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Ministro Serguei Lavrov concede entrevista às emissoras de rádio "Sputnik", "Komsomolskaya Pravda" e "Fala Moscovo" Moscovo, 14 de outubro de 2020

1735-14-10-2020

Pergunta: Boa tarde, senhor Ministro. Não vamos apertar as mãos, afinal, o coronavírus, estamos a observar tudo o que podemos, embora estejamos sem máscaras. Fomos avisados que o senhor tem pouco tempo, porque os italianos estão à sua espera, por isso não vamos interrompê-lo para que o senhor possa responder a todas as nossas perguntas em benefício dos nossos ouvintes.

Quando nos estávamos a preparar-nos para esta entrevista, dissemos uns aos outros, meio a brincar, embora esta fosse uma brincadeira triste, que, antes de o ministro entrar, tínhamos de dar uma olhada rápida às redes sociais para saber se não havia uma nova guerra. Este ano, tudo acontece de repente. Pensámos que não seria bom se uma guerra começasse havia cinco minutos e nós não lhes perguntássemos sobre isso.

Uma nova guerra não começou, mas uma outra, quase recente, está em curso, apesar do cessar-fogo alcançado graças, inclusive, aos seus esforços titânicos (é verdade que o senhor não fumou durante aquelas 11 horas, não imagino como aguentou?), na realidade, não há nenhum cessar-fogo. Quero perguntar, o cessar-fogo é mesmo possível? Nós, a Rússia, dizemos que não há alternativa à solução pacífica. O cessar-fogo será possível? Alguma das partes beligerantes vai parar?

Ministro Serguei Lavrov: É verdade, as negociações foram inéditas.

Gostaria de assinalar que, num momento crucial, o Presidente russo, Vladimir Putin, deu a sua contribuição, porque ele controlava as nossas "vigílias noturnas". Na noite dentro, conversámos duas vezes. 

Pergunta: Ele telefonou ou entrou?

Ministro Serguei Lavrov: Telefonou. O Ministro da Defesa russo, Serguei Shoigu, também participou, porque era importante acordar a tese de que declarar o cessar-fogo não seria suficiente se não houvesse um mecanismo de controlo. O segundo item do documento acordado estipula exatamente isso. 

Durante os últimos dias tive vários contactos com os meus colegas de Baku e de Erevan. O ministro Serguei Shoigu fez o mesmo: contactou os Ministros da Defesa dos dois países. Vladimir Putin falou com os líderes das partes em conflito. A nossa principal mensagem é que, mesmo assim, é mister organizar encontros entre os militares e acordar um mecanismo de controlo do cessar-fogo mencionado no documento que ainda ninguém sequer começou a discutir. 

Reiterei esta mensagem há apenas meia hora, quando recebi uma chamada do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Azerbaijão, Djeyhun Bayramov. Enviamos este mesmo sinal aos nossos colegas arménios. Penso que esta é uma chave para a suspensão temporária dos bombardeamentos dos quais sofrem instalações civis e pessoas inocentes. 

Pergunta: De que tipo de mecanismo mágico de controlo do cessar-fogo se trata? Trata-se de uma zona de exclusão aérea?

Ministro Serguei Lavrov: Em qualquer conflito, quando políticos e diplomatas anunciam um cessar-fogo, os militares acordam imediatamente os passos concretos a serem dados "in loco" para implantar a medida anunciada e indicam os responsáveis para monitorizar objetivamente como as partes observam o cessar-fogo anunciado. Este mecanismo não é algo "mágico" e já foi aplicado na Transnístria e, a propósito, em Donbass, onde, houve vários períodos de cessar-fogo e apenas o último é mais ou menos observado, e isso porque o Grupo de Contacto para a Resolução da Situação na Ucrânia elaborou medidas para a verificação do regime de cessar-fogo. Este mecanismo havia sido aplicado em Nagorno-Karabakh em 1994, quando o acordo de cessar-fogo foi acompanhado pelas medidas acordadas e tomadas pelos militares localmente. 

Quanto à segunda parte da sua pergunta, uma solução política é possível. As propostas que os Co-Presidentes do Grupo de Minsk da OSCE elaboraram e continuam a elaborar permanecem em cima da mesa das negociações. O seu conteúdo já é conhecido: é uma libertação gradual e faseada das regiões à volta de Nagorno-Karabakh. Ao mesmo tempo, trata-se de garantir a sua segurança e a sua ligação confiável à Arménia até que o seu estatuto seja determinado definitivamente. Este esquema é bem conhecido. Penso que, como se costuma dizer: se não fosse pela má sorte, eu não teria sorte alguma, estes eventos tristes devem ajudar a estimular o processo político em paralelo com a solução das questões da segurança "in loco". 

Pergunta: Ao referir-se à ligação confiável à Arménia, o senhor tem em vista dois distritos: o corredor de Lachin, o esquema "cinco - dois"? 

Ministro Serguei Lavrov: Todos os acordos discutidos recentemente e levados a sério pelas partes previram a libertação de cinco distritos na primeira fase, deixando os restantes dois distritos para a segunda fase. A questão do estatuto de Nagorno-Karabakh também seria adiada para a segunda fase. Para além da libertação dos cinco distritos, a primeira fase preveria o desbloqueio de todas as comunicações, relações económicas, contactos de transporte e a instalação de uma força de paz para garantir a não-retomada das hostilidades.

Pergunta: Isto é, uma força de paz é o mecanismo do qual acaba de falar?

Ministro Serguei Lavrov: Não, este mecanismo deve agora entrar em ação na linha de contacto real. Não são os cinco distritos que devem ser entregues na primeira fase, de acordo com as propostas dos Co-Presidentes. Neste momento, seria suficiente colocar observadores militares e não necessariamente uma força de paz. 

Pergunta: Nossos?

Ministro Serguei Lavrov: Pensamos que seria absolutamente correto se os observadores militares fossem nossos. Todavia, a palavra final deve pertencer às partes. Entendemos que Erevan e Baku tomarão em consideração as nossas relações de aliados e de parceria estratégica. 

Pergunta: Senhor Ministro, se chamarmos as coisas pelos seus nomes, a atual guerra em Nagorno-Karabakh foi inspirada pela Turquia. Em geral, temos tropeçado regularmente na Turquia: na Líbia, na Síria, onde a Turquia deixa de ser o nosso aliado, tornando-se no nosso adversário militar. Ao mesmo tempo, não nos cansamos de afirmar que a Turquia é o nosso aliado estratégico. O que será agora, à luz dos acontecimentos atuais? Onde estamos nós, onde está a Turquia? Quem somos um em relação ao outro?

Ministro Serguei Lavrov: Nunca qualificámos a Turquia como nosso aliado estratégico. É um parceiro, muito próximo. Em muitas vertentes, esta parceria é estratégica. 

É verdade, trabalhamos na Síria, tentando ajudar a resolver a crise líbia. A Turquia também procura promover os seus interesses nesta região. O principal é que isto é absolutamente legítimo e que os interesses sejam legítimos, quer se trate da Turquia, Irão, EAU ou do Qatar. Muitos países têm os seus interesses nesta região, estendendo-os para além das suas fronteiras nacionais. O importante é que isto seja transparente. 

Quanto à Síria, acredito que, neste caso, a transparência e legitimidade foram garantidas, apesar de o pessoal militar turco estar presente no território sírio sem ser convidado pelas autoridades legítimas do país. O Presidente da Síria, Bashar al-Assad, e o seu Governo aceitaram e apoiaram a constituição do formato Astana, cooperando na concretização de todas as iniciativas avançadas pela "troika" de Astana. Neste sentido, a parceria entre a Rússia, a Turquia e o Irão é muito importante, tendo possibilitado reduzir os territórios governados por terroristas à zona de desescalada de Idlib.

Um tema à parte é a margem oriental do Eufrates; infelizmente, os americanos promovem ilegalmente e de forma oculta as ideias do separatismo nos territórios sob o seu controlo, encorajando os curdos a estabelecerem regras de residência e funcionamento diferentes das estabelecidas pelo governo central do país.

Na Líbia, também cooperamos com a Turquia. Diplomatas, militares e representantes dos serviços especiais dos lados reuniram-se várias vezes   para utilizar as potencialidades de cada um dos nossos lados. Estamos em contacto com todos: com o leste da Líbia, onde se encontra o parlamento, e oeste do país onde se encontra o Governo do Acordo Nacional (GNC). Os turcos, como vocês sabem, apoiam o GNC, compreendendo, contudo, ser necessário procurar compromissos entre todas as regiões, todas as forças políticas líbias. Neste momento, os processos políticos, ainda que bastante caóticos, estão a evoluir, tomando um rumo único. Isto diz respeito à Conferência de Berlim sobre a Líbia e às iniciativas propostas por Marrocos, Tunísia e Egito como países vizinhos, é absolutamente compreensível, apoiamo-lo. Agora é importante canalizar tudo isto sob os auspícios da ONU para um único esquema que se baseie na necessidade de encorajar todas as partes líbias a absterem-se de fazer ultimatos umas às outras, à semelhança do que aconteceu recentemente entre Tobruk e Tripoli, a sentarem-se à mesa de negociações.

Os nossos colegas das Nações Unidas procuram levar a um denominador comum todos estes esforços. Estamos a ajudar este processo de forma dinâmica e intensa. Ouvi dizer que a Turquia também está interessada em que tais processos ganhem ímpeto. De qualquer maneira, a diplomacia implica não só ter em conta as posições de todas as partes do conflito de um país em crise, mas também os interesses dos Estados regionais que são legítimos e aceites pelas próprias partes em conflito.

Pergunta: O senhor falou da necessidade de ter-se em conta os interesses de todos os players. O senhor quer dizer que o interesse da Turquia em Nagorno-Karabakh é legitimado e que vamos tê-lo em conta?

