, em função da sua situação socioeconómica. Consideramos como contraproducentes todas e quaisquer tentativas de impor normas ambientais artificiais. 

Acreditamos que a problemática ambiental é uma das áreas em que as posições da Rússia e dos EUA sobre a agenda internacional podem coincidir ou estar próximas. A Rússia declarou várias vezes que os desafios em matéria ambiental só podem ser vencidos através de uma cooperação. Declaramo-nos dispostos a dialogar em pé de igualdade, tanto a nível de peritos como a nível político.


Ex-Relatora de Direitos Humanos é nova chefe da Anistia Internacional


Tomámos nota da notícia, divulgada pela imprensa estrangeira, de que a Relatora Especial do Conselho dos Direitos Humanos (CDH) das Nações Unidas sobre Execuções Extrajudiciais, Agnes Callamard, foi nomeada Secretária-Geral da Anistia Internacional. Gostaríamos de desejar a Agnes Callamard sucesso no seu novo posto e manifestar a esperança de que, no exercício das suas funções, a responsável se norteie não tanto pelos interesses de um determinado grupo de países como por factos objetivos e pelas verdadeiras aspirações das pessoas. 

A Federação da Rússia considerou sempre que as questões relacionadas com a nomeação de novos peritos para os procedimentos especiais do Conselho dos Direitos Humanos não tinham motivação política e não exigiam uma reação especial de países. Contudo, temos registado ultimamente que as ONG internacionais de direitos humanos e os mecanismos de monitorização dos organismos intergovernamentais de direitos humanos funcionam como uma espécie de " vasos comunicantes": os peritos em direitos humanos "fluem" simplesmente de um posto para outro.

A Anistia Internacional e outras grandes ONG internacionais estão entre os principais "fornecedores" de pessoal para as vagas nas unidades estruturais do Secretariado da ONU, mecanismos de monitorização da ONU, Procedimentos Especiais do CDH.

Uma das chefes anteriores da Anistia Internacional, Irene Khan, é agora Relatora Especial do CDH sobre a liberdade de expressão. Processos inversos também ocorrem: prova disso é a nomeação de Agnes Callamard. Neste contexto, a pergunta que se faz é: de que objetividade se pode tratar na avaliação da situação dos direitos humanos se os relatores especiais do Conselho dos Direitos Humanos são "críticos profissionais" das estruturas governamentais provenientes da sociedade civil? Conhecem-se factos de influência sobre estas organizações. 

Consideramos que esta situação é bastante problemática e requer uma atenção especial, devendo ser debatida num formato intergovernamental.


Ex-diretor dos serviços secretos britânicos faz advertência à Rússia 


O ex-diretor-geral do MI6 (serviço de informações britânico), Alex Younger, disse: "A nossa tarefa é fazer com que a Rússia chegue à conclusão de que quaisquer benefícios que planeie retirar das suas ações acabarão por não valer os riscos envolvidos. Fá-lo-emos de acordo com as nossas regras, de acordo com as nossas leis e os nossos valores, e, ao fazê-lo, seremos bem-sucedidos. Advirto a Rússia e qualquer outra nação que pretenda minar o nosso modo de vida contra a subestimação da nossa perseverança, das nossas capacidades e das capacidades dos nossos aliados"... 

Não imaginam quantas pessoas no Reino Unido e no Ocidente falaram dos valores em que o mundo ocidental alegadamente se baseia. Não esperávamos que os representantes do MI6 falassem sobre este assunto. Agora é claro onde no Reino Unido estes valores são criados. 

Gostaríamos de compreender do que exatamente eles estão a falar. Que valores são estes que estão a ser tão cuidadosamente defendidos por Londres? Torturas e grosseiras violações dos direitos humanos durante as chamadas "operações antiterroristas" noutros países, realizadas, inclusive com a participação do Reino Unido, também fazem parte destes valores? A chacina de civis pelos militares britânicos no Afeganistão? São os valores que estão a defender? E que dizer das mentiras sobre a alegada presença de armas de destruição em massa no Iraque (o que mencionámos hoje) e das "informações erradas" pelas quais Tony Blair teve de pedir desculpa? Reparem, Tony Blair pediu simplesmente desculpa pela matança de centenas de milhares de civis. Nenhuma indenização, nenhuma responsabilidade política, nenhuma outra responsabilidade foi assumida por um país que havia estado entre os que conceberam a operação ilegal e criminosa no Iraque. Isto também faz parte dos valores que estão a defender? O dossier iraquiano do WikiLeaks evidencia crimes em massa contra civis perpetrados pelos militares britânicos, é um valor? É isso que estão a defender? Em vão.

A justiça britânica tem a intenção de processar dezenas de vigaristas, entre os quais há russos, que vivem tranquilamente no Reino Unido? Este valor está também a ser defendido? Temos ouvido muitas declarações nos últimos tempos. Na prática, porém, grandes instituições financeiras britânicas tornaram-se numa lavandaria" global para a lavagem de rendimentos ilícitos retirados não só da Rússia como também de outros países. Estão a defender este valor?

Agora sobre os valores britânicos num contexto histórico. Existem livros inteiros a descrever crimes do Reino Unido durante o período colonial. Dedicámos especial atenção a este assunto num dos nossos briefings anteriores. Falámos muito disso, especialmente no briefing de 19 de abril de 2018. 

Poderia ser que o ex-agente secreto britânico entendesse por valores a liberdade de expressão? Aparentemente, este é um valor que deveria ser preservado. Há quem atente contra ele. Vamos dar uma vista de olhos aos factos. Verificamos que a liberdade de expressão não goza de respeito no seu país e é cinicamente utilizada. Simplesmente foi espezinhada. É normal no Reino Unido violar os princípios da liberdade de expressão e do pluralismo dos media. Os documentos de arquivo mostram que, no Reino Unido, as coisas foram sempre assim. Durante o briefing de 26 de fevereiro deste ano, eu já disse que os meios de comunicação russos são discriminados durante diversos eventos. Basta recordar a Conferência Global sobre a Liberdade dos Meios de Comunicação Social, em 2019. Os meios de comunicação social russos não foram autorizados a assistir.  Recentemente, chamámos a atenção para a publicação de documentos, os "ficheiros britânicos", segundo os quais o governo britânico, através de intermediários, financia publicações noticiosas e blogueiros que operam no espaço russo da Internet. O seu objetivo, a julgar pelos materiais não desmentidos por ninguém, é "criar condições para a mudança do regime" no país e minar a política interna e externa russa. Esta operação de grande envergadura envolve tanto grandes veículos de comunicação como empresas de relações públicas britânicas. 

E que dizer do "principal parceiro estratégico" do Reino Unido, cuja opinião, e usemos uma linguagem moderada, Londres ouve com muita atenção e com o qual tem uma ligação estratégica? E que dizer dos valores defendidos por esta dupla? Vejamos os acontecimentos mais recentes (se tomarmos exemplos mais amplos, levaremos vários anos a comentá-los). 

Estou a falar do processo eleitoral no país, que tanto gosta de pregar a outros atitudes corretas para com os direitos humanos e padrões eleitorais. Mas que dizer do facto de cerca de metade dos norte-americanos (refiro-me aos dados de instituições norte-americanas) duvidarem da legitimidade das últimas eleições? Estes dissidentes, pessoas que expressam as suas opiniões com base no que veem e leem e consideram que lhes "roubaram as eleições", estão a ser perseguidos, banidos nas redes sociais, declarados "terroristas domésticos" e responsabilizados penalmente. Este é um dos valores acima citados e que deve ser defendido?  A própria sociedade britânica, a julgar pelo que vemos e lemos, é cética a este respeito.

Quanto mais nos disserem que estamos a tentar atacar ou a ter uma política agressiva contra os valores ocidentais, mais questionaremos de que valores se trata porque é impossível compreender.


Reino Unido instaura nova instituição na área da liberdade de opinião e pesquisa científica


O Ministério da Educação do Reino Unido criou o cargo de Representante Especial para assuntos da liberdade de opinião e pesquisa em estabelecimentos de educação superior. Achei primeiro que se tratava de mais um relator especial ou representante na área de problemas estrangeiros. Resulta que não. O Reino Unido não só regista um problema, mas um colapso da liberdade de opinião.

