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Discurso do Ministro das Relações Exteriores da Federação da Rússia, Sergei Lavrov, e suas respostas a perguntas dos graduados da Escola Diplomática e estudantes universitários, Erevan, 11 de novembro de 2019

2318-11-11-2019

Prezados colegas,

Estou muito grato à chefia da Escola Diplomática pelo convite. Estou de novo na amiga Armênia e tenho a oportunidade de conversar com jovens que escolheram as relações internacionais como sua profissão, é sempre interessante. Geralmente, cada visita minha em Erevan e em outras partes da Armênia convence-me das relações profundas e multifacetadas entre os nossos países e povos. Estas relações são ligadas pela história comum, pelo legado cultural, espiritual e pela simples amizade humana. Entendo que estão presentes aqui hoje professores e alunos das principais universidades e institutos arménios, o que faz o nosso encontro ainda mais significativo e interessante. Hoje em dia, as nossas relações, que o tempo já provou serem sólidas, têm o caráter de parceria estratégica, de aliança, e continuam progredindo em todas as áreas. Contatos regulares em nível superior dão o impulso necessário a isso. O Presidente da Rússia, Vladimir Putin, e o primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, realizaram quatro encontros só neste ano, e continuam mantendo contatos regulares. Isso é válido também para os contatos entre chefes dos Governos.

Há resultado significante na área comercial e econômica. Tudo indica que neste ano, o nosso intercâmbio comercial superará 2 bilhões de dólares. Realizam-se projetos conjuntos na indústria, nas áreas de energia, transportes, agricultura, finanças e créditos, há boas perspectivas na área de altas tecnologias.

Há muita dinâmica nas relações inter-regionais: participam delas mais de 70 unidades administrativas da Federação da Rússia e praticamente todas as da Armênia. Ampliam-se intercâmbios culturais, inclusive nas áreas da educação, ciência, informação, esporte, cultura e arte. Agradecemos aos colegas armênios pelo cuidado na conservação e desenvolvimento do lugar que ocupa no seu país a língua russa. Em maio de 2020, vamos celebrar os 75 anos da Vitória na Grande Guerra Patriótica. Juntamente com os nossos amigos armênios, sublinhamos de novo a necessidade de conservar a sagrada homenagem aos heróis, de cuidar dos antigos combatentes. Ontem, eu com o meu colega, Ministro das Relações Exteriores da Armênia, Zograb Mnatsakanyan, inaugurámos, na Galeria Nacional da Pintura, uma exposição dedicada aos 75 anos da Grande Vitória. Concordamos uma série de eventos tanto nos nossos países, como no formato bilateral e no seio de organismos internacionais.

O diálogo na política externa é uma parte imprescindível da cooperação entre a Rússia e a Armênia. Hoje ele vai ganhando muita importância. Vocês vêem que o mundo está vivendo mudanças realmente tectônicas, todos os padrões de costume, que têm sido aplicados à avaliação das relações internacionais durante séculos, sofrem alterações em tempo real. O mundo está caminhando no sentido da multipolaridade, que está se formando – é uma observação objetiva – no nosso planeta. Constantemente vão surgindo novos centros de crescimento econômico, de potência financeira e, por consequência, de influência política, tanto na região Ásia-Pacífico, como em outros cantos do planeta: no Oriente Médio, na América Latina, na África. Estão em curso muitos processos de integração, que às vezes se entrelaçam e concorrem entre si. Resumindo, as relações internacionais estão se tornando cada vez mais complexas, de modo que nenhum país, nem um pequeno grupo de países é hoje capaz de garantir, por sua contra própria, a sustentabilidade do desenvolvimento global, de ser eficiente na luta contra numerosas ameaças, cujo número vem aumentando: do terrorismo aos riscos de proliferação das armas de destruição em massa. Por isso, é bem lógico que as questões essenciais para toda a humanidade, sejam colocadas ao exame não só do Grupo dos Sete dos principais Estados do Ocidente, como era há uns 20 anos, mas sejam estudadas pelo Grupo dos Vinte, que é um mecanismo de gestão global inclusivo, de referência e que corresponde à realidade do século XXI. Além de todos os membros do Grupo dos Sete, fazem dele parte todos os membros do BRICS e os seus aliados, que defendem abordagens ligeiramente diferentes na solução dos problemas internacionais, que prevêem a busca do equilíbrio de interesses, e não elaboração de uns roteiros criados em um círculo estreito e apresentados depois na qualidade da verdade definitiva. Isso não funciona mais. Vou sublinhar mais uma vez: a criação e o funcionamento do Grupo dos Vinte tem significado importante tanto simbólico, como prático.