Ministro Serguei Lavrov: Passo à questão de Nagorno-Karabakh. Não aceitamos a posição expressa pela Turquia e exposta várias vezes pelo Presidente do Azerbaijão, Ilkham Aliyev. Não há aqui nenhum segredo. Não podemos aceitar as declarações de que é aceitável resolver militarmente o conflito. Infelizmente, a Turquia aceitou-o e confirmou que iria apoiar todas e quaisquer medidas, inclusive militares, do Azerbaijão para a resolução do conflito. 

Estamos em contacto com os nossos colegas turcos. Durante esta crise, falei várias vezes com o Ministro dos Negócios Estrangeiros turco, Mevlut Çavusoglu. Defendemos o nosso ponto de vista: uma solução pacífica não só é possível, como é a única forma de garantir uma solução duradoura deste problema, porque o resto manterá o conflito em estado latente. Se não houver acordo político a longo prazo, um dia a solução alcançada militarmente revelar-se-á inconsistente e as hostilidades serão retomadas. 

Pergunta: O efeito de uma guerra adiada?

Ministro Serguei Lavrov: Sim, o que vemos, aliás, no caso do problema palestiniano.

Pergunta: Quase todo o mundo vê e é impossível não ver que o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, tem vindo a intensificar os seus esforços, fazendo o seu jogo no Médio Oriente, em particular na Líbia, Síria. Sem dúvida, ele encara esta região como zona dos seus interesses e fala disso sem rodeios. 

Em Chipre também faz o seu jogo. Voltou a escalar a situação na vertente grega. Eles estavam a um passo de distância de uma guerra com a Grécia. Acrescente a isso as suas declarações de que Jerusalém é também uma cidade otomana. É o que estão a fazer agora no Sul do Cáucaso. Durante o seu discurso de posse, o líder turco chamou à Turquia "Turquia Otomana". Na Turquia, ele foi apelidado de "novo sultão". Ele diz abertamente que quer recriar o Império Otomano, pelo que intensificou as suas atividades em toda as vertentes.  Da sua decisão sobre a Basílica de Santa Sofia nem falo. É um claro desvio da vontade de Kemal Atatürk. 

A Rússia fará algum ajustamento à sua política nesta vertente face às atividades desenvolvidas pelo líder turco e pela República da Turquia? 

Ministro Serguei Lavrov: Claro que devemos ter sempre presente a necessidade de ajustamentos. Todavia, a nossa política na vertente turca e outras deve basear-se na realidade e evitar a materialização do princípio "a guerra é a continuação da política". Esta é a minha profunda convicção. Embora existam certamente situações em que as armas devem deixar de ficar caladas, se você se torna alvo de uma agressão.

Pergunta: Nós costumamos dizer a este respeito: "Se não derem ouvidos a Lavrov, darão ouvidos a Shoigu".

Ministro Serguei Lavrov: Já vi uma T-shirt com esta inscrição. Sim, trata-se mais ou menos disso. 

No entanto, em primeiro lugar, quero expor a situação geral, quem, onde e como procura promover os seus interesses. Em todos os lugares onde, como você disse, a Turquia está a ser ativa, os países situados a 10 mil milhas e mais desta região também estão a ser ativos, sendo por vezes as suas atividades mais intensas do que as da Turquia. Há países que estão mais próximos, mas os EUA estão a desempenhar um papel muito ativo em todos estes locais. 

Na Síria, os americanos estão a minar todo o sentido da Resolução 2254 do Conselho de Segurança das Nações Unidas que reafirmou a integridade territorial da Síria e exigiu que esta seja respeitada. Eles criam estruturas quase estatais sem qualquer constrangimento, proibiram todos os países do mundo a comprar petróleo sírio e, ao mesmo tempo, permitiram a uma das suas empresas extrair ali petróleo e utilizar as receitas assim obtidas para reforçar as estruturas curdas que não devam obedecer a Damasco. A propósito, lá, na margem oriental do Eufrates, a Turquia também está a ser ativa para acabar com o terrorismo curdo, como acredita. As preocupações de Ancara sobre a segurança da sua fronteira com a Síria na margem oriental do Eufrates e na região de Idlib são pelo menos muito mais legítimas do que aquilo que Washington está a tentar fazer, ao fomentar as tendências separatistas na Síria. 

Os EUA estão a ser muito ativos na Líbia, a tentar "resolver" este conflito conforme os seus interesses, visando, entre outras coisas, enfraquecer a Turquia e, diga-se de passagem, a Federação da Rússia. Declaram-no abertamente. Naquela região o petróleo também tem um papel importante, porque a questão do regresso do petróleo líbio aos mercados mundiais, levantamento da moratória declarada pelo Comandante do Exército Nacional Líbio, Khalifa Haftar, é de grande importância política e prática, pois afeta diretamente os preços. 

Quanto ao problema palestiniano, a Jerusalém, à resolução do conflito árabe-israelita, ao estabelecimento de um Estado palestiniano, os EUA puseram quase todas as outras partes interessadas de lado, dizendo que iriam lidar sozinhos com esta questão. De acordo com a Iniciativa de Paz Árabe, em primeiro lugar, deveria ser criado um Estado palestiniano, a seguir, deveria começar o processo de normalização das relações de Israel com todos os seus vizinhos árabes. No entanto, os EUA viraram tudo de cabeça para baixo. Em primeiro lugar, eles querem que Israel normalize as suas relações com os seus vizinhos árabes e depois ver como será possível resolver o problema palestiniano e se será necessário resolvê-lo. Nós queremos que as relações de Israel com os seus vizinhos e com os outros países da região melhorem. Somos contra isso ser feito à custa dos interesses do povo palestiniano consagrados na resolução 181 da Assembleia Geral da ONU que proclamou a criação de um Estado judaico. Este Estado vai bem, sendo o nosso amigo e parceiro próximo. O Estado palestiniano não existe. Como diz o povo, o prometido pode ser esperado durante três anos, mas os três anos já se passaram

Numa situação em que a resolução do Conselho de Segurança da ONU de que o destino e o estatuto de Jerusalém como capital de três religiões monoteístas deveriam ser definidos com base nas posições das partes é declarada passada ao esquecimento e anulada, em que a questão do acesso à Mesquita Al-Aqsa, que deveria ser solucionada no quadro do acordo sobre o estatuto definitivo no contexto da criação de um Estado palestiniano, se submete novamente à revisão e acaba por ser cancelada, é provável continuarmos a ouvir declarações semelhantes dos líderes do mundo islâmico do qual o Presidente da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, faz parte. 

Um contexto ainda mais amplo: o mundo islâmico vive evidentemente uma luta pela liderança. Existem vários polos: Turquia, Arábia Saudita como líder e local dos dois maiores santuários islâmicos. Não devemos esquecer que, além de turcos e árabes, há paquistaneses e indonésios. A Indonésia é o maior Estado islâmico do mundo. Temos relações com a Liga de Estados Árabes, o Conselho de Cooperação dos Estados Árabes do Golfo (CCG), a Organização para a Cooperação Islâmica (OCI) que integra todas as nações islâmicas da Ásia, África, onde quer que estas se situem. Infelizmente, esta rivalidade e a competição pela liderança do mundo islâmico tem assumido ultimamente formas cada vez mais duras. Em contactos com os nossos colegas da OCI, exortamo-los a buscar posições comuns, um consenso, uma harmonia entre todas as correntes do Islão. Em 2004, o Rei Abdullah II da Jordânia acolheu a Cimeira de Todos os Muçulmanos que culminou com a adoção da "Declaração de Amã". O documento reafirmou a unidade de todos os muçulmanos e o compromisso de promove-lo em diversas situações práticas. Até agora não foi possível fazê-lo.

Quanto à Catedral de Santa Sofia, reconhecemos o direito da Turquia e das autoridades de Istambul de decidir sobre parâmetros específicos do seu uso de modo a ter sido levado em conta o seu estatuto de Património Mundial da UNESCO. Os debates no seio deste organismo internacional ainda estão em curso. Os nossos colegas turcos garantiram-nos que tudo o que tem relação com a cultura ortodoxa permanecerá aberto à visitação de turistas e peregrinos. Vejamos como isto será implementado na prática, uma vez que ainda não foram levadas à prática as respetivas medidas técnicas.

Quanto ao Cáucaso do Sul.  Vejam quem está a tentar ser ativo naquela região. Os americanos não estão a ser menos ativos ali. 

Pergunta: Os americanos dizem francamente que a zona dos seus interesses nacionais é o mundo inteiro, posicionando-se como um império. Os turcos nunca o disseram, agora estão neste caminho.

Ministro Serguei Lavrov: De novo vem essa história de Júpiter e de um boi? 

Pergunta: Precisamos de saber o que eles têm em mente. 

Ministro Serguei Lavrov: Pode ser que todos devam ser "bois"? De contrário, todos deveriam ser "Júpiteres"?

Pergunta: Deixe que eu cite a sua declaração: "Se a UE não compreender a necessidade de um diálogo mutuamente respeitoso com a Rússia, teremos de deixar de contactá-los". O que o senhor quis dizer com isso?

Ministro Serguei Lavrov: Não foi isso que eu disse. Eu disse que temos uma pergunta não tanto sobre se um "business as usual " é possível, como sobre se é possível, em princípio, fazer negócios com a União Europeia que olha com arrogância para a Rússia e exige que nos penitenciemos de todos os pecados que, na opinião da União Europeia, cometemos. Creio que não devemos prestar contas de nada. Temos a nossa própria Constituição, as nossas próprias leis e mecanismos.

Pergunta: A sua famosa frase dirigida ao ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, David Miliband, quando este nos aconselhou a alterar a Constituição da Rússia: "Quem é você para me ensinar?"

Vou continuar com a minha pergunta anterior. Como podemos não contactá-los? Podemos mesmo?  O que senhor quis dizer com isso?