O representante do governo britânico que ocupa o novo cargo vai acompanhar casos de violação do direito de liberdade de opinião nas universidades e em uniões de estudantes, multando as organizações que limitarem a liberdade de expressão e de escolha de temas de pesquisa científica dos professores e estudantes. O Representante Especial também vigiará a revisão de factos de demissão ou punição administrativa de empregados universitários, se for provado que tal sanção foi um ato de repressão da liberdade.

Esta decisão é apresentada como reação das autoridades à procura crescente por parte do meio docente e de peritos, que exigem reprimir a cultura intelectual “da esquerda”, que está em auge nas universidades britânicas, tendo adotado formas agressivas, como a “cultura de ficar desperto” (woke culture) e a “cultura do boicote” (cancel culture, ou cultura do cancelamento).

Pesquisas sociológicas confirmam que a situação da liberdade de opinião é deprimente nas universidades desse país. De acordo com o Instituto de Pesquisa da Sociedade Civil Civitas, 35% das universidades do Reino Unido estão na “zona vermelha” em termos de respeito à liberdade de opinião, 51%, na “zona amarela”, e só 14% dos estabelecimentos de educação não praticam censura.

Em geral, pode-se constatar que o cultivo ativo de valores estranhos (há quem os chame de neoliberais, e há quem os deixe sem qualificar) em solo britânico começa a dar fruto que faz desesperar as próprias elites políticas. Só dá esperança o facto de Londres se ter dado conta do tamanho do problema, optando por tentar resolver a sua tarefa interna de grandíssima escala. Vamos ver qual será o resultado.

Do outro lado, o escritório de Downing Street não podia esperar outra coisa das universidades britânicas, já que todos vemos como o governo do Reino Unido trata a liberdade de opinião. Eis a situação da Julian Assange, perseguido por motivos políticos. A sua atividade de jornalista não contentava ninguém. Todos veem bem como é manipulada a liberdade de opinião – e a própria elite política britânica controla todo um leque de tabloides. O que eles esperam dos professores e dos estudantes, se o próprio governo é quem manda a música?


Canadá introduz novas sanções antirrussas


O Canadá introduziu novas sanções antirrussas por motivo da reunificação da Crimeia à Rússia. Tudo isso demonstra a obstinação pouco sã de Ottawa oficial em negar a realidade objetiva. A receita é uma só: abandonar as ilusões de que se pode fazer os habitantes da Crimeia, que votaram pelo retorno ao porto natal, recusar-se à sua escolha histórica.

As tentativas das autoridades canadianas de ditar aos países soberanos como viver e que valores priorizar minam a reputação do próprio Canadá, incitando o confronto desse país com um número sempre a crescer de atores internacionais de peso. A Federação da Rússia não deixará este truque de Ottawa sem a devida resposta – que está a ser elaborada.

Consideramos, neste contexto, que a China tomou com fundamentos a decisão de introduzir sanções contra funcionários e estruturas oficiais do Canadá por intervenção nos assuntos internos da China.

É de rir-se, com efeito, que as sanções sejam introduzidas por todo um leque de Estados do mainstream ocidental. A Austrália em particular, que soube, em 2021, da existência da ponte de Querche. Isso é já uma sátira. Sei que a Austrália fica longe, mas existem meios de informação e comunicação em massa, redes sociais, comunicadores, serviços de troca de mensagens. Não pode ser que alguém possa demorar anos para saber de uma construção deste tamanho. Isso borda o ridículo.

Do outro lado, por que ficar surpreendidos? Se eles estavam a ser guiados pelas declarações de Kiev oficial a alegar que não haveria uma ponte alguma, então não acreditavam que existia. E agora, já se deram conta da sua existência.


Kiev fabrica mais uma fake histórica


Através da Representação do MNE da Rússia em Simferopol, soubemos de mais uma fake lançada por propagandistas ucranianos. A 25 de março, foi publicado no Twitter, numa das contas oficiais ucranianas, um vídeo de 2 minutos dedicado à história da Crimeia. O vídeo inclui imagens que nada têm a ver com a península.

A máquina de propaganda do regime de Kiev não deixa de cometer o mesmo erro de sempre.

Eles já ilustraram uma matéria sobre a tragédia do povo dos tártaros da Crimeia com uma foto mostrando judeus do gueto de Łódź a serem enviados a um campo de morte pelos hitlerianos, na Polónia ocupada. Aquilo foi feito pela Embaixada da Ucrânia em Washington, e em 2020, a “doença” pegou no Representante Permanente dos EUA na OSCE.

Os colegas de Kiev assinalaram mais um sucesso. Tomaram uma foto dos arquivos do Museu Memorial do Holocausto dos EUA, comentando, na inscrição, que se tratava da “deportação pelo regime estalinista”.

A fake foi desmentida e os media comentaram-na, inclusive na Crimeia, por isso os falsificadores rapidamente apagaram o vídeo.

Mas se isso aparece no espaço público, pensem o que é discutido no decurso de negociações, que “relatórios” são enviados às estruturas internacionais, que lendas o regime de Kiev tece sobre a Crimeia de hoje.


Montenegro e Macedónia do Norte aderem às medidas antirrussas da UE


A 30 de março, o Alto Representante da UE para Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Josep Borrell, anunciou que uma série de Estados que não fazem parte da União Europeia iriam aderir às novas sanções antirrussas do grupo, que Bruxelas inventou para reagir ao dito “caso Navalny”.

Vale notar que entre os países cuja conduta não amigável já deixou de surpreender figuram também a Macedónia do Norte e Montenegro.

Skopje e, desde há pouco tempo, Podgorica asseguram-nos do seu desejo de desenvolver e de reforçar as relações normais com a Rússia, e quanto a Montenegro, de restaurá-las após a degradação que durou muitos anos. Falam da necessidade de criar as condições necessárias para isso. Ao mesmo tempo, tentam explicar as razões que os “forçaram” a seguir a linha da política russófoba ocidental. Alegam o imperativo imposto aos solicitantes de adesão à União Europeia de seguir as suas decisões e conceitos da política externa. Em outras palavras, sustentar mecanicamente os passos que nem ajudaram a elaborar.

Ficamos a observar atentamente as tentativas dos parceiros da Macedónia do Norte e de Montenegro de definir a sua política para com a Rússia. Infelizmente, a dita “solidariedade sancionatória” que Skopje e Podgorica manifestam, revela mais uma vez a falta de consequência e a dependência dos nossos colegas balcânicos.

Nós permanecemos sempre abertos ao diálogo honesto, igualitário, baseado no respeito mútuo e na observância recíproca dos nossos interesses. Por sua parte, a abordagem consumista e manobras ridículas destinadas a resolver tarefas de conjuntura em prol da “união” com terceiros países nada fazem senão minar a confiança e não estimulam, de modo algum, o desempenho das relações bilaterais com a Rússia.


Tribunal de Recurso da Lituânia emite sentença final sobre “caso dos acontecimentos de 13 de janeiro de 1991”


É indignante o veredito final emitido pelo Tribunal de Recurso da Lituânia no âmbito do caso fabricado “sobre os acontecimentos de 13 de janeiro de 1991”. O mesmo condena antigos militares, funcionários do Partido Comunista e de Estado soviéticos a largos termos de prisão por crimes que eles não cometeram. Estão entre eles os cidadãos da Rússia Yuri Mel e Guennady Ivanov, cujo julgamento foi presencial e que viram a sua condena reforçada.

Não foi provada a culpa de todos os “réus”, foram violadas a presunção de inocência, a proibição de retroatividade da lei, o direito de julgamento justo. Nesta medida, gostaríamos de perguntar às organizações especializadas de direitos humanos e internacionais, inclusive àquelas que já mencionámos hoje: como avaliam a falta de desejo das autoridades lituanas de identificar os verdadeiros culpados pelas mortes ocorridas em Vilnius a 13 de janeiro de 1991?

Este julgamento indignante acontece num país que luta ativamente pelos direitos humanos em Estados vizinhos. Já no seu território, que pertence ao “espaço da democracia”, os governantes lituanos acham-se no direito de fazer toda ilegalidade, de manipular a justiça de forma brutal e cínica, perseguindo fins políticos.