Estamos convencidos que é do interesse comum garantir uma transição coerente e pacífica à nova ordem mundial. Fazer com que seja justa e democrática, que não se apoie na força, senão no equilíbrio ponderado de todos os membros da comunidade internacional. Se antes, se falava em “concerto de grandes potências”, agora é preciso criar um “concerto global”, que levaria em conta os interesses de todos os países, sem exceção.

A Rússia desempenha de maneira responsável as suas funções de um dos garantes da arquitetura multicêntrica que está se formando. Promovemos uma agenda internacional construtiva, de unificação, que visa não permitir confrontação no palco internacional, fortalecer segurança global e regional.

Entre as nossas prioridades essenciais está progressiva ampliação da cooperação bilateral e multilateral na Eurásia. Aqui, avaliamos muito positivamente o nível de coordenação alcançado com os nossos amigos armênios em tais grupos como a Organização do Tratado de Segurança Coletiva (OTSC), a Comunidade dos Estados Independentes (CEI), a União Econômica Eurasiática (UEEA). Estas estruturas têm ocupado um lugar central na lista dos principais fatores estabilizadores no espaço pós-soviético. Eu gostaria de destacar especialmente os nossos planos de fortalecer a OTSC, que garantam o respeito dos interesses políticos e militares de todos os aliados que fazem parte deste organismo. A UEEA foi criada depois da CEI e da OTSC, mas mostra um desenvolvimento contínuo e eficiente. Em um período relativamente curto, conseguimos formar um mercado comum de bens, de capital e de mão-de-obra. A UE levou umas vezes mais tempo para percorrer este caminho.

Por isso, acho que os colegas armênios, que presidiam neste ano a UEEA, sentem todas as vantagens de serem membros da UEEA. Pelo menos, os dados estatísticos mostram que em três anos, o volume do comércio mútuo de Erevan com outros membros da União cresceu quase 40%. A Armênia tem novas possibilidades de desenvolvimento econômico, inclusive através de compra de matérias-primas e recursos sem taxas de exportação e tarifas, através do reconhecimento mútuo de documentos.

A UEEA não é um clube “fechado”. Este organismo, que desenvolve-se em total conformidade com os princípios da OMC, está aberto para a cooperação com outros países e estruturas integracionistas. Já há acordos assinados de livre comércio com o Vietnã, Singapura e Sérvia (os dois últimos foram assinados no ano da presidência rotativa da Armênia). Foi assinado um acordo preliminar com o Irã, estão em curso negociações com dezenas de outros países, inclusive os países do Oriente Médio, Ásia, África, América Latina. A assinatura, em 2018, do Memorando de Compreensão Mútua entre a Comissão Econômica Europeia e a ASEAN foi um passo importante.

Iniciamos um trabalho de grande escala na coordenação da integração eurasiática com a iniciativa chinesa “Um Cinturão, Uma Rota”.  Já foi assinado um Acordo de cooperação comercial e econômica entre a UEEA e a China. Estas relações continuam a obter novos documentos, que já estão na fase de preparação.

Em geral, estimulamos os esforços que visam harmonizar diversas iniciativas com a participação dos membros da UEEA, OCX e ASEAN. Estes esforços formam o fundamento de um novo circuito inovador na Eurásia, livre de barreiras, baseado nos princípios do direito internacional e nas normas da Organização Mundial do Comércio, no respeito de diferentes modelos de desenvolvimento e do direito de os países definirem para si próprios qual caminho escolher. Esta filosofia é o fundamento da iniciativa “Grande Parceria Eurasiática”, proposta pelo Presidente da Rússia, Vladimir Putin, na cúpula Rússia-ASEAN. A iniciativa corresponde à ideia bem conhecida do espaço econômico único de Lisboa a Jacarta: um espaço pacífico, que iria se apoiar na segurança igual e indivisa de todos os participantes.