Ministro Serguei Lavrov: Os interesses económicos devem manter-se, os agentes económicos devem decidir por si próprios o que é ou não é bom para eles. Considero indigno de nós correr pedindo. Se eles quiserem arruinar a nossa parceria económica, inclusive o projeto "Corrente do Norte – 2", acho que não conseguirão destruir toda a estrutura de transmissão de gás, nem a interação entre departamentos e empresas. Que isso siga o seu curso, a partir de interesses objetivos que coincidirão.

Dizem-nos que ainda não crescemos para sermos parceiro geopolítico da União Europeia, como declarou recentemente Ursula von der Leyen. O Ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, Heiko Maas, afirma que as divergências com a Rússia não significam que a Alemanha não queira ter relações boas ou, pelo menos, sensatas com o nosso país. É pouco provável que estas relações sejam boas num futuro previsível, mas a culpa não é nossa. Estamos sempre prontos a renová-las, a normalizá-las, a melhorá-las numa base de igualdade e de respeito mútuo. Tudo o que diz respeito a bom senso está infelizmente sujeito a uma análise do outro lado do nosso diálogo. Espero muito que o bom senso venha a prevalecer ali. Por enquanto, não vemos isso.

Quanto a correntes latentes e à formação de uma nova visão da Rússia na UE. Recentemente, os "think-tanks" próximos do Governo da Alemanha, analistas políticos encarregaram-se publicamente de elaborar uma nova "política para o Leste". Na verdade, sugerem desmantelar a agenda bilateral existente. Na sua opinião, tivemos parcerias de toda a espécie, uma "parceria estratégica", que agora pertence à história, uma "parceria para a modernização" que foi promovida por Frank-Walter Steinmeier enquanto Ministro dos Negócios Estrangeiros. Estes cientistas políticos acreditam que todos estes projetos não chegaram a ser materializados. A Rússia recusou-se a tornar-se correligionário da União Europeia e da NATO, não quis fazê-lo e acabou por se transformar num opositor em questões fundamentais da ordem mundial. É assim que dizem estes cientistas próximos do Governo alemão. Sugerem abandonar os planos estratégicos de parceria com a Rússia. Mais do que isso, se, até recentemente, a União Europeia declarou que, apesar de divergir estrategicamente da Rússia, precisava de cooperar seletivamente como nosso país em áreas de interesse comum, agora estes pensadores apontam como parte da sua teoria um paradigma tão especial que até uma cooperação seletiva só será possível quando "os russos mudarem o seu comportamento". Esta atitude está a amadurecer. Quando tais coisas surgem nos círculos dos analistas políticos, isso evidencia certamente mudanças nas tendências no seio da elite governante. Vamos ver como isto se refletirá na política prática. Infelizmente, por enquanto, a política dos líderes da UE, incluindo a França e a Alemanha, não inspira muito otimismo. Embora, na minha opinião, o governo de Paris esteja muito mais inclinado a manter relações estratégicas com a Rússia. Pelo menos, esta é a posição do Presidente francês, Emmanuel Macron, concretizada, no contexto dos seus acordos com o Presidente russo, Vladimir Putin, em toda uma série de mecanismos criados entre Moscovo e Paris para discutir e elaborar posições comuns em relação às questões da segurança e estabilidade estratégicas na Europa. Vejamos qual rumo tomarão esta situação e os pensamentos.

Ontem, falei com o Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros e a Política de Segurança, Josep Borrell. Penso que ele, como pessoa experiente, compreende muito bem que é muito difícil resolver muitas questões de interesse para a União Europeia sem a Rússia. Portanto, até o instinto de garantia dos próprios interesses deveria encorajar a Europa unida a estabelecer uma parceria e interação com a Rússia. Todavia, segundo as minhas estimativas e a julgar pela sua reação a algumas das minhas perguntas, a UE ainda não tem condições para vencer a minoria russófoba que, explorando grosseiramente o princípio do consenso e da solidariedade, bloqueia abordagens mais ou menos construtivas para com o desenvolvimento das relações com o nosso país.

Pergunta: A "minoria russófoba" são os países bálticos?

Ministro Serguei Lavrov: Os países bálticos, a Polónia.

Pergunta: "Os russos devem mudar o seu comportamento". Podemos mudá-lo de formas diferentes. Por exemplo, porque não abrimos um processo-crime sobre o caso Alexei Navalny? Porque é que a Chanceler da Alemanha, Angela Merkel, se encontra com Alexei Navalny, muitos líderes ocidentais se encontram com Svetlana Tikhanovskaya. Ao mesmo tempo, nós temos sido sempre cautelosos, estamos sempre na defensiva. O senhor não acha que vale a pena também começarmos a reunir-nos com representantes da oposição, pelo menos a nível do Ministério dos Negócios Estrangeiros, com os nossos "simpatizantes" nestes países? Somos muito cautelosos face a estas desenfreadas campanhas. 

Ministro Serguei Lavrov: Tentámos comportar-nos de forma decente, respeitando sempre as decisões relativas à escolha dos líderes, parlamentares, etc., tomadas nos países com os quais temos relações. Sim, vemos como os nossos colegas ocidentais se encontram sempre com representantes da oposição, e nem sempre se trata da oposição sistémica. Há vários anos, este tema foi especialmente discutido. Ficou decidido que iríamos trabalhar com a oposição. Nunca havíamos fugido antes a estes contactos, decidimos que irámos contactar com a oposição sem olhar para aqueles que tentaram criticar-nos. 

Pergunta:  Com quem vamos começar?

Ministro Serguei Lavrov: Durante a campanha eleitoral na França em 2017, Marine Le Pen, líder de um partido parlamentar, político legítimo e sistémico, veio a Moscovo a convite dos nossos parlamentares. Contactou com parlamentares e foi recebida pelo Presidente russo, Vladimir Putin. O então Ministro dos Negócios Estrangeiros da França, Jean-Marc Ayrault, declarou publicamente que esta era uma tentativa de interferir nos processos eleitorais do seu país e que Paris não queria interferir nos assuntos internos da Rússia e esperava que Moscovo também não interferisse nos assuntos internos da França. Você citou os nomes das pessoas com as quais Emmanuel Macron e Angela Merkel se encontram e como Svetlana Tikhanovskaya é recebida. Ninguém presta sequer atenção ao facto de isto ser uma interferência nos assuntos internos da Bielorrússia. 

Pergunta: Pode ser porque somos tão educados e cautelosos?

Ministro Serguei Lavrov: Agora não temos impedimentos para contactar com a oposição. Teremos contactos com todos, como, de facto, isso já acontece em alguns casos, menos aqueles que exortam ao derrube violento da ordem constitucional dos nossos parceiros.

Pergunta: Porque não abrimos um processo-crime sobre o caso Alexei Navalny? Passamos a usar como argumento o facto de não termos aberto um processo-crime sobre este episódio.

Ministro Serguei Lavrov: Já explicámos isso muitas vezes. Um processo penal pode ser iniciado quando houver motivos plausíveis para suspeitar da prática de um crime. A respetiva decisão é sempre precedida de um processo de verificação preliminar de informação. É o que o Ministério do Interior russo está a fazer agora. Os especialistas envolvidos neste processo entrevistaram mais de 200 pessoas, médicos, o pessoal do hotel, a tripulação do avião, etc. Não vou listar mais. As emissoras de TV divulgam tantos factos que comprovam a falta de coerência nos relatos e declarações sobre o assunto: uma garrafa; porque é que as pessoas correram para o quarto do hotel; porque usavam roupa interior e descalças, porque ninguém mais passou mal. Um monte de inconsistências. Insistiremos em que os nossos colegas alemães respeitem as suas obrigações internacionais decorrentes da Convenção Europeia de Auxílio Judiciário Mútuo em Matéria Penal, de 1959, e dos respetivos Protocolos.

Quanto à ação penal e à pergunta sobre quem e o que deve explicar. Alguns dos nossos representantes oficiais declararam recentemente que tínhamos informações de que a CIA trabalhava com Alexei Navalny. Logo a seguir, o advogado de Alexei Navalny exigiu que apresentássemos provas. Por nenhuma razão. Esta é a sua posição.

Já quando pedimos para provar a presença de elementos criminosos no incidente com Alexei Navalny, pedimos aos alemães que nos mostrem o que encontraram nos seus exames, eles perguntam porque não acreditamos neles. Dizem que não podem entregar-nos estes materiais porque o paciente deve dar o seu consentimento e ele não o faz.

Pergunta: Este é um princípio clássico de toda a política internacional nos últimos anos: todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais. 

O senhor mencionou a Alemanha e o projeto "Corrente do Norte-2". Uma pergunta especial: o que faremos se a Alemanha desistir do projeto "Corrente do Norte-2"?  Vou ampliar a minha pergunta. Quero há muito fazer esta pergunta e não só ao senhor. Façamos o que fizermos, recebemos sempre sanções. Há quem diga que isso não depende daquilo que fazemos, nem do nosso comportamento. Existe um conjunto de sanções que foi concebido há muito e será aplicado não tanto para nos obrigar a mudar o comportamento como para refrear o nosso desenvolvimento económico, militar, comercial. Haverá sempre motivos para impor sanções, seja um "caso Magnitski" ou outra coisa. Quantas pessoas morrem nos centros de detenção provisória dos EUA, nós não impomos sanções, tanto mais que não temos capacidade de impor contra eles sanções mais ou menos sensíveis. Uma vez que eles o fazem de qualquer maneira, o senhor não acha que não devemos prestar-lhes atenção e que devemos proteger de forma mais intensa os nossos interesses no mundo? O senhor não acha preferível decidirmos o que fazer com a integração e se queremos criar um Estado-União mais amplo? Não acha que devemos posicionar-nos de forma mais clara e agressiva, num bom sentido, uma vez que as sanções serão impostas contra nós de qualquer maneira? 