Manifestamos o nosso protesto firme por causa dos casos de violação dos direitos do cidadão da Rússia Yuri Mel, que já passou mais de sete anos nos calabouços lituanos e que deverá passar na prisão mais três anos. Vamos prestar assistência aos seus advogados com os recursos ao Supremo Tribunal e nos seus contatos futuros com as instâncias judiciárias internacionais. Destacamos para os defensores dos direitos humanos o facto de a Lituânia usar a justiça punitiva, criando condições intoleráveis de prisão para uma pessoa cuja inocência é um facto conhecido e que sofre de uma grave doença crónica.

Os chefes de Estado da UE vão comentar o assunto no Twitter? Haverá talvez uma conferência de imprensa especial com relatores especiais? Haverá protestos contra tais ações por parte de ONGs no mundo inteiro, que sempre se preocupam tanto pelos direitos humanos? Vamos ver.

Exigimos do regime repressivo lituano a libertação imediata do cidadão da Rússia Yuri Mel, condenado sem culpa.

As ações criminosas de Vilnius não ficarão sem consequências.


Senegal comemora Dia da Independência


A 4 de abril, a República do Senegal vai comemorar os 61 anos da independência.

No decurso da sua história, o Senegal superou a difícil etapa de dependência colonial e escravidão. Em 1444, foram os membros da expedição portuguesa os primeiros europeus a chegarem ao estuário do rio Senegal. Depois, o país passou a ser controlado pelos holandeses, ingleses e, finalmente, franceses. Desde os meados do século XVII até a primeira metade do século XVIII, o Senegal era uma base de colonização da África Ocidental, e a ilha de Goré era o centro regional de comércio de escravos.

O movimento pela independência do Senegal surgiu em 1914-1918. Em 1948, foram formados e definidos os grupos políticos nacionais, levando à criação, em 1956, do Bloco Popular Senegalês, encabeçado por Léopold Sédar Senghor, futuro primeiro Presidente do país. A 4 de abril de 1960, foi proclamada a independência do Senegal.

O Senegal de hoje é um Estado em desenvolvimento dinâmico que pretende desempenhar um papel importante nos assuntos africanos e internacionais. Em 2022, Dacar assumirá a presidência no agrupamento continental, a União Africana.

As relações russo-senegalesas são de amizade sustentável e em evolução. No ano passado, o Senegal tornou-se o maior parceiro comercial e económico do nosso país na África Ocidental. Partilhamos totalmente o desejo de Dacar oficial de ampliar todo o leque de interação bilateral.

Estamos convencidos de que relações bilaterais frutuosas continuarão a se reforçar em prol dos povos dos nossos países. Queremos felicitar o povo do Senegal pelo feriado nacional, desejando-lhe novos êxitos, paz e prosperidade.


Ponto da situação do coronavírus


Constatamos o triste estado de propagação global da infeção pelo novo coronavírus, Covid-19. Estou a falar das tendências mundiais. A 31 de março, o número dos infetados no mundo inteiro chegou quase a 129 milhões, e o número total de vítimas da pandemia superou os 2,8 milhões.

No contexto da situação preocupante atual, tornamos a prestar a atenção dos cidadãos da Rússia que planeiam visitar o estrangeiro com as nossas recomendações. O Centro Operativo de Prevenção de Importação e Propagação da Infeção pelo Novo Coronavírus na Federação da Rússia anunciou, desde o primeiro de abril, a retomada recíproca da comunicação aérea com a Venezuela, a Alemanha, a Síria, o Tajiquistão, o Uzbequistão, o Sri Lanka. Também, a partir desta data, será aumentado o número de voos regulares de ligação com a Arménia, o Azerbaijão, a Bielorrússia, Cuba, o Egito, os Emirados Árabes Unidos. A partir do início do mês, autorizam-se voos para o estrangeiro de aeroportos de Barnaul, Belgorod, Kaluga, Krasnodar, Lipetsk, Nalchik, Oremburgo, Saratov, Sochi, Tyumen, Volgogrado, Voronezh, Yuzhno-Sakhalinsk, sempre que as exigências sanitárias sejam observadas.

Como qualquer viagem ao estrangeiro é ligada hoje à ameaça imediata à saúde, voltamos a apelar a planear viagens com toda a cautela.

Se a viagem ao estrangeiro for urgente, recomendamos estudar de antemão as informações acessíveis, inclusive, nas páginas do nosso Ministério, das Embaixadas, do Centro Operativo, de outros ministérios e outras entidades, e também cumprir todas as exigências e normas estabelecidas pelo país anfitrião e, às vezes, pelo país de trânsito, em virtude da pandemia de Covid-19 que continua.

Pergunta: O Alto Representante da UE para Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Josep Borrell, declarou que a Rússia e a China unem-se para se opor ao mundo ocidental e se tornar menos dependentes dele, que a aproximação sino-russa está baseada, antes de tudo, na recusa aos valores democráticos e na oposição àquilo que consideram “intervenção” nos seus assuntos internos. Josep Borrell veio também destacar o “caráter inimigo e as intenções estratégicas da Rússia e da China”, apelando a uma tal “autonomia estratégica europeia”. Como o MNE da Rússia avalia esta declaração, particularmente no que respeita à acusação da Rússia de ser “inimiga”?

Porta-voz Maria Zakharova: Vemos nestas declarações e em toda a política da UE uma tentativa de deturpar tudo. As recentes declarações e sanções ilegítimas contra a Rússia e a China continuam a política não amigável da União Europeia, que a afasta dos seus vizinhos do continente eurasiático. A UE volta a usar fórmulas da época da Guerra Fria no vocabulário diplomático, promovendo o arcaico modo de pensar em “blocos de países”. Aprofunda as linhas divisórias. As tentativas da UE de falar com outros da posição de força são muito perigosas, capazes de desestabilizar as relações internacionais. Se Bruxelas continuar assim, corre o risco de ficar à margem do desenvolvimento económico internacional, cujo centro está a deslocar-se para a Ásia.

Ao contrário da UE e dos EUA, a Rússia e a China não fazem amizade contra alguém. As nossas relações têm valor próprio, elas não são sujeitas à conjuntura externa. Manifestamo-nos pela ordem mundial verdadeiramente democrática, justa, multipolar, consoante aos princípios fundamentais da Carta da ONU. Prova disso são tanto as respostas às “estupidezes” que ouvimos de Bruxelas, como também os documentos doutrinais aprovados há muitos anos. É a nossa posição firme e peremptória, elaborada, aprovada, declarada e realizada desde há muitos anos. Acreditamos que a interação dos atores globais deve basear-se nos princípios de igualdade e de respeito aos interesses de cada parte. É nisso que se baseiam as nossas verdadeiras – e não alegadas por outros – “intenções estratégicas”.

Sugeríamos muitas vezes este paradigma à União Europeia, sublinhando estarmos prontos para a cooperação construtiva, se Bruxelas manifestar interesse recíproco.

Porém, vemos, em vez disso, a UE inclinar-se a uma ideologia diferente, inventar novas fórmulas de confronto com outros países. Quanto à China, as fórmulas são: “parceiro, concorrente, rival”. Quanto à Rússia, inventaram o seguinte: “oposição, contenção, interação seletiva”. É desta índole também a “intensificação gradual, proporcional e reversível” da cooperação com a Turquia. A nosso ver, tais “novelas”, que encobrem a política de látego e bolacha, estão longe do desejo de estabelecer um diálogo baseado no respeito mútuo, como isso acontece, por exemplo, entre a Rússia e a China, entre a Rússia e a Turquia.

Apelamos aos colegas da União Europeia a reverem as suas abordagens. As tentativas de se unirem contra a Rússia e a China, de “se enquadrar” na política de Washington dificilmente poderão ajudar a alcançar a “autonomia estratégica”, tão almejada pela UE. Aliás, tal política não é do interesse dos cidadãos comuns dos países da União Europeia, que não querem que a nova ronda de confrontação na região Euro-Atlântica seja paga do seu bolso.

Pergunta: Aconteceu um escândalo internacional entre a Rússia e a República Checa. É evidente a tendência europeia de manter em foco os diplomatas russos. O escândalo está relacionado com a desmontagem do monumento ao marechal soviético Ivan Konev que libertou a capital checa dos fascistas. Após o escândalo, a República Checa começou a acusar a Rússia, alegando que Moscovo teria sido culpada de piora das relações. O jornalista checo A. Cerny escreveu que “há demasiados diplomatas russos no país que não fazem nada para recuperar as relações, que estão no ‘ponto de congelamento’”. Como o MNE da Rússia avalia tais acusações? O que acontece em torno do monumento?