Claro que o nosso diálogo com Erevan não se limita ao espaço pós-soviético. Apoiamos os contatos mais estreitos, coordenamos as nossas ações na ONU, na OSCE, no Conselho da Europa, na Organização de Cooperação Econômica do Mar Negro. Aproveitando a ocasião, gostaria de destacar a cooperação na Síria, que começou recentemente, essencialmente na ajuda humanitária ao povo desse país. Os nossos médicos militares e sapadores cooperam com eficiência. Os próprios sírios o notam, inclusive a comunidade armênia na Síria. A Rússia fez muito para convocar o Comitê Constitucional, cuja tarefa é indicar os caminhos de regulação política da crise síria. O Comitê inclui uma representante dos armênios da Síria. Uma das preocupações comuns importantes é a ajuda a todos os cristãos do Oriente Médio, que têm sido vítimas de míopes experimentos geopolíticos, tendo que abandonar os países habitados pelos seus ancestrais.

Queridos amigos,

Estamos todos interessados na companhia externa amigável: um “cinturão de bons vizinhos”. E um dos nossos interesses é um Cáucaso Sul estável, seguro, próspero. Lamentavelmente, a situação nesta região se mantem difícil. Até agora, há problemas nas relações entre a Geórgia, a Abkházia e a Ossétia do Sul. No entanto, graças às discussões internacionais, iniciadas em Genebra com ativo apoio da Rússia, foram possíveis mais de 11 anos de coexistência pacífica, sem episódios sérios de uso de força e com relativa estabilidade nas fronteiras. É óbvio que para melhorar a situação, seria bom aceitar a declaração de todos os participantes das discussões em Genebra de não uso da força, declaração que já foi consolidada. Isso permitiria passar a uma discussão mais concreta da regulação política definitiva nas relações entre Tbilissi, Sukhum e Tskhinval.

A respeito de Nagorno-Karabakh. Estamos sinceramente interessados em que domine aqui a paz, em que as pessoas não morrem mais, em que as fronteiras se abram e as relações econômicas se renovem. Mediante os esforços visando a redução dos riscos militares e de apoio à possível cooperação na área humanitária, a Rússia age consequentemente para a elaboração dos princípios políticos da regulação. Estamos realizando a nossa missão de intermediários sem tentar oferecer receitas feitas à Armênia e ao Azerbaijão. As partes devem chegar a um consenso por sua conta própria, sem pressão externa, sem prazos finais artificialmente impostos, sem arbitragem. Esta é a nossa firme posição. Estamos prontos para apoiar tal opção de solução do problema que iria agradar a todas as partes implicadas. E se houver acordo, para sermos, juntamente com outros co-presentes do Grupo de Minsk da OSCE, garantes da regulação.

Estamos convencidos que a maioria dos problemas contemporâneos tem uma solução, se nos desistirmos de métodos viciosos de ditadura e pressão e começarmos a defender os valores do diálogo, respeito mútuo e cooperação. Como um exemplo, vou lembrar o desenvolvimento da situação em torno ao Cáspio: não só foi possível assinar a Convenção sobre o Estatuto do Mar Cáspio, mas também criar um sistema de mecanismos jurídicos, económicos e políticos que permitissem garantir um equilíbrio eficiente dos interesses de todos os Estados do Cáspio e que confirmam a sua responsabilidade pelo Cáspio.

A diplomacia russa continuará a envidar seus esforços para ressuscitar a cultura do diálogo e do compromisso, para desmilitarizar o pensamento da política externa. Continuará insistindo na necessidade de confirmar de novo a essencial necessidade e permanência das normas fundamentais do direito internacional, como o respeito à soberania, a não interferência em assuntos interiores, o não uso da força e da ameaça de força, o direito de os povos definirem o seu destino eles próprios. Acredito que os amigos armênios continuarão compartilhando a nossa posição neste sentido.

Prezados amigos,

Hoje, a Armênia está lidando com tarefas importantes de garantir desenvolvimento sustentável social e econômico. O povo armênio, que é um dos mais antigos, que tem riquíssimas tradições e uma grande cultura, é perfeitamente capaz disso. A Rússia estará sempre ao seu lado, para ajudar, se for necessário.

Os nossos escritores eminentes, Anna Akhmatova, Valery Bryusov, Ossip Mandelstam e muitos outros escreviam sobre Armênia com muito amor, chamando este país de “livro de leitura dos primeiros seres humanos” e de “vanguarda europeia na Ásia”. Estou certo que ao ler literatura clássica, poderemos encontrar muitas comparações mais, de que vocês podem ter muito orgulho.

Pergunta: Depois da revolução de 2018 na Armênia, muitos especialistas falavam que a Armênia ia mudar o vetor da sua política externa. Inclusive os especialistas russos mostravam essa preocupação. Agora, um ano e meio depois, podemos afirmar que esta preocupação já não existe, que a Rússia considera a Armênia como um aliado confiável? As dúvidas da Rússia sobre um fator ou uma “cor” da revolução na Armênia já se dissiparam?