Ministro Serguei Lavrov: Foi exatamente o que eu disse. É tempo de pararmos, e já estamos a parar, de julgar-nos a nós próprios com base nas avaliações feitas a nosso respeito pelo Ocidente ou por alguns países ocidentais. Temos quem pode julgar as ações da Federação da Rússia como Estado. Temos uma Constituição, temos autoridades competentes, temos o povo russo que decide sobre quem deve governar o país. É isso mesmo. Se temos parceiros (eles são uma maioria esmagadora) dispostos a procurar um equilíbrio de interesses com base no respeito mútuo, então temos de continuar a nossa cooperação com eles. Repito, eles são uma maioria.

Sim, temos estruturas que criámos por iniciativa própria e que queremos reforçar. No domínio político-militar temos a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC). A CEI abrange questões da segurança no espaço pós-soviético, além de projetos económicos, sociais, humanitários e educacionais. Temos a Organização de Cooperação de Xangai (OCX), a Cooperação Económica Euroasiática (CEEA), Estado-União. Devemos reforçar estas estruturas. Penso que devemos fazê-lo de forma mais enérgica. O Presidente russo, Vladimir Putin, formulou as respetivas instruções. O Governo russo está a estudá-las. 

Evidentemente, devemos fazer os possíveis para tornar estes projetos mais atraentes para aqueles que fazem parte destas estruturas. Não acho que devamos dar sempre ouvidos àquilo que o Ocidente diz sobre nós. Concordo inteiramente consigo: o Ocidente não precisa buscar pretextos para conter o nosso desenvolvimento. Como já vimos, ele sabe inventá-los sozinho. 

Pergunta: O senhor não acha que devemos então agir de forma mais audaz? Por exemplo, colocar tropas em Donbass para repor a ordem na região? Qual é o problema, se as sanções forem impostas de qualquer maneira? 

Ministro Serguei Lavrov: Afinal, somos pessoas educadas, como sabe. Estou convencido de que a nossa posição de distanciamento daquilo que o Ocidente pensa de nós deve permanecer no quadro do direito internacional. Devemos continuar a ser fiéis aos acordos que foram alcançados com a nossa participação, inclusive os Acordos de Minsk, uma vez que mencionámos Donbass. 

Por outro lado, devemos exigir que aqueles que assinaram os acordos referentes à resolução de situações de crise cumpram as suas obrigações. Já enviei, talvez, uma dezena de cartas aos meus colegas da França e da Alemanha para chamar a sua atenção para as ações absolutamente inaceitáveis e diametralmente opostas aos Acordos de Minsk empreendidas por personalidades oficias da Ucrânia, inclusive o Presidente do país, Vladimir Zelensky, o chefe da delegação ucraniana  nas negociações do Grupo de Contacto, Leonid Kuchma, e o Ministro dos Negócios Estrangeiros, Dmitri Kuleba. As suas respostas foram ocas. Explico-lhes que Vladimir Zelensky declarou que é necessário rever o conteúdo e a sequência do documento de Minsk. Eles respondem-me: "Continuamos fiéis a este documento".  Dou um exemplo de como, em violação da Constituição da Ucrânia e das suas obrigações internacionais, a língua russa se submete à discriminação direta nas leis do idioma e da educação e na prática. Eles respondem-me: "Sim, vamos prestar atenção a esta situação no seio da OSCE e do Conselho da Europa". Esta é outra manifestação do facto de eles se considerarem acima da lei e da Federação da Rússia. A sensação de superioridade pessoal é muito perigosa.

Pergunta: Em alguns casos, este sentimento falta-nos.

Ministro Serguei Lavrov: Basta-nos um senso de autoestima, acho que é disso que devemos pensar.

Pergunta: Os ouvintes telefonam-nos a dizer que chega de manifestar preocupações com situações, a Rússia deve atuar de forma mais ativa e, talvez, mais agressiva ou iniciar, ela mesma, alguns processos, em vez de reagir às ações de alguém. 

Mencionamos Svetlana Tikhanovskaya. Ela viaja pelo mundo e reúne-se com presidentes de países. Está num dos países vizinhos da UE. O senhor acha que a Rússia está preparada, em princípio, para encarar o facto de que o poder pode mudar na Bielorrússia?  Temos alguma opção, além do Presidente Aleksandr Lukashenko? É frequente acontecer que não temos nenhuma opção nem sabemos o que fazer quando em um país ocorre a mudança do poder em resultado de uma revolução ou por outras razões. 

Ministro Serguei Lavrov: Penso que devemos certamente ver o cenário em todas as direções à volta da Federação da Rússia, especialmente nos países que são os nossos aliados mais próximos. Convivemos, durante muitos anos, séculos, num Estado. Mesmo assim, não devemos comportar-nos como os americanos, por exemplo. Não posso aceitá-lo. Os americanos comportam-se de forma grosseira, indelicada, tentando, contudo, ensinar os outros a respeitar o direito de cada nação de escolher por si própria o seu destino. Tentam promover este direito através das suas embaixadas, como ocorreu em Kiev durante as duas manifestações populares na praça central. Todos sabem muito bem onde se encontram representantes do FBI e da CIA nos prédios das embaixadas e qual é o seu número. A propósito, agora estão agora a fazer o mesmo na Moldávia. Podemos sabê-lo, inclusive, pelas declarações públicas do embaixador americano. Também promovem os seus interesses nas repúblicas transcaucasianas, também sabemos disso. 

Estou convencido de que não devemos agir desta forma. É necessário ver a perspetiva do desenvolvimento dos nossos aliados, os passos que nos permitem manter com eles relações boas e mutuamente vantajosas, independentemente da forma como os seus acontecimentos políticos internos se desenvolverem. 

No que diz respeito à Bielorrússia, estou convencido de que a nossa política de apoio ao processo de reforma constitucional, que, como mencionei agora, foi proposta pelo Presidente Aleksandr Lukashenko e que encarámos como (e falamos disso publicamente) como bom motivo para iniciar um diálogo nacional que abranja todas as forças políticas do país. 

Declarámos que reconhecemos os resultados das eleições presidenciais. Estamos convencidos de que todas as tentativas dos nossos parceiros ocidentais de contestá-los, de dizer que a percentagem de votos era menor e de exigir que aceitemos agora convidar a OSCE para a busca de soluções para esta situação não servem para nada.

Foram os nossos parceiros ocidentais e os parceiros ocidentais de Minsk que impediram que a OSCE atendesse ao pedido do Presidente da Bielorrússia, Aleksandr Lukashenko, para enviar observadores para ver como aquelas eleições presidenciais foram organizadas e como estavam a ser realizadas. Agora, depois de a OSCE ter perdido a oportunidade de contribuir para a evolução dos acontecimentos no interesse da Bielorrússia, é pelo menos incorreto dizer que só a OSCE é capaz de salvar a situação. 

O Presidente da Bielorrússia, Aleksandr Lukashenko, disse que não se agarra ao poder e que, após a reforma constitucional, se dispõe a considerar a hipótese de eleições presidenciais e parlamentares antecipadas. Se quisermos ajudar o povo bielorrusso a unir-se e a prosperar, temos, naturalmente, de coibir a prática de ultimatos de todos os lados e as tentativas de organizar protestos violentos, devemos instar os órgãos de segurança pública a orientarem-se pela lei e a reagirem de forma proporcional. Esta é a nossa posição. Declaramo-la várias vezes. 

Pergunta: Coibir os protestos? Eles saem para protestar todos os domingos.

Ministro Serguei Lavrov: Coibir os apelos à violência, ao corte de autoestradas de transporte. Estes apelos saem da boca de Svetlana Tikhanovskaya que se encontra atualmente em Vilnius. Eu digo "saem da boca", porque é bem provável que os textos destes apelos tenham sido redigidos por outras pessoas.

Quanto à sua afirmação de que não podemos apresentar iniciativas no nosso interesse. Isso não é verdade. Os Acordos de Minsk foram formulados em 2015 no interesse russo e apoiados pelo então Presidente da Ucrânia, Petr Poroshenko, bem como pelos líderes da Alemanha e da França. O que se diz agora na Ucrânia sobre a impossibilidade de implementar os Acordos de Minsk porque a Rússia quer que estes sejam concretizados na forma como a Rússia os vê não é verdade. A interpretação jurídica internacional aprovada pelo Conselho de Segurança da ONU e o facto de estes acordos refletirem a nossa atenção para com a garantia estável dos interesses do povo ucraniano, irritam agora aqueles que, na Ucrânia, compreendem que não estão preparados para ter em conta os interesses das regiões leste do país. 

Pergunta: Foram formulados no interesse da Rússia, só que não são respeitados. É por isso que, quando o senhor diz que devemos agir e defender os nossos interesses em conformidade com o direito internacional, quero sempre perguntar-lhe: este direito existe mesmo? Mas não vou fazê-la, porque esta pergunta é retórica. Nós, jornalistas, temos a sensação de que o direito internacional não existe mais e que só existe aquilo que acontece "in loco" e que vemos com os nossos próprios olhos. 

Vemos como a Bielorrússia quase rebentou, vemos como o Quirguizistão rebentou. Isto é o que está a acontecer agora. A questão de Nagorno-Karabakh já foi abordada. Os nossos colegas do "Sputnik" tanto na Moldávia como na Geórgia dizem: "Estamos a preparar-nos porque também vai ser horrível". Este epiteto "horrível" é um resultado do nosso confronto ali com os EUA e outras forças mencionadas? Ou é um resultado dos planos de sacudir o barco e provocar desordens perto das nossas fronteiras? Ou é uma consequência do caos interno destes países? O senhor não acha que devemos ser mais ativos para acabar com tudo isto?

Ministro Serguei Lavrov: Claro que as perturbações internas nestes países desempenham um papel significativo, e isto é óbvio. Não me debruçarei agora sobre isso. Todos os países que você mencionou têm problemas internos. Isso teve uma manifestação especialmente clara no Quirguistão e na Moldávia. Você disse numa das perguntas anteriores que fosse o que fosse que fizéssemos, o Ocidente iria esforçar-se por conter-nos, travar-nos e subverter as nossas potencialidades na economia, na política e na tecnologia. Estas são partes de um todo. 