Porta-voz Maria Zakharova: Citou o jornalista que fez a pergunta retórica: “não seriam demasiados os diplomatas russos em Praga”. Posso responder na mesma corrente: não seriam demasiados os diplomatas checos em Moscovo? Talvez ele não saiba que tais questões são assunto de acordo das partes, de paridade. Tem que ser objetivo e honesto com os seus leitores e dizer a onde tais tendências podem levar, se forem realidade.

Quanto ao monumento ao marechal Ivan Konev. Isso não é um escândalo. É uma verdadeira tragédia da República Checa, daquela “civilização ocidental” que se gaba tanto de certos “valores”. A lista dos países, continentes, organizações, pessoas que caíram vítimas desta tragédia pode ser alargada. Quando as pessoas se esquecem da sua história, reescrevem-na, é um drama. E a tragédia é ainda maior se as pessoas olvidam a história da sua sobrevivência.

A decisão das autoridades municipais de Praga de desmontar o monumento ao marechal da União Soviética, Ivan Konev, afetou de maneira grave as relações russo-checas. Quero lembrar que este passo checo violou as cláusulas do Tratado de Amizade e Cooperação de 1993, documento bilateral que prevê obrigações de proteção dos monumentos aos guerreiros, de acesso livre a eles. Explicámos isso muitas vezes a Praga.

A fim de procurar meios de resolver a situação, a parte russa iniciou consultas bilaterais no verão do ano passado. Infelizmente, as consultas nunca foram realizadas – essencialmente, por considerações sanitárias. Portanto, esperamos poder encontrar uma solução mutuamente aceitável quanto ao futuro destino do monumento a Ivan Konev.

Pergunta: Poderá a Rússia atrair de novo a atenção dos copresidentes do Grupo de Minsk da OSCE e também da UNESCO para investigar os casos de profanação de locais histórico-culturais na Arménia e punir os militares do Azerbaijão responsáveis pelos crimes?

Porta-voz Maria Zakharova: Defendemos uma atitude cuidadosa para com os locais de cultura e de culto religioso em Nagorno-Karabakh e zonas adjacentes. Confirmamos a importância do envio mais rápido possível de uma missão da UNESCO para a região. Mantemos também contatos com as partes sobre cada caso concreto.

Pergunta: Como a senhora comenta as informações divulgadas pelos media sobre a detenção pelos serviços especiais estonianos, a 3 de março, do conhecido defensor dos direitos humanos Serguei Seredenko?

Porta-voz Maria Zakharova: Da mesma maneira que comentei o “julgamento” de Yuri Mel. Não é a primeira vez que ã justiça punitiva é usada nos países do Báltico. Neste caso, trata-se de um exemplo de luta contra a opinião diferente, de buscas da famigerada “pista russa” pelos serviços especiais, de pressão política em relação aos representantes da numerosa comunidade russófona.

A pessoa que defende abertamente na Estónia os interesses das minorias nacionais, inclusive em fóruns e conferências internacionais, está a ser perseguida pela sua postura cívica ativa. Pergunto a todos os chefes de Estado da União Europeia, as organizações internacionais que se especializam em direitos humanos, em liberdade de opinião: onde vocês estão? Onde está a sua reação? Onde está pelo menos uma palavra de reação a isso todo nas redes sociais, uma foto desta pessoa? Não há nada.

Apelamos à comunidade internacional de defesa dos direitos humanos a acompanhar atentamente a observância das normas universais do direito humanitário internacional em relação ao ativista Serguei Seredenko, detido na Estónia, levando em conta a sua idade e o estado da saúde.

Pergunta: O Presidente da Lituânia, Gitanas Nauseda, declarou que as autoridades russas menosprezam a integridade territorial da Ucrânia. Como a senhora comenta esta avaliação?

Porta-voz Maria Zakharova: Ao longo de muitos anos, nós, já enquanto Estados soberanos, defendíamos e protegíamos a integridade territorial da Ucrânia. Se a situação em torno da Crimeia for o assunto em questão, vou lembrar aos colegas do Báltico que os crimeanos tinham solicitado muitas vezes um referendo que iria definir o seu destino. Faziam-no abertamente, tentavam apelar a Kiev, usar mecanismos de direito e jurídicos no intuito de defender os seus direitos e as suas liberdades.

Contudo, apesar de compreender as dificuldades que os crimeanos enfrentavam nos anos 90 e antes, nenhuma palavra dos representantes oficiais, dos funcionários, dos diplomatas, dos representantes de entidades e estruturas estatais da Rússia evidenciava que duvidassem da integridade territorial da Ucrânia. Não havia, nem há tais exemplos.

Mas eis que chegou o ano de 2014. Antecedeu-o mais um facto – que não era o primeiro, nem o único – de intervenção nos assuntos ucranianos por parte dos Estados ocidentais. Mais uma vez, a mudança do poder foi realizada através do Maidan, um golpe de Estado anticonstitucional foi realizado, levando ao lançamento de processos seguintes. É certo que o nosso país nada tem a ver com isso, mas pelo contrário, quem tem são os vizinhos dos Estados do Báltico.

Vou lembrar o papel dos diplomatas do Báltico, dos homens de Estado da Polónia, da Alemanha, dos EUA, que não somente intervinham nos processos que aconteciam na Ucrânia em 2014, mas também os modelavam e levaram a cabo com as suas próprias mãos. Dezenas, centenas de ditos “especialistas” estrangeiros em todas as áreas (serviços especiais, mercenários) permaneciam no território da Ucrânia, disfarçados ora de “comunidade” ucraniana, ora de “consultantes”. Assim era a intervenção nos assuntos internos do Estado soberano.

Todos os processos que vieram ocorrer no território da Ucrânia em 2014 acarretaram uma série de eventos. Esses eventos são consequência da intervenção direta dos países do Ocidente (EUA, UE) nos assuntos da Ucrânia. Não é necessário buscar culpados nos países que não têm culpa alguma da situação, que sempre se manifestaram pela soberania e independência da Ucrânia, respeitando-a não somente com palavras, mas com atos, desenvolviam as relações económicas, políticas, humanitárias, usavam somente os instrumentos de direito, a prática diplomática na sua interação com a Ucrânia soberana. Algo que não pode ser dito dos vizinhos – da própria Lituânia.

Pergunta: O Embaixador da Polónia na Rússia, Krzysztof Krajewski, declarou que Varsóvia está pronta para o diálogo igualitário com Moscovo. A senhora acredita que tal será sinal da melhoria das relações bilaterais?

Porta-voz Maria Zakharova: Na sua primeira entrevista publicada nos media russos, o novo Embaixador da Polónia na Rússia, Krzysztof Krajewski, diz que Varsóvia está disposta ao diálogo e à normalização das relações com a Rússia. Ficamos felizes por este desejo da parte polaca. Esperamos que as palavras sejam comprovadas pelos atos. Só podemos saudar que este era realmente o desejo da Polónia e se as relações irão prosseguir neste sentido. Mas para se compreender o ponto em que estamos e com o que se deve começar, é preciso comentarmos a situação atual.

O novo Embaixador polaco relaciona um mau estado das nossas relações bilaterais com a piora geral das relações entre a Rússia e o Ocidente ocorrida nos anos recentes. Na prática, as relações da Rússia não são iguais com todos os países ocidentais. Os problemas do diálogo entre Moscovo e Varsóvia não começaram ontem.

Em particular, a interação não se vê facilitada de modo algum pela campanha que tem a escala nacional na Polónia no intuito de expurgar da memória nacional “o falso sentimento de agradecimento” aos guerreiros libertadores soviéticos. Agindo no âmbito da “política histórica estatal” mantida por Varsóvia, os funcionários polacos não somente negam o papel do Exército Vermelho na libertação da Europa do fascismo, mas também empreendem tentativas caluniosas de responsabilizar a Rússia de ter iniciado, junto com a Alemanha hitleriana, a Segunda Guerra Mundial.

Krzysztof Krajewski realçou que a Polónia respeita a memória dos guerreiros caídos do Exército Vermelho. E são frequentes os casos de vandalismo relativos aos túmulos soviéticos na Polónia e a campanha de desmantelamento dos monumentos aos guerreiros do Exército Vermelho iniciada nos anos recentes parece cínica demais. 446 tais monumentos foram destruídos na Polónia e, não obstante o senhor Embaixador ter qualificado de falsas as alegações dos media russos sobre eliminação de túmulos dos guerreiros soviéticos na Polónia, tais casos tiveram lugar. Em 2017, foi desmontado o mausoléu no cemitério dos guerreiros do Exército Vermelho em Trzcianka, e em 2018, em Pogorzelice. Nesta situação, parece não somente difícil, mas insensata a retomada do diálogo no âmbito do Grupo de Assuntos Difíceis resultantes da história das relações russo-polacas.

O senhor Embaixador pinta uma imagem positiva das relações comerciais e económicas russo-polacas. Porém, segundo as estatísticas russas, as nossas relações comerciais registam uma dinâmica negativa que se mantém por vários anos (nos dois anos passados, as trocas comerciais sofreram uma redução de 35%), e a queda continua. Isso é fruto dos esforços de Varsóvia empreendidos no sentido de limitar a exportação de hidrocarbonetos da Rússia, as sanções contra a Rússia e as condições desfavoráveis para as empresas russas que tentam entrar legalmente ao mercado polaco.

Um dos fatores importantes que tem vindo a impedir a normalização de contatos com a Polónia são as tentativas de Varsóvia de militarizar a Europa Oriental por meio do potencial militar norte-americano. Vemos nisso, antes de tudo, uma atitude irresponsável para com o sistema de estabilidade político-militar na Europa. Os riscos que acarreta a alteração do equilíbrio existente são muito maiores do que as “ameaças” ilusórias e inexistentes por parte da Rússia, a que o Embaixador Krajewski se refere.

Para normalizar as relações bilaterais, a Varsóvia convém prestar ouvidos, de maneira real, e não declarativa, aos nossos apelos de manter o diálogo baseado na observância do direito internacional e no respeito mútuo dos interesses. Não existem obstáculos obviamente impassíveis de normalização das relações russo-polacas. Todos os problemas existentes podem ser resolvidos desde que ambas as partes manifestem uma vontade política. Porém, ainda não vemos tal vontade da parte polaca. Se Krzysztof Krajewski tenciona melhorar alguma coisa, estendemos-lhe a mão.

Pergunta: De que assuntos tratar-se-á no decurso de reuniões do Ministro Serguei Lavrov com os seus colegas do Azerbaijão e da Arménia no âmbito do Conselho dos Ministros dos Negócios Estrangeiros da CEI agendadas para o dia 2 de abril? O MNE da Rússia vê diferença radical nas abordagens das “questões problemáticas” do Azerbaijão e da Arménia relativamente a Nagorno-Karabakh?

Porta-voz Maria Zakharova: As reuniões estão em curso. Resta esperar um pouquinho. Aguardemos os comunicados finais.

Pergunta: A 4 de abril, as relações diplomáticas entre a Rússia e o Azerbaijão fazem 29 anos. Recentemente, o assessor de imprensa do Presidente da Rússia, Dmitry Peskov, declarou que a Rússia e o Azerbaijão mantêm “excelentes relações de confiança, baseadas no respeito mútuo”.

2020 foi um ano importante para as relações russo-azeris, porque foi feita a Declaração trilateral sobre o conflito em Nagorno-Karabakh. Além disso, foi assinalada uma importante cooperação na luta contra a pandemia do coronavírus. Como o MNE da Rússia avalia a eficácia das relações com o Azerbaijão em diferentes vertentes, que áreas da cooperação são priorizadas? Quais são os desafios comuns que exigem reação?

Porta-voz Maria Zakharova: Vão ser publicadas em breve as entrevistas do Vice-Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Andrei Rudenko, que comemoram o 29o aniversário das relações diplomáticas com o Azerbaijão e a Arménia. Os materiais conterão avaliações detalhadas das relações bilaterais e o leque de assuntos ligado a Nagorno-Karabakh.

Pergunta: Nos dias recentes, o canal de televisão RT deparou-se com restrições sem precedentes. As autoridades da Letónia bloqueiam o site de notícias RT em russo, e o YouTube bloqueou o canal em língua árabe da holding, que tinha quase 3 mil milhões de visualizações, por acusações inventadas. A Rússia pode reagir a isso com algo mais do que protestos formais? Há algumas ferramentas que permitam exercer o nosso direito de profissão e o direito da população mundial de ter acesso a informações diferentes?

Porta-voz Maria Zakharova: Quando nos dizem que “atentamos ou tentamos propagar a nossa influência destrutiva” a alguns valores do mundo ocidental, trata-se de valores.

A 31 de março, o Conselho Nacional dos Media Eletrónicos da Letónia bloqueou o acesso aos sites RT em russo, ntv.ru, rus24.ru e teledays.net, que transmitiam na Internet canais russos. Todos eles foram incluídos na “lista negra”, publicada no portal da entidade reguladora.

Não é nenhuma notícia para nós a atitude engajada e ilegal das autoridades dos países do Báltico para com os media russos. Porém, é o primeiro caso de proibição não somente da retransmissão do canal, mas do acesso à sua página na Internet desde a Letónia. Justifica-se esta decisão pela lei local Dos Media Eletrónicos, que proíbe a divulgação ilegal de transmissões cujos conteúdos “podem violar os direitos de autor, ter influência negativa e ser dirigidos contra a Letónia e os seus cidadãos”. É uma fake híbrida que foi inventada.

Claro que isso nada tem a ver com a situação real, isso não é outra coisa que um pretexto de continuar a política de erradicação de qualquer opinião diferente, inclusive da opinião russa. Com certeza, não somente os media russos serão alvejados. Em breve, outros países e outros media sentirão a mesma atitude.

Observamos a violação cínica dos princípios fundamentais da liberdade de opinião e do pluralismo nos media, e também o menosprezo pelos direitos da população russófona na Letónia, o que contradiz as obrigações políticas de Riga.

O rolo compressor da máquina estatal continua a censurar e a bloquear os media incômodos, que propagam o ponto de vista alternativo – e os recursos e os media russos e russófonos são os primeiros a ficar debaixo, junto com o direito dos próprios cidadãos de ter acesso ilimitado à informação.

Lembremos que em junho de 2020, a Letónia proibiu a transmissão de sete canais do grupo RT, alegando umas sanções da União Europeia contra o diretor-geral da agência Rossiya Segodnya, Dmitry Kiselev, que nada tem a ver com a RT.

Mais uma vez, apelamos às organizações internacionais e à comunidade dos direitos humanos a acompanhar isso com atenção especial, a reagir à política descaradamente repressiva da Letónia na área da liberdade de imprensa.

A senhora também disse “algo mais do que declarações”. Não são somente declarações, são também as nossas solicitações de caráter prático às organizações internacionais. Que mecanismo eficaz? Tem que compreender e dar-se conta absoluta disso. As medidas de proteção, dentro do nosso país. A senhora mencionou o bloqueio do serviço em língua árabe do canal RT no serviço de vídeos YouTube. Depois, desbloquearam. Tem garantia que não haverá um novo bloqueio? Nem a senhora, nem nós, ninguém tem esta garantia. Os gigantes norte-americanos da Internet fazem o que querem. Qual deve ser a resposta? Primeiro: proteção do próprio espaço da informação: quadro legal (que está a ser elaborado), a sua aplicação (porque acontece frequentemente que existe um quadro legal, mas não é aplicado). É, pois, a elaboração do quadro legal e a sua aplicação. Segundo: a criação das nossas próprias plataformas e recursos. Sim, eu compreendo bem: quando você já tem um êxito tão grande num hosting, numa rede social, quando se trata de centenas, de milhares de seguidores, assinantes e visualizações, é difícil abandonar isso. É arriscado mudar para uma nova plataforma e desenvolvê-la. Há uma nuance que sempre devemos ter em conta: pode ser-nos pouco cômodo mudarmos e desenvolvermos as nossas próprias plataformas novas, lembrando o bem obtido através das antigas. Mas sem ter plataformas próprias, arriscamos um dia perder tudo o que temos. E vai ser muito mais triste. Eu acho que estes problemas devem ser resolvidos nestas duas direções.