Pergunta: A sua estratégia de segurança nacional diz que eles farão isso. 

Ministro Serguei Lavrov: Claro, todavia, as fórmulas que eles elaboraram para isso são tão especiais que podem passar despercebidas numa sociedade decente, mas a maneira como estas fórmulas são concretizadas na prática é de indignar.

Pergunta: O senhor também sabe formular as frases de uma forma diferente da como gostaria de dizer, certo?

Ministro Serguei Lavrov: Pelo contrário, posso formular as frases de uma forma diferente da como costumo dizer. É óbvio que eles têm o desejo de desequilibrar-nos por meio de ataques diretos à Federação da Rússia em todas as esferas possíveis e pensáveis, por meio de concorrência desleal, sanções ilegítimas e outros métodos semelhantes, de desequilibrar a situação à volta das nossas fronteiras, impedir que nos concentremos no trabalho criativo. No entanto, com todos os instintos humanos, com todas as tentações de responder de acordo com o princípio "é você que é burro", estou convencido de que devemos permanecer dentro dos limites do direito internacional.

Pergunta: O senhor é do "old-school".

Ministro Serguei Lavrov: Não sou do "old-school". Penso que isso é, de qualquer maneira, o futuro, e a humanidade não inventou nada mais fiável do que a Carta das Nações Unidas. Pelo menos, aquele que pode sempre explicar a sua posição pelas normas jurídicas internacionais universais assinadas por todos os países sem exceção aquando da adesão às Nações Unidas, tem a supremacia moral. 

Os Acordos de Minsk foram aprovados pelo Conselho de Segurança da ONU. Eles fazem parte do direito internacional. O processo de paz em Nagorno-Karabakh, o papel dos Co-Presidentes do Grupo de Minsk da OSCE, onde estamos na vanguarda, assumindo as posições de iniciativa, também foram fixados pelo Conselho de Segurança da ONU. 

Acabamos de dizer que há tentativas de expandir o número de mediadores. Em Moscovo, na Casa de Receções do Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde estamos agora, na madrugada de 10 de outubro, foi adotado um documento, cujo último item diz: o formato de negociações permanece inalterado. Agora isto também faz parte do direito internacional, uma vez que constitui um acordo entre as partes.

Do ponto de vista humano, por vezes apetece usar uma linguagem grosseira e expressar, de forma agressiva, a sua indignação com a conduta dos colegas, mas devo controlar-me.

Pergunta: Decifrando o que o senhor disse, acontece que temos de negociar com os EUA e não com a Moldávia. Faltam alguns meses para as eleições nos EUA. O senhor tem alguma previsão, esperança? Vê algum sinal? As coisas serão melhores ou piores depois das eleições? O que devemos esperar em geral?

Ministro Serguei Lavrov: O pragmatismo também faz parte do nosso conceito de política externa definido pelo Presidente russo, Vladimir Putin, e que pressupõe a promoção da cooperação com todos aqueles que estão prontos para isso com base na igualdade e nas áreas onde temos interesses comuns e cruzados. A propósito, os americanos e nós cooperamos entre nós bastante bem numa série de áreas concretas, apesar da situação irremediavelmente agravada em termos de atitudes conceptuais para com o desenvolvimento da cooperação. 

Na Síria, por exemplo, não aceitamos terminantemente que os americanos tenham chegado a este país sem terem sido convidados, ocupando, de facto, boa parte dele. Em segundo lugar, não aceitamos o que o que lá fazem na prática: roubam hidrocarbonetos, canalizam a receita assim obtida para o fomento do separatismo, etc. Mesmo assim, mantemos canais estáveis no plano militar. Esta é uma realidade: eles voam, nós voamos. Temos um acordo sobre os lugares onde cada uma das partes pode voar e como reagir em caso de incidentes imprevistos. Existe um mecanismo de aviso prévio.

Quanto ao diálogo político, mencionaria o Afeganistão, onde existe um mecanismo Rússia-EUA-China, ao qual o Paquistão se está a juntar e o Irão também pode juntar-se. Pelo menos, todos os participantes neste diálogo não têm contra-indicações a este respeito. Quanto à península coreana, também interagimos, embora pouco, nesta questão, apesar de assumirmos, às vezes, posições diametralmente opostas.

Pergunta: E na questão de Nagorno-Karabakh?

Ministro Serguei Lavrov: Sim, cooperamos na questão de Nagorno-  Karabakh e podemos cooperar, a propósito, na questão da Transnístria, onde existe o mecanismo "5+2". Dois lados: Chisinau, Tiraspol, bem como a Rússia, a Ucrânia, os Estados Unidos, a OSCE e a UE. Infelizmente, este mecanismo, por enquanto, não funciona pelas razões das quais já falámos. Os americanos tentam "dominar" tudo e fazer da Moldávia um novo foco de tensão no espaço pós-soviético, impedir que a coligação formada há algum tempo entre M.G.Sandu e I.N.Dodon, o seu partido socialista, venha a concretizar-se na prática, para que as forças pró-ocidentais conquistem uma expressiva vitória. 

Os EUA continuam a ser o país mais poderoso do mundo, mas não podem mais resolver sozinhos nenhuma questão da agenda internacional. Eles continuam a procurar fazê-lo inercialmente, mas a força inercial vai-se desaparecendo gradualmente. Procuram fazê-lo, antes de mais, nas ex-repúblicas soviéticas, onde promovem abertamente a agenda antirrussa e tentam formar os processos de estabelecimento de novos Estados na Ásia Central, Ucrânia, Transcaucásia, Moldávia de uma forma que lhes seja conveniente, como acabámos de descobrir. Sei que estão a estudar a possibilidade de lançar as bases para desdobramentos semelhantes na Bielorrússia. Devemos fazer frente a estas tentativas, cumprindo as nossas obrigações para com os nossos parceiros e aliados estratégicos. Nós, inclusive o Presidente russo, Vladimir Putin, dissemos muito claramente. Além disso, temos outras formas de cooperação a nível do poder executivo, legislativo e da sociedade civil. Penso que devemos ser mais ativos a nível da sociedade civil. Refiro-me também à questão financeira, porque, embora estas organizações sejam chamadas "não governamentais", todo o mundo sabe que as ONG mais ativas e eficazes do Ocidente, instituições republicanas e democráticas americanas, são todas financiadas a 100% pelo orçamento dos EUA. Acrescente a isso a Agência para o Desenvolvimento Internacional que é também uma estrutura estatal americana (financiada pelo orçamento do Estado). Centenas, para não dizer milhares, de ONG que operam no espaço pós-soviético recebem subsídios. 

Pergunta: Vamos fazer o mesmo?

Ministro Serguei Lavrov: Dizemos que devemos assimilar o "soft power" como forma prática de diplomacia pública. Por enquanto, não podemos comparar-nos com os americanos nesta questão. Margarita Simonyan admitiu, numa das suas aparições televisivas, que não podemos comparar-nos, em termos de apoio financeiro por parte do Estado, com os meios de comunicação social do Ocidente. 

Pergunta: É ridículo comparar.

Pergunta: O principal é que agora compreendemos que precisamos de seguir este caminho. É bom

Pergunta: O senhor causou um paradoxo. Nos EUA, a "Komsomolskaya Pravda" transmite livremente enquanto, na Bielorrússia, foi proibida. 

Ministro Serguei Lavrov: Este é um fenómeno temporário. É pena você ter dito isso. Agora será banido nos EUA. Eles ainda não tiveram tempo para tratar deste assunto. O Secretário de Estado, Mike  Pompeo, afirmou recentemente que todas as instituições de pesquisa dos Estados Unidos devem informar quem no estrangeiro as financia, quais delas recebem subvenções estrangeiras, declarando sem rodeios que se trata do dinheiro russo e chinês que prejudica os EUA.

Pergunta: Uma vez que é assim, o que o senhor acha de interferirmos em direto, neste mesmo momento, nos assuntos internos dos Estados Unidos? Para quem vamos "torcer"? Para Joe Biden ou Donald Trump?

Ministro Serguei Lavrov: Já fomos incluídos num rol dos principais formadores dos destinos dos EUA. O Presidente russo, Vladimir Putin, disse isso recentemente numa entrevista ao canal de televisão Rossiya-1. Porque precisamos de gastar dinheiro quando já somos "manda-chuvas"? 

Pergunta: Afinal, a quem vamos apoiar? 

Ministro Serguei Lavrov: Deixe que continua a cobrir objetivamente o que ali se passa.

Pergunta: É aborrecido.

Ministro Serguei Lavrov: Não, não é aborrecido de todo.

Pergunta: Seja quem for que tenha ganho as eleições, vão dizer que fomos nós a fazer isso. 

Ministro Serguei Lavrov: Bem, isso é bom. Vladimir Putin disse que iríamos cooperar com o Presidente, com a administração que obteriam o apoio do povo americano. Esta é a nossa posição de princípio. Penso que não há necessidade de mudar nada aqui. Outra coisa é que estou de acordo consigo quando você diz que o lado perdedor poderá acusar-nos da derrota. Os dois partidos, o Republicano e o Democrata, já utilizam como um dos principais argumentos a tese de que "os russos querem levar o seu rival ao poder". De qualquer maneira, de mais uma coisa podemos ter a certeza: a situação nas nossas relações não mudará drasticamente. Pode haver algumas nuances para lá ou para cá. 

Pergunta: Não vai ficar pior?

Ministro Serguei Lavrov: Pode ser, eu não sei. Somos otimistas de qualquer forma. Só o pessimista diz que não vai piorar. O otimista diz: pode ser. 