Pergunta: O nosso canal é acusado muitas vezes de intervir em várias eleições, inclusive de tentar alterar o modo de viver ou o modo de pensar naqueles países. Eu acho que tais tentativas existem na Rússia, inclusive a intervenção premeditada nos processos eleitorais. Neste ano, terão lugar as eleições à Duma de Estado da Federação da Rússia. Recentemente, aconteceu um evento interessante, quando foi dispersada a reunião Rússia Municipal, que atraiu uma atenção gigante da imprensa estrangeira e das estruturas oficiais. A senhora considera esta atenção dos parceiros ocidentais aos processos eleitorais na Rússia um meio de influenciar ou intervir diretamente nas nossas eleições?

Porta-voz Maria Zakharova: Vou lembrar que entre os coordenadores do fórum Rússia Municipal há representantes de organizações sem fins lucrativos cuja atividade é reconhecida na Rússia como “indesejável”. Tentaram organizar este evento público violando as normas sanitárias. Claro que a polícia teve que reagir. Vemos em vários lugares do mundo vigorar, às vezes, um verdadeiro mecanismo punitivo que persegue as pessoas por não estarem de acordo – não por violarem, mas por não estarem de acordo com as normas. Vemos como as manifestações são dispersadas nos Países Baixos e em outros países da UE. Eles ficam sempre preocupados pela situação na Rússia sem ver os seus problemas.

Vemo-nos forçados a constatar que o estilo e o conteúdo de tais publicações provam as tentativas de influenciar os processos que acontecem no nosso país. E não são singulares.

O que há é o exercício das normas estabelecidas pelas famosas “agitações”, que continham instruções de como fazer funcionar os “agentes de influência” na Rússia. Falo do relatório “Rússia. Roteiro 2030”, concebido em 2019 pelo centro de estudos em Washington Rússia Livre e também a obra recente do Conselho Atlântico. Estas “obras” são umas fantasias sonhadas por “peritos” de ânimos russófobos que ostentam a sua própria visão do “futuro da Rússia” e das tentativas da sua aproximação.

Semelhantes reportagens materializam-se por encargo e segundo um esquema definido. Infelizmente, as pessoas que as preparam fazem-se passar por jornalistas. É um “vício” frequente entre os jornalistas norte-americanos. Não é o único elemento de intervenção nos nossos assuntos internos. Vamos lutar contra isso, defendendo o nosso espaço informativo.

Pergunta: O MNE da Rússia planeia encaminhar uma nota formal às instituições internacionais em virtude da catástrofe humanitária latente na fronteira sul dos EUA, que teria uma dimensão internacional e deve interessar os defensores dos direitos humanos não somente nos EUA, mas no mundo inteiro?

Porta-voz Maria Zakharova: É um desastre humanitário. Imagine: 18 mil menores de idade (só falo dos menores de idade). Enquanto jornalista que faz cobertura inclusive destes assuntos, a senhora pode imaginar a escala.

Quanto à nota. Primeiro, nem sempre as notas formais são necessárias para fazer as organizações internacionais receberem o impulso. As organizações internacionais não podem desconhecer esta situação. É impossível. Não é um ponto mais distante do mundo, pouco frequentado e que carece de meios de comunicação. É a fronteira entre os EUA e o México. Segundo, este problema recebe ampla cobertura por parte dos jornalistas. Terceiro, o MNE da Rússia publicou hoje a sua declaração oficial a este respeito. Tudo isso vem complementar o trabalho que as estruturas internacionais devem cumprir, de acordo com o seu mandato. Existem normas de monitoramento de situações semelhantes e o enfoque que a elas tem sido dado. 18 mil menores de idade e as condições em que estão é um assunto grave para a comunidade internacional e as organizações internacionais especializadas.

Há um outro aspeto. Sabemos bem que os representantes e os diplomatas dos EUA vão percorrer as portas dos fundos das organizações internacionais, a apertar todos os botões na tentativa de bloquear qualquer crítica e desejo de tratar dos direitos humanos nos EUA por parte dos relatores internacionais, representantes, instituições de exame. Por isso deve-se fazer tudo neste contexto para que os Estados Unidos recebam um sinal dos seus parceiros mais próximos, dos seus aliados para deixar de ocultar os seus próprios problemas. Sabe, o início da solução do problema é reconhecê-lo. Por isso, deve-se reconhecê-lo, permitir que as estruturas internacionais (organizações estatais e não estatais) adiram ao processo, usando a experiência acumulada em anos. Fazem conferências internacionais sobre a Síria, tentam compreender, em fóruns internacionais, o que fazer com a Líbia. Organizam conferências sobre os direitos humanos em outros países.

Não acho que os EUA aceitem organizar uma conferência internacional sobre os seus acontecimentos internos, mas acho que são capazes de aceitar a ajuda de outros.

Pergunta: Depois de um dos Ministros dos Negócios Estrangeiros da UE ter declarado que a vacina Sputnik V era uma “arma” russa de guerra híbrida, o Presidente de outro país europeu alegou que uma “guerra de novo tipo” estava a acontecer, relacionada (a seu ver) com as tentativas da Rússia e da China de “influenciar” por meio das vacinas contra o coronavírus.

Porém, os factos mostram que a Rússia luta bem contra o vírus e a pandemia está a retroceder na Rússia, e na Europa, pelo contrário, a avançar.

Parece óbvio ser necessário fomentar o uso da experiência positiva da Rússia e abrir o caminho ao remédio eficaz. Em vez disso, o Titanic europeu não se ocupa de salvação, mas se preocupa pela proveniência das embarcações de salvação e pela procura de obstáculos que impeçam a salvação. Anunciaram que a liderança da Rússia e da China na criação de vacinas contra o vírus não era um meio de proteção, mas uma arma na nova guerra. É o mesmo que afirmar que um a máscara antigás seria uma arma de agressão.

Aliás, no passado, durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Alemanha foi a primeira a usar gases de combate, usavam-se na Europa as máscaras antigás inventadas na Rússia. Porque então, o objetivo era proteger as pessoas.

Hoje, ao criar empecilhos e ao desacreditar a vacina russa, o Ocidente priva a sua população da proteção da maior ameaça. Resulta que a tarefa do Ocidente não é proteção da população, mas outra? E a Rússia é quem impede?

Por isso, uma gentil tentativa da Rússia de ajudar vem a ser percebida como uma interferência do “Ivan, o simples”, que tenta destruir todos os planos devastadores criados pelo Ocidente?

Será que vale a pena dirigir-se imediatamente aos povos da Europa, porque se trata da salvação de um grande número de pessoas? Uma nota direta sobre as vacinas russas poderia explicar muitos problemas que o Ocidente deturpa, culpando deles a Rússia. A Rússia está pronta para ajudar as pessoas do planeta, independentemente das suas preferências políticas e outras. Estamos juntos num navio gigante e só podemos vencer o vírus perigoso juntos.

Falava-se antes, bem assim: “a agência TASS tem a honra de declarar”. Será que hoje “o MNE tem a honra de declarar”? De dizer a verdade aos povos, em voz alta. O que a senhora pensa disso?

Porta-voz Maria Zakharova: Estamos a tratar disso. Em particular, com as nossas briefings, com as numerosas publicações, com as nossas intervenções em diversos eventos (falo da administração do Ministério dos Negócios Estrangeiros, dos nossos Embaixadores, dos diplomatas). O Departamento de Informação e Imprensa também faz a sua modesta contribuição.

Vou comentar ponto por ponto. O senhor mencionou as declarações que alguns funcionários ocidentais fizeram sobre a vacina. Infelizmente, muitos (até no nosso país) acreditam que estejamos a exagerar, pois não pode ser que os homens de Estado ocidentais, tão bem formados, estejam a praticar um obscurantismo do tamanho da negação da existência da vacina russa, a questionar a sua existência e as suas capacidades e a acusar a Rússia de conduzir uma guerra da vacina. E isso é feito tanto em relação à Rússia, quanto em relação à China.

Vamos comentar hoje as declarações dos chefes de estruturas da UE e de alguns dos líderes da UE a este respeito. Para se compreender quão descaradamente – não obstante as suas próprias “orientações” e as “orientações” às quais apelam os outros – os “capitães” do mundo ocidental usam propaganda, concorrência desleal e conjuntura política. Vou sublinhar mais uma vez: estas declarações fazem-se numa situação em que o mundo precisa de consolidação, união e esforços conjuntos para resolver o problema atual ligado à saúde e à vida da população do planeta.

Eis o que o Presidente da França, Emmanuel Macron, disse a 26 de março deste ano. Seria até normal ele ter dito isso a 26 de março de 2020. Sim, é estranho, é incompreensível, mas então podia-se aceitar isso. Mas a 26 de março de 2021, tais declarações parecem selvagens. Ele disse: “A Europa é o único continente a exportar vacinas. É o único continente do mundo livre, que tem uma estratégia e uma diplomacia reais na questão das vacinas”. Tratando-se da Europa que é a única a ter uma estratégia real na questão das vacinas – nós vemos como estão a realizá-la no âmbito da UE. A vacinação está a fracassar, e não somos nós a falar disso. Só citamos os seus cidadãos, os seus media, os seus médicos, os seus órgãos estatais e os seus peritos.

Ele adianta dizendo: “É preciso ter uma compreensão clara que nos deparamos com uma guerra mundial de um novo tipo, com ataques e tentativas de desestabilização por parte da Rússia, da China, tentativas essas de influenciar através das vacinas”. Nós estamos longe de querer influenciar alguém através das vacinas. É o senhor que pensava que não tínhamos vacina, pois não insistimos. Como se fosse pouco, os “agentes de influência”, patrocinados inclusive do bolso dos países ocidentais e sustentados imediatamente por Bruxelas, insistiam, há um meio-ano, que a Rússia não tivesse vacina alguma. Percebemos isso. No seu conceito, que o senhor Presidente impõe inclusive aos nossos cidadãos, não existe nenhuma vacina russa. E se não há vacina, de que guerra da vacina está a falar?

Determine-se por favor: ou há vacina ou há o uso das vacinas russas com fins errados. A resposta é evidente: há a vacina, e não é a única. E funciona. Mais do que isso: nós nunca ocultámos a existência da vacina, nunca tentámos monopolizar tudo o que diz respeito às descobertas russas na área da vacina e da sua produção.

Sendo o primeiro país a criar uma vacina, não tardámos a propor ao mundo interação igualitária e mutuamente vantajosa em todo um leque de áreas referentes à vacina. É um estudo conjunto, a troca de experiências, a produção conjunta e, claro, vários projetos comerciais nos marcos da legalidade.

Outra coisa é que vocês não ouviram. Mas isso é frequente na União Europeia. Como sabemos, a UE guia-se em muitos assuntos pelo seu “irmão maior” do outro lado do oceano. Foi assim em 2015, quando não ouviram o apelo da Rússia de unir os esforços no combate ao “Estado Islâmico”. Alguns riram-se, alguns tornaram-nos as costas, alguns puseram-se a gritar. Vocês cometem um só erro: negam a realidade, tentam impor a sua agenda alegando valores que ou inexistem ou deturparam. E em muitos casos, nesta etapa, até não de impor uma agenda, mas dissimular a sua própria incapacidade de lidar com os problemas contemporâneos.

O Ministro dos Negócios Estrangeiros da França, Jean-Yves Le Drian, fez uma declaração que choca: “A vacina Sputnik V é usada mais para a propaganda e para a diplomacia agressiva do que para a ajuda médica e para a solidariedade”. De que o senhor fala? Há pontos de vacinação abertos no país. Nós produzimos a vacina juntamente com os países que manifestaram a vontade de produção conjunta, de estudo e de uso desta vacina. A França ora manifesta, ora não manifesta este desejo. Portanto, não adianta falar em propaganda e diplomacia agressivas, se foram vocês quem não atuaram a tempo, não quiseram, não puderam aderir à cooperação.

O Alto Representante da UE para Negócios Estrangeiros e Política de Segurança, Josep Borrell, disse, a 29 de dezembro de 2020: “Obviamente, semelhantes tramas visam países em que a Rússia quer vender a sua própria vacina, a Sputnik V. Nas condições da pandemia, qualquer tentativa de semear dúvidas tão infundadas ameaçam a saúde pública. Organizações terroristas, como o Daesh, também aproveitam a confusão na situação do coronavírus para divulgar a sua propaganda”. Uma declaração incrível. É uma fake, e a UE luta contra fakes a criar novas estruturas para combater a alegada desinformação russa.

O Comissário Europeu para Assuntos do Mercado Interno da UE, Thierry Breton: “Não precisamos da Sputnik V. Sem dúvida, temos a capacidade de fornecer 300-350 milhões de doses até o final de junho, então, poderemos alcançar até 14 de julho… há problemas na Rússia com a produção do remédio e os cidadãos do país têm dificuldades de acesso a este. A UE pode ajudar a Rússia na produção da vacina, sempre priorizando as necessidades dos nossos cidadãos”. Mas isso é um delírio. Em vez de sugerir-nos ajuda na produção da vacina, a União Europeia faria bem ao prestar atenção aos seus próprios problemas com a vacinação. Já montaram muita briga pelas turmas da vacina, não podem harmonizar as restrições internas com a vacinação e com os interesses da população e do negócio. Estão a cada vez mais “afundados” na incapacidade de lidar com os seus próprios problemas e prosseguem acusando a Rússia, alegando factos que não existem.

A chefe da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen afirma: “Seguimos sem compreender porque a Rússia propõe, em teoria, milhões e milhões de doses, se o progresso na vacinação a sua própria população ainda não é suficiente”. Nós propomos interação na produção de milhões e milhões de doses. Quer interagir, interaja, não quer, não interaja.

A Áustria está a considerar. Muitos países da América Latina, do continente africano, do Médio Oriente já compreenderam há muito.

O Presidente do Conselho Europeu, Charles Michel: “Não devemos permitir que nos enganem a Rússia e a China, cujos regimes defendem valores muito menos desejáveis do que os nossos, ao organizar operações de fornecimento de vacinas para outros países, fornecimentos muito limitados mais amplamente politizados”. Vejam só: quando se deparam com problemas, começam a defender alguns valores. Que operações de fornecimento de vacinas? Solicitam-nos governos e organizações comerciais. Não são as nossas Embaixadas a percorrer as estruturas de governos de outros Estados, sugerindo insistentemente remédios de qualidade medíocre, como muitos outros fazem. As nossas Embaixadas recebem regularmente propostas de ampliar os potenciais de cooperação, ora na produção, ora na compra das vacinas. De que se trata?

A Presidente da Agência Europeia de Medicamentos (EMA), representante da Agência Austríaca da Saúde, Christa Wirthumer-Hoche, chamou a nossa vacinação de “roleta russa”. É puro obscurantismo. Tenho vergonha da UE e do Ocidente.

Nem vou falar da Presidente da Estónia, Kersti Kaljulaid, tudo está claro lá.

A Primeira-Ministra da Lituânia, Ingrida Šimonytė salienta: “Dizem que a Sputnik V é boa, mas Putin não quer usá-la como um remédio para o povo russo, mas a oferece ao mundo como mais uma arma híbrida”. A declaração é de 5 de fevereiro. Uma sugestão à senhora Primeira-Ministra da Lituânia. Pegue no telefone, ligue para o seu Embaixador na Rússia, diga para ele que tome o seu telemóvel e vá fotografar a vacinação aqui na Rússia. Há pontos de vacinação, há policlínicas, há pontos de vacinação móveis. De que a senhora fala? Ou será que os seus Embaixadores semeiam desinformação? Isso também pode acontecer. E a senhora desliga os nossos canais, bloqueia os nossos sites. Parece que a informação vem através dos media ocidentais (e sabemos o seu modo de trabalhar) ou através das suas Embaixadas. Será que as suas Embaixadas optam pelo caminho errado?

A secretária de imprensa da Casa Branca dos EUA, Jen Psaki: “Claro que acompanhávamos as tentativas de outros países, da China e da Rússia, de usarem as vacinas como um meio de obter êxitos a nível diplomático”. À diferença de outros, usamos as vacinas como um meio de vacinar, e de nenhum modo diferente. Se houver um outro meio, que o Departamento de Estado conte. Nós só temos vacina para vacinar, dou palavra.