Pergunta: Os nossos diplomatas são expulsos da República Checa, Áustria, Noruega, Eslováquia, Bulgária. Porquê? O que foi que aconteceu? Porque eles começaram a competir para ver quem expulsará mais diplomatas russos?

Respondemos sempre à altura. Temos um princípio de reciprocidade. Podemos responder a tudo isto de uma forma mais enérgica para acabar com esta "epidemia"?

Ministro Serguei Lavrov: Isto se tronou um sinal de bom comportamento para com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha, este é um facto. Os britânicos têm tradicionalmente desempenhado aqui um papel muito negativo, inclusive em tempos recentes. Recorde-se do caso Skripal quando só os EUA expulsaram 60 diplomatas russos. Os britânicos forçaram muitos países da UE, da qual ainda faziam parte, a expulsar os nossos colegas. Nem todos os países foram capazes de resistir. Ao mesmo tempo, já dissemos várias vezes, os nossos parceiros envolvidos na prática de expulsões também confirmam que os britânicos não forneceram nenhumas provas. Tal como agora os alemães não querem fornecer-nos nenhumas provas, apesar de todas as suas obrigações internacionais. 

Respondemos à altura. Esta é uma prática diplomática, uma resposta diplomática. Claro que tiramos conclusões e vemos que as decisões dos nossos parceiros de expulsar diplomatas russos sob acusação de ações de espionagem ou qualquer outra coisa refletem não só a prática diplomática (está é a etapa final), mas também a maleabilidade às tendências russófobas. Os americanos procuram implantá-las na Europa e afastá-la da Rússia e lançar nos mercados locais os seus produtos a um preço mais elevado. Por outro lado, os países que aceitarão isso viverão mais seguros. Os americanos não os incomodarão muito. Pelo menos durante algum tempo. Depois, voltarão a pressioná-los. Nós, naturalmente, tiramos conclusões sobre a fiabilidade dos nossos parceiros, num sentido mais amplo, simétrico e conceptual.

Pergunta: Lembre-se da frase: "Se você não pode evitar uma briga, bate primeiro"? Vamos fazer alguma coisa para que não no sentimos tão ressentidos quando eles aplicarem novas sanções contra nós

Ministro Serguei Lavrov: Não tenho o direito de entrar em detalhes, mas parece-me que, nos últimos anos, temos vindo a fazer assim em vários casos.

Pergunta: Karen Shakhnazarov escreveu recentemente um post e colocou um ponto de interrogação no final. A frase é a seguinte: a Rússia é ou não um império. Muita coisa depende disso. O que o senhor, na condição de Ministro dos Negócios Estrangeiros, acha? Somos um império? Se somos um império, devemos seguir a respetiva política externa. 

Ministro Serguei Lavrov: Esta é uma pergunta retórica para Karen Shakhnazarov. Ele considera inequivocamente que a Rússia é um império. Respeito o seu interesse em analisar o que está a acontecer. Nem todos os políticos práticos são capazes de o fazer. É que, por vezes, não têm tempo suficiente para isso. Ele acredita que só os impérios têm futuro no mundo moderno, já que os pequenos países não podem competir com as grandes associações. Ele parte da tese de que a URSS era um império, tal como o Império russo. 

Em grande medida, os interesses da Rússia no cenário internacional consistem agora em manter a sua influência e o apoio dos seus vizinhos imediatos. De facto, a UE é também um império na sua essência. Os EUA são um império com proporções globais. A China, promovendo os seus projetos "Uma faixa, uma Rota", "Rota da Seda de Gelo", a Comunidade de Um Destino Humano, projeta obviamente os seus interesses globais e está interessada em exercer a sua influência além das suas fronteiras. 

Provavelmente, para a simplicidade das sensações, Karen Shakhnazarov usa o termo "impérios". Pode-se inventar um termo mais preciso para a época moderna, o qual, no entanto, mostrará que o processo objetivo de formação de um mundo policêntrico pressupõe, evidentemente, a ascensão e um diálogo entre as grandes potências, e não entre os 193 estados membros da ONU. Entre elas estão os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Neste contexto, vou lembrar a iniciativa do Presidente russo, Vladimir Putin, de que os membros do Conselho de Segurança têm uma responsabilidade especial, segundo a Carta das Nações Unidas. A Carta das Nações Unidas não foi, por enquanto, revogada. Entre elas estão também novas grandes associações formadas ao longo das últimas décadas. O exemplo mais ilustrativo é a União Europeia. Como em qualquer império clássico do passado, à medida que um império se expande, começa a enfrentar problemas. Na União Europeia, alguns países, em primeiro lugar os "Quatro de Visegrad", começam a expressar seriamente o seu descontentamento com a burocracia que, como qualquer outra burocracia, tende a reproduzir-se, a reforçar a sua influência em detrimento das regiões, os países comunitários, no caso. 

À medida que os EUA forem espalhando a sua influência, nesta altura particularmente assertiva e agressiva, irão deparar-se com problemas, seja no Afeganistão, onde procuram conseguir a todo o custo pelo menos alguns dos seus objetivos, mas, por enquanto, não têm sucesso nem o terão sem a ajuda de outros países. O Iraque é uma boa prova disso. Em 2003, chegaram a Bagdad, "declararam democracia" e o país deixou de existir. A Líbia foi bombardeada pela NATO por iniciativa dos Estados Unidos e, a propósito, da França, um dos países mais "interessados" na altura. Barak Obama preferiu ficar em segundo plano. Onde quer que a expansão dos EUA se tenha desenvolvido ao longo das últimas décadas, em nenhum lugar a democracia foi implantada, embora este tenha sido o seu principal objetivo, nem a paz se fez. 

Margarita Simonyan: O caos por todo o lado. 

Ministro Serguei Lavrov: Por todo o lado há destruição.

Pergunta: Não tem havido um só exemplo nas últimas décadas.

Ministro Serguei Lavrov: Penso que o multilateralismo do qual estamos a falar deveria ter como objetivo a organização de uma interação, o conhecimento recíproco, a procura de compromissos, o equilíbrio de interesses entre os principais centros do mundo moderno que possuem território, população, capacidades económicas e tecnológicas, tanto na esfera civil como na esfera militar. Neste contexto, os "cinco" do Conselho de Segurança da ONU são óbvios para mim. Mas, é claro, teremos de compreender que a França e ainda a Grã-Bretanha fazem parte da Europa. A Grã-Bretanha tornar-se-á, em breve, um país do outro lado do estreito da Europa territorial. Mas é muito difícil ignorar a UE.

Pergunta: Quanto ao outro império. O que vai acontecer agora ao Japão?

Ministro Serguei Lavrov: Não creio que o Japão possa ser incluído na categoria de impérios.

Pergunta: Estou a ironizar.

Pergunta: Tem um imperador.

Pergunta: É mais um império formal.

Ministro Serguei Lavrov:  Houve contactos entre o novo Primeiro-Ministro do Japão, Yoshihide Suga, e o Presidente da Rússia, Vladimir Putin. Eles trocaram mensagens. O Presidente russo felicitou-o pela sua eleição como líder do partido e primeiro-ministro. Recebeu uma resposta detalhada. Recentemente, eles ainda conversaram ao telefone. Pelo que posso julgar, o lado japonês ainda precisa de ver como será moldada a política prática em muitas áreas. Por enquanto, sinto, apesar de muitas previsões, que os vizinhos japoneses confirmaram a continuidade das relações, o seu interesse em desenvolvê-las em todas as áreas. Congratulamo-nos com isto porque reflete as posições fundamentais da Rússia estipuladas nos acordos alcançados com o antecessor de Yoshihide Suga. Eles afirmam que só uma plena parceria em larga escala na economia, tecnologia, na esfera humanitária, na aproximação e coordenação das nossas abordagens no cenário internacional pode levar as nossas relações a um nível completamente novo, o que é necessário para se poder abordar seriamente quaisquer questões ainda pendentes. 

Pergunta: Quanto ao confronto com os EUA, tudo é claro. Países grandes e complexos. A China. Mas há países (estou a falar sobre o "soft power") completamente dependentes de nós: a Abkhazia, o Tajiquistão. Quanto à Bielorrússia, já mencionei o nosso drama. Somos até proibidos de vender ali os nossos livros. Na Abkházia, todas as velhinhas russas foram expulsas dos seus apartamentos. O senhor está ciente disso, a Embaixada Russa trata constantemente deste problema. No Tajiquistão, a agência de notícias internacional Rossiya Segodnya não pode abrir o seu escritório. O escritório do jornal "Komsomolskaya Pravda" também foi encerrado ali. O país está completamente dependente de nós. Centenas de milhares de russos continuam a viver ali. Estes países comportam-se como quiserem. 

Tenho duas propostas a fazer. O senhor não acha necessário fixar em acordos bilaterais uma disposição sobre a presença dos nossos mass media nestes países. Sabe, sentimo-nos melindrados quando a Abkházia e o Tajiquistão não se constrangem em expulsar-nos. Refiro-me aos russos, aos interesses das pessoas de língua russa. Estes países fazem o que quiserem enquanto nós não fazemos nada. 

Ministro Serguei Lavrov: Posso acrescentar mais exemplos aos que você citou. Os problemas com os nossos meios de comunicação ainda não foram totalmente resolvidos na Arménia, no Cazaquistão, onde os responsáveis pela adoção de novas formas de radiodifusão e a criação do chamado multiplex público não levaram em conta as nossas relações de aliados. O Ministério dos Correios e Telecomunicações teve de iniciar negociações. Tenho a certeza de que conseguiremos resolver estas questões. Mas concordo que estes problemas não deveriam ter surgido. Tendo em conta as nossas relações, tudo o que fazemos na prática, a nossa participação em numerosas associações conjuntas, a consideração dos nossos interesses deveria ter sido mais distinta. Tudo isto está na nossa agenda. A questão da propriedade de cidadãos de origem russa, georgiana na Abkházia está constantemente sob a nossa atenção. 

Espero que, agora que as perturbações na Abkhazia parecem ter diminuído, voltemos definitivamente a esta questão.  Embora, repito, estejamos um pouco surpreendidos por este problema continuar por resolver. Agora, após todos estes acontecimentos, penso que iremos promover as nossas atitudes de forma um pouco mais enérgica nas relações com os países que mencionou. Na maioria destes países, a nossa presença comercial é dominante, há empresas participadas a 100% pelo capital russo e empresas mistas. Na maioria deles, porém, o ensino da língua russa encontra-se a um nível muito bom. No Tajiquistão, em conformidade com o acordo existente, há programas de formação de professores de língua russa, criação de escolas adicionais no contexto de apoio à política do governo para a preservação do idioma russo como língua-chave da comunicação multiétnica no país e na CEI. Os mesmos processos estão em curso no Quirguizistão.

É-me difícil julgar, pois tenho lidado sempre com um aspeto prático das relações que temos com os nossos aliados e parceiros estratégicos. Você tem, talvez, a possibilidade de ver o quadro completo de forma mais objetiva. As suas dicas também são importantes para nós. Mas quando os seus colegas e outros meios de comunicação tiverem questões práticas, estaremos sempre à sua disposição para não só ouvir as suas sugestões e comentários como também fazer deles temas concretos da nossa política prática. 

Pergunta: Temos sempre dito que um país reescreveu parte da nossa história, outro destruiu o monumento a um general nosso da época da Grande Guerra Patriótica, outro ainda fez algo de mau ao nosso memorial. Esta história não tem fim.  Dizemos todas as vezes que não o permitiremos. E o que podemos realmente fazer para não permitir? 

Ministro Serguei Lavrov: Outra vez voltamos à questão se devemos observar ou ignorar o direito internacional.

Pergunta: Francamente, sou a favor de ignorá-lo.

Ministro Serguei Lavrov: Uma vez que você é a favor de ignorá-lo, vou explicar-lhe o que acontecerá neste caso. É preciso destruir todos os monumentos erguidos em homenagem aos legionários checos e dizer à população que estes monumentos estão aqui de acordo com o documento jurídico internacional, mas agora ele é ignorado, por isso, cada um faz o que quiser. Como resultado, as numerosas manifestações contra os monumentos, especialmente na Polónia, e alguns episódios em países como a Bulgária tornar-se-ão norma. Será eliminada a última barreira e serão levantadas todas as restrições. 

Pergunta: Isto já se tornou norma para eles. Não é norma para nós. 

Pergunta: Fazem isso até agora. Íamos a Minsk para uma entrevista com Aleksandr Lukashenko, Presidente da Bielorrússia. Vimos a caminho uma placa de indicação com o nome Katyn onde o avião polaco havia sofrido um acidente. Temos ali um memorial que está em perfeito estado. Cuidamos de tais lugares a nível estatal, e eles sabem muito bem que a Rússia como Estado nunca permitirá que nada aconteça com ele. Este é um exemplo que me veio à mente. Mas eles não param e continuam a destruir os nossos monumentos. O senhor acha que não há possibilidade de pelo menos assustá-los? 

Ministro Serguei Lavrov: Repito, não vejo nesta área, a proteção da memória e da verdade histórica, outra forma, a não ser insistir em que os países cumpram os seus compromissos internacionais. Sim, eles destroem muitos monumentos e não só na Polónia, apresentando argumentos que, na minha opinião, não são dignos de qualquer pessoa normal: "Só desmantelamos os monumentos que não estão localizados acima dos locais de sepultamento; os nossos compromissos são os de não desmantelar os monumentos instalados acima das sepulturas". Em primeiro lugar, os seus compromissos referem-se a todos os monumentos, por isso eles mentem. Em segundo lugar, já demoliram os monumentos instalados acima das sepulturas, como aconteceu em Tallinn com o "Soldado de Bronze". Se começarmos a retribuir, isso já irá contra os princípios da religião ortodoxa.

Pergunta: Primeiro, o senhor diz que não podemos fazer isto, porque isso vai contra o direito internacional. Vamos proceder de acordo com os nossos interesses: não vamos retribuir, porque somos cristãos e porque isso vai contra a tradição da Rússia, e não porque se trata do direito internacional. 

Ministro Serguei Lavrov: Não, porque se trata do direito internacional. Mencionei a religião ortodoxa, porque estou convencido de que não devemos destruir sepulturas, monumentos no nosso território. Se dissermos que o direito internacional, pelo menos nesta área, não existe mais, os países onde os nossos monumentos ainda se mantêm, na Polónia inclusive, dir-nos-ão: "Acabou, não temos mais obrigações, a Rússia retirou-se destes tratados" (em outros países este processo tornar-se-á irreversível). Não quero fazer comparações, podem ser acolhidas como sacrilégio, mas aqui é como no póquer, quem pestanejará primeiro. E se formos os primeiros a piscar o olho e dissermos que perdemos a paciência e não somos responsáveis por nada; se nesta área tivermos de tomar a iniciativa de abandonar o direito internacional, porque é que o fazemos? O único objetivo será permitir-nos a nós próprios destruir os monumentos no nosso território nacional.

Pergunta: Bem, se tomarmos esta área, sim. E se for em princípio?

Ministro Serguei Lavrov: Bem, ainda estamos a falar sobre esta área. Agora há de facto uma guerra contra a história, os resultados da Segunda Guerra Mundial são atacados, resultados esses os quais nós e outros países que lutaram contra a coligação de Hitler conquistaram com sangue. Todos os anos, a Rússia submete à apreciação da Assembleia Geral da ONU uma resolução sobre o combate à glorificação do nazismo. O documento é adotado por uma maioria esmagadora. Os EUA e a Ucrânia votam contra, a União Europeia abstém-se. Considero isso vergonhoso para a UE. Este ano, submetemos à apreciação da 75ª sessão da Assembleia Geral da ONU um projeto de resolução sobre o fim da Segunda Guerra Mundial. O documento continha uma nova disposição, propondo que todos os membros da ONU reconhecessem a vitória na Segunda Guerra Mundial como património comum da humanidade, porque as Nações Unidas eram um património comum e a sua criação só foi possível graças a esta Vitória. Os Estados Unidos, toda a União Europeia, o Canadá, a Ucrânia e a Geórgia votaram contra. 

Pergunta: Como explicam? 

Ministro Serguei Lavrov: Eles não explicam nada. Dizem que isso não é necessário. Antes nós não o dizíamos, agora vocês querem que digamos. Isto é inaceitável e mostra a validade absoluta da nossa afirmação de que eles querem realmente reescrever a história, não só para desculpabilizar os seus antecessores, como também para utilizá-la na sua política prática para fins antirussos. Por isso, vamos combatê-lo. Mas não posso concordar com a ideia de que é do nosso interesse abandonar o direito internacional.

Pergunta: O senhor fugiu à resposta sobre um futuro radiante das nossas relações com os americanos, há alguma hipótese?

Ministro Serguei Lavrov: Eu não fugi, eu disse que a situação não seria melhor.

Pergunta: Vou parafrasear a minha pergunta. É possível que os interesses russos participem nas contradições entre a China e os EUA? Segundo muitos indícios, os EUA estão a criar uma coligação anti-chinesa. Seria bom se pudéssemos tirar proveito desta situação. Poderíamos, digamos, distanciar-nos um pouco da China e dar a entender que poderíamos estar com os americanos. Existe alguma possibilidade de manobra para nós com estas novas alianças?

Ministro Serguei Lavrov: Tudo o que fazemos tem por base as realidades existentes.  Pelo menos, tentamos basear o nosso trabalho nas realidades existentes. Não encontro razão por que devemos distanciar-nos de algum país. Seria insensato abandonarmos os acordos que consideramos como mutuamente vantajosos e funcionais. Distanciar-nos dos acordos com a China só para mostrar que também nós podemos intrigar, para que? É prejudicar a nós próprios. Os americanos não usam mais métodos diplomáticos para dizer abertamente que a Rússia deve ajudá-los a punir a China, a fazê-la desarmar ou congelar os seus arsenais, manipulando descaradamente como no jogo dos copos e das bolas.

Recentemente, um representante americano declarou que a Rússia os apoiou, e que "estamos a chegar perto de concluir, antes das  eleições presidenciais nos EUA, um acordo sobre o congelamento de todas as nossas ogivas nucleares"; "a Rússia deseja muito que a China se junte a isto". Olhem, este é um método sujo. 

Pergunta: Qual é a situação real do Tratado START-3? Eles dizem que estão prontos, que propuseram aos russos congelar os arsenais nucleares e que estão a um passo de prorrogar o Tratado nas suas condições?

Ministro Serguei Lavrov: Entendemos sempre e continuamos a entender que os acordos na área de estabilidade estratégica devem basear-se numa apresentação dos interesses de cada uma das partes contratantes, numa análise das ameaças representadas pela outra parte e na procura de um compromisso que considere de forma equilibrada os interesses de cada parte e, portanto, as ameaças reais. Trata-se sobretudo dos meios de transporte capazes de levar ogivas nucleares para o território da outra parte. 

Agora os EUA viraram tudo de pernas para o ar. Eles querem deixar de lado os meios de transporte porque têm muitos meios que não são objeto de negociações. Eles não se cansam de falar sobre as nossas novas armas que foram anunciadas e que estão agora a ser intensamente postas em serviço. Das cinco novas armas nossas, duas podem ser incluídas no contexto do atual tratado. Eles sabem disso. 

Pergunta: Quais armas podemos incluir no tratado?

Ministro Serguei Lavrov: Não vou entrar em pormenores agora. Trata-se das armas que se enquadram nas categorias abrangidas pelo atual tratado. São mísseis balísticos intercontinentais, mísseis instalados em submarinos e bombardeiros estratégicos. 