Eu não podia ficar calada e deixar de citar, porque tudo isso é digno de saber. Ao reunir todas estas declarações, compreende-se que, primeiro, tudo isso é escrito num centro de planeamento estratégico informacional no seio da NATO. Segundo, tudo isso é espalhado como numa lista postal. Terceiro, acho que até se verifica depois se um líder, um representante oficial disse tudo correto. Depois, por meio das comunicações estratégicas da UE e da NATO, tudo isso vai para os media deles, depois, já em forma de perguntas, volta ao nível oficial. E esse “absurdo” informativo fica assim a circular para ocupar o espaço inteiro, para criar o sentimento de alguma nova guerra híbrida de tipo inovador em torno das vacinas, das ações agressivas da Rússia, da inexistência da nossa vacina ou da sua existência, mas enquanto um elemento de agressão. É fenomenal.

Esperamos que as autoridades da União Europeia percebam integralmente a responsabilidade pelas vidas e pela saúde dos cidadãos da UE nas condições da pandemia do coronavírus. E que ser afasta de semelhantes declarações inaceitáveis, falsas e indecentes.

Notamos que mesmo com as capacidades de produção temporariamente limitadas, observadas atualmente por todos os produtores dos remédios contra a Covid, a Rússia, aso contrário dos seus parceiros ocidentais, não somente evita o “nacionalismo da vacina”, o que é que estamos a ver na UE, mas tenciona garantir o acesso ao remédio russo a todos os representantes que manifestem este desejo e este interesse, em todas as regiões do mundo. Não impomos nada a ninguém. Não forçamos ninguém a nada, mas estamos abertos à interação. Estamos prontos para fornecer a todos os Estados interessados, sem discriminação e com transparência, as vacinas altamente eficazes e seguras elaboradas pelo nosso país.

Gostaria de voltar a apelar aos nossos colegas das entidades da política externa e das organizações internacionais a deixarem de dissimular a incapacidade de resolver os seus problemas internos pelas ações agressivas da Rússia. Parem de usar mentiras, fakes para explicar aos seus próprios cidadãos a sua incapacidade de lidar com este mal comum para todos, todo o leque de meios e métodos inaceitáveis da propaganda e desinformação, a pressão política e a influência para evitar de algum modo a responsabilidade pelo fracasso em muitas áreas.

Estamos convencidos de que a pandemia do coronavírus e as suas consequências negativas não podem ser superadas sem que haja a união dos esforços de todos os membros da comunidade mundial. Dizíamos muitas vezes que a prioridade chave é a imunização da população do planeta, que está a ser gradualmente reconhecida como o bem comum global. Não é a opinião só dos nossos especialistas, mas é a opinião baseada na análise das organizações internacionais que trabalham na área da saúde e dos peritos mundiais.

Vemos – e isso é sumamente importante – que as pessoas, não obstante a desinformação imposta em muitos países, pedem aos seus governos e dirigem-se diretamente à Rússia pedindo fornecer a vacina russa, em particular a Sputnik V, estabelecer as relações necessárias para a produção ou para o fornecimento desta vacina. A população da União Europeia não gosta de declarações dos burocratas de Bruxelas no sentido de politizar tudo o que à vacina diz respeito, adiar o fornecimento das vacinas.

E a cada vez mais pessoas no estrangeiro – vejo isso nas publicações na Internet e nos media (fora os países que já aprovaram a Sputnik V) – exigem das suas autoridades conceder-lhes a liberdade de escolha, exigem tornar acessível inclusive a vacina russa e, o mais importante, parar de politizar este assunto.

Li uma frase muito boa num destes artigos. Era assim: “A ciência de verdade não pode ter fronteiras nacionais. E quando é usada com fins pacíficos, para o bem, não deve haver fronteiras, especialmente fronteiras artificiais”.

Pergunta: Como a senhora comenta a declaração dos representantes dos EUA a alegar que é impossível retirar as forças do Afeganistão até 1 de maio, como foi combinado nas negociações em Doha?

Porta-voz Maria Zakharova: Sei que o assunto é muito grave e complexo, já que a vida dos cidadãos está em causa, mas já é impossível não ironizar, porque, quando o senhor falou da promessa dos EUA de retirar as forças do Afeganistão até o 1 de maio, queria perguntar: de que ano? Por isso não havia um ano sem que eles não anunciassem a retirada das tropas. Ou seja, a cada ano obrigações são assumidas, promessas são feitas, planos são divulgados. Por mais uma vez, ouvimos a declaração de que isso seria feito até 1 de maio do ano corrente.

Acreditamos que as alegações às dificuldades técnicas que impossibilitem a retirada definitiva do contingente norte-americano no Afeganistão até 1 de maio deste ano só são uma astúcia. Os EUA e o Movimento Talibã combinaram os prazos desta retirada há mais de um ano. Todos compreendemos que havia bastante tempo para fazer todos os preparativos. Acreditamos que o verdadeiro motivo do prolongamento da retirada das tropas dos EUA do Afeganistão seja o receio pelas autoridades atuais da República Islâmica, que, como os próprios norte-americanos confessavam, continuam incapazes de resolver tarefas de segurança por conta própria, apesar dos 20 anos de assistência técnico-militar ativa por parte da NATO. Assim, o comandante das forças de operações especiais dos EUA, general Richard Clarke, interveio recentemente no Comité das Forças Armadas do Senado dos EUA a sublinhar a dependência crítica das forças nacionais de segurança afegãs da ajuda militar estrangeira.

Esperamos que Washington permaneça leal às cláusulas do tratado de paz celebrado com o Movimento Talibã no ano passado, em que prazos concretos são previstos para a retirada das tropas.

Gostaria também de indicar que ontem, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Serguei Lavrov, respondeu a uma pergunta sobre este assunto no decurso da sessão do clube Valdai. Cito: “A presença dos EUA (trata-se do Afeganistão), que acabam de declarar, vai ser prolongada para a eternidade, pelo menos não há um prazo previsto, o que nem é notícia. Os norte-americanos são dono da sua palavra: deram a palavra, retiraram a palavra. Primeiro, anunciaram a retirada das tropas do Afeganistão, e depois mudaram de decisão. Querem permanecer também na Síria. Exploram os hidrocarbonetos, vendem cereais produzidos lá e pagam com este dinheiro, com o dinheiro do povo sírio, as ações separatistas de algumas organizações curdas, bloqueiam o diálogo entre os curdos e Damasco, fazem de tudo para que tal diálogo fracasse e declaram ao mesmo tempo que o ‘Estado Islâmico’ está a ressuscitar nos territórios da República Árabe Síria não controlados pelo governo de Bashar Assad. É um ‘reino dos espelhos tortos’”. Ele falou da Síria e do Afeganistão em conjunto, mas o senhor compreende a ideia principal.

Pergunta: Qual é a posição da Rússia a respeito da proposta do Presidente do Afeganistão, Ashraf Ghani, sobre a reconciliação nacional por meio das eleições antecipadas controladas pela comunidade internacional?

Porta-voz Maria Zakharova: Consideramos que esta pergunta deve ser feita ao Movimento Talibã. Nós partimos do princípio do processo de paz gerido pelos afegãos e a eles pertencente. Nós ficaremos contentes com qualquer solução que seja aceitável para ambas as partes em conflito. Sabemos que os talibãs refutaram a iniciativa de Cabul, dizendo que as eleições semelhantes, organizadas no passado pelas autoridades da República Islâmica do Afeganistão, eram acompanhadas de escândalos e colocaram o país à beira da crise.

Pergunta: O que a Rússia espera das negociações sobre o Afeganistão em formato de Istambul? Quem vai representá-la?

Porta-voz Maria Zakharova: Acho que ainda é cedo falar am algum “formato” novo. De acordo com as nossas informações, trata-se de um evento singular em apoio das negociações em Doha, com a participação de um círculo determinado de parceiros regionais e internacionais do Afeganistão, e também das delegações de Cabul e do Movimento Talibã de alto nível.

Saudamos todas as iniciativas que favoreçam a paz no Afeganistão, porém ainda estão pouco claras as propostas da parte turca, inclusive os prazos, o círculo dos convidados, o formato de participação e outras questões. A parte russa estará pronta para definir a sua representação no evento quando receber as respetivas informações sobre o evento em questão.


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