Pergunta: Se os americanos estivessem no nosso lugar, eles diriam estas armas não se enquadram nestas categorias. 

Ministro Serguei Lavrov: Eles estão no seu lugar e dizem que não se enquadram, porque têm um programa de ataque relâmpago global. Não se trata de transportadores nucleares, mas de transportadores estratégicos capazes de chegar a qualquer ponto do mundo numa hora. Eles ainda não os incluíram nas nossas conversas. Também não abordam a questão da militarização do espaço, embora o espaço esteja oficialmente incluído nas suas doutrinas, como o ciberespaço aparece como palco de operações militares. Não podemos ignorar isso. 

Eles não querem atender ao facto de terem sido eles próprios a impedir a sua adesão ao Tratado de Interdição Completa de Ensaios Nucleares (CTBT), e muito mais. Em vez de tratar de transportadores concretos que representam uma ameaça para a outra parte, eles propõem calcular ogivas, pretendendo assim pôr em circulação o tema de armas nucleares não estratégicas, isto é, as chamadas armas nucleares táticas. Havia uma compreensão clara a este respeito, segundo a qual, antes de incluir esta categoria de armas nas discussões sobre a sua limitação, os americanos devem, primeiro, retirar estes mísseis táticos com ogivas táticas para o seu território nacional. Neste momento, estes mísseis encontram-se no território de cinco países da NATO. Além disso, Washington treina países da NATO no uso e manuseio de armas nucleares ao arrepio do Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP). Esta é uma grosseira violação do TNP. Em vez de preparar o campo para contatos, retirando tudo isso para o seu território nacional, eles propõem que tomemos tudo isso como dado e comecemos a calcular. Isso não vai acontecer. 

A sua segunda exigência é retomar os mecanismos de verificação usados nos anos 90 e que eram, de facto, humilhantes. Naquela altura, os seus inspetores instalavam-se à entrada de uma fábrica para medir os contentores em que os mísseis se transportavam e verificar o que entrava na fábrica. Nós também tínhamos o direito de estar numa instalação na cidade de Magna. Mas quando acordámos o atual tratado START-3, foi decidido que iríamos abandonar estas práticas intrusivas e estranhas às relações de parceria porque não servem nas atuais condições em que adotamos a sério os acordos de igualdade fixados no atual documento. Mas os americanos querem calcular todas as ogivas e voltar às duras medidas de verificação que mencionei.  Além disso, querem fazer-nos persuadir a China. É disso que eles falam. 

Pergunta: Não inventaram nada de novo. Há muitos anos, estávamos a filmar neste mesmo edifício como estava a ser desenvolvido o Tratado de Redução dos Potenciais Ofensivos. Quando este tratado estava finalmente pronto, eles mudaram "transportadores de armas nucleares" para "transportadores de armas de precisão" e disseram com toda a seriedade que tinham reduzido o número de transportadores, principalmente aviões. Mas se agora se mantiverem nestas posições, então não há perspetiva de prorrogação do START-3?

Ministro Serguei Lavrov: Não, eu pessoalmente não vejo nenhuma perspetiva. Os meus colegas, que trabalham num formato interdepartamental e se encontram com a delegação americana, também não veem a perspetiva. Embora nunca digamos que batemos a porta e terminamos todos os contactos. Explicamos que é impossível ter uma conversa com base num ultimato que ignore completamente todos os princípios reconhecidos ao longo de décadas como base dos nossos entendimentos quanto ao START-I, e assim por diante.

O Tratado sobre Reduções de Ofensiva Estratégica não era juridicamente vinculativo, representando uma declaração política que, na altura, permitia manter à tona o processo de manutenção da estabilidade estratégica. 

Pergunta: Quem é melhor para nós? Joe Biden ou Donald Trump? E há os que são melhores aqui?

Ministro Serguei Lavrov: Penso que Semyon Slepakov entrou a fundo no assunto, escrevendo a letra da canção "A América não nos ama".

Pergunta: Quero assinalar um momento histórico: o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Federação da Rússia, Serguei Lavrov, cita Semyon Slepakov no ar de três grandes emissoras de rádio russas. A fim de abandonarmos o terrível tema da impossibilidade do START 3, o mais pessimista, na minha opinião, de todos os assuntos abordados hoje, eu gostaria de perguntar sobre o Cazaquistão, de uma forma mais ampla, como costumamos fazer aqui. Existe uma opinião, não sei se o senhor concorda, nem sei se eu mesma concordo, porque não sou especialista em assuntos do Cazaquistão, de que este país pode vir a ter contradições próximas das que tiveram lugar na Ucrânia. Refiro-me ao que aconteceu entre os cidadãos cazaques de origem russa no norte do país e o Cazaquistão como Estado. Já o ouvi de várias pessoas e li em várias fontes. Não sei se isso é verdade. Espero que não seja. Estive no Cazaquistão várias vezes, embora há muito tempo, mas não vi nada disso.  O senhor acha que existem mesmo tais receios? O senhor nota algum aumento de tensão? E para ampliar a minha pergunta: quando é que começamos a fazer alguma coisa para que os nossos compatriotas (em primeiro lugar, de origem russa) possam regressar ao seu país? Falamos disso durante muitos anos, simplificando sempre as formalidades, mas o processo marca passo. 

Ministro Serguei Lavrov: Quanto ao Cazaquistão, eu, como você, não vejo qualquer ameaça de divisão do Cazaquistão em grupos étnicos. As autoridades do país compreendem muito bem a necessidade de reforçar a concórdia interétnica e garantir a integridade territorial do seu país. Neste sentido, ter em conta os interesses da população russófona do país é importante, inclusive no contexto do ensino da língua russa, da preservação do espaço de língua russa e da garantia do direito dos pais de colocar os filhos nas escolas de língua russa, etc. 

Tudo isto faz parte dos acordos no âmbito da CEI e dos documentos bilaterais entre a Rússia e o Cazaquistão. Isto também diz respeito ao envolvimento dos russos na governação das regiões do Cazaquistão e do Estado. Estou convencido de que o Presidente do Cazaquistão, Kassym-Jomart Tokayev, e o primeiro Presidente do país, Nursultan Nazarbayev, o compreendem muito bem. Pelo menos, vemos sempre esta compreensão nos nossos contactos a nível dos líderes dos dois países e de ministros.

Quanto àqueles que, além de nós mantêm relações com o Cazaquistão, não posso acreditar na pureza dos seus planos. Vemos (falando mais uma vez sobre como os americanos exploram o espaço pós-soviético, a Ásia Central em particular) que eles procuram semear contradições num país que é próximo da Rússia no plano geográfico e histórico, político, militar e que é o nosso aliado. Fazem tais tentativas. Pelo menos todas as ONG financiadas por fundos americanos promovem uma política voltada para estimular as tendências nacionalistas da nação titular e manter o potencial de conflito.  

A China também tem um programa na Ásia Central. Interessa–se sobretudo pelas possibilidades de promover os seus interesses económicos. Eu já comentei a questão levantada pelo artigo de Karen Shakhnazarov. A China acumulou um poderio económico, de acordo com as regras estabelecidas pelo Ocidente, principalmente pelos americanos no contexto do conceito de globalização. Hoje em dia, os americanos não gostam que a China se tenha desenvolvido, seguindo as regras e tocando nas notas escritas pelos próprios americanos. É por isso que os EUA querem retirar-se da OMC e destruir os outros acordos que limitam a sua liberdade de ação.

A China, projetando o seu poderio económico, realiza os seus interesses absolutamente naturais. Tentamos participar nisto e harmonizar os interesses da Ásia Central e de outros países ex-repúblicas soviéticas, incluindo os da Rússia, com os interesses e oportunidades que a China proporciona. 

A CEEA já celebrou dois acordos com a China. Os documentos visam harmonizar a integração eurasiática com os projetos chineses de "Uma Faixa Uma Rota" e, de forma mais ampla, no quadro da filosofia a que o Presidente Vladimir Putin chamou a formação de uma Grande Parceria Eurasiática, para onde são convidados todos aqueles que se localizam no nosso vasto continente eurasiático, incluindo os países da ASEAN, e os Estados que não pertencem a nenhuma associação de integração. Além disso, como já foi sublinhado, estamos a manter a porta aberta para a UE, porque seria insensato não utilizar as vantagens comparativas que Deus nos deu: a geografia de um continente promissor em rápido crescimento. 

Gostaria de salientar mais uma vez que mantemos com o Cazaquistão, como com qualquer outro país da CEI, um diálogo muito confiante e detalhado sobre todas as questões. Todos os temas que, de uma forma ou de outra, podem causar preocupação são apresentados abertamente e são resolvidos com sucesso na maioria dos casos. Espero que, no final de contas, saibamos resolver estas questões de forma satisfatória.

Pergunta: Uma pergunta dos nossos ouvintes. O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Serguei Lavrov, viajou muito pelo mundo. Quais o senhor acha que são os cinco lugares mais bonitos do mundo?

Ministro Serguei Lavrov: Cada lugar é bonito à sua maneira. Estou mais inclinado a ter uma opinião que se criou em mim e em V.N.Sungorkin. Quando você viaja pelo mundo, você deve lembrar que é impossível conhecer todo o nosso país. O nosso país tem belezas suficientes para muitas gerações futuras. 

Pergunta: Mantemos uma discussão com o senhor Ministro. O senhor Ministro defende os destinos no Altai e eu, no Extremo Oriente. A nossa discussão prossegue.

Pergunta: E nós somos a favor da Região de Krasnodar. 

Pergunta: Sochi, a costa do Mar Negro.

Margarita Simonyan: Onde tivemos férias em família. Também estivemos em Ialta.

Ministro Serguei Lavrov: Do ponto de vista da prática de atividade física, estas são férias passivas. 

Pergunta: Depende do que você quer fazer.

Ministro Serguei Lavrov: Não seria uma atividade física. Eu sei o que lá se pratica. 



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