Sergei Lavrov: Não vou deter-me em assuntos terminológicos: seja uma revolução ou outra coisa. Eu avaliei as nossas relações no meu discurso inicial. Estas relações estão se desenvolvendo no sentido positivo, garantem a continuidade em tudo o que tenha a ver com os acordos bilaterais existentes, em tudo o que tem a ver com as obrigações no âmbito da CEI, OTSC e UEEA. Acho que podemos colocar um ponto aqui.

Pergunta: Recentemente, terceiros países têm tentado minar a contribuição do povo armênio no combate ao fascismo. Lamentavelmente, há quem se manifeste preocupado na Armênia que até a Rússia não saiba avaliar a contribuição dos armênios para a Grande Vitória. Eu queria saber a sua opinião sobre isso.

Sergei Lavrov: Eu comentei este assunto no meu discurso de inauguração da exposição dedicada ao 75o aniversário da Vitória na Grande Guerra Patriótica. Sublinhei a nossa alta avaliação da contribuição do povo armênio para o combate ao fascismo e o valor que temos atribuído à cooperação com Erevan inclusive no âmbito da OTSC, que visa insistir na ONU e em outros organismos internacionais em que não se admitam quaisquer tentativas de heroizar os criminosos nazistas. Cooperamos e estamos unidos neste sentido.

Pergunta: Depois da queda da URSS, há atitudes diversas para com o povo russo e o seu legado. Como Moscou avalia o cuidado com que Armênia trata o legado cultural russo e a amizade com o povo russo?

Sergei Lavrov: Claro que avaliamos positivamente. Eu mencionei isso também. Vemos como as autoridades da Armênia apoiam a língua russa. Esperamos que isso continue sem passos atrás. Porque, primeiro, os armênios conhecem bem e valorizam a cultura russa. Segundo, do ponto de vista pragmático, o conhecimento da língua russa cria oportunidades adicionais em todo o espaço pós-soviético. Isso é também importante. E, claro, a língua como um meio de comunicação internacional também sublinha o nível civilizacional de uma nação.

Pergunta: Cada vez que nós, os armênios, observamos uma melhora das relações russo-turcas, pensamos que pode ser uma ameaça para nós. Que consequências pode ter a aproximação entre a Rússia e a Turquia para a região em geral e para a Armênia?

Sergei Lavrov: Há uma meia hora, eu respondia a uma pergunta idêntica em coletiva de imprensa no Ministério das Relações Exteriores da Armênia. Vivemos rodeados de vizinhos, que foram-nos dados pela geografia, história, por todo o complexo de acontecimentos que já ocorreram. Estamos interessados em ter boas relações como todos os nossos vizinhos: no espaço da Comunidade dos Estados Independentes, no Norte, no Sul, na região do Cáspio, do Mar Negro. É isso que define a nossa cooperação com a Turquia; é uma cooperação de vantagem mútua, porque temos um comércio em alta, projetos de grande porte que se realizam, inclusive a Turkish Stream, a construção de uma central nuclear e outros. Claro que cooperamos com os turcos também no Mar Negro. Durante os últimos anos, temos trabalhado muito ativamente, com a participação do Irã, para superar a crise síria de uma maneira que permita recuperar e conservar a integridade territorial e a soberania da República Árabe da Síria, para evitar a repetição das tentativas aventurosas da OTAN no Iraque e na Líbia, onde até agora não há estrutura estatal. Mas isso implica muito trabalho, é muito difícil, especialmente no que toca à Líbia. Por isso, nós estamos interessados em boas relações com todos os nossos vizinhos, e também que todos os nossos vizinhos tenham boas relações entre si. Isso é válido também para as relações entre a Armênia e a Turquia. Hoje, lembramos, no Ministério das Relações Exteriores da Armênia, a tentativa de 2009 de normalizar essas relações, de restaurar os contatos diplomáticos. Foram assinados os assim chamados Protocolos de Zurique, elaborados por Erevan e Ancara com o apoio da Rússia, União Europeia, EUA. Lamentavelmente, aqueles Protocolos não entraram em vigor. Porém, já naquela altura prevíamos dificuldades. Contudo, se tal aproximação de boa vontade era manifestada naquele período, acredito que é preciso não deixar de buscar possibilidade de normalizar as relações entre a Turquia e a Armênia. Levando em conta as relações de parceria estratégica com Erevan e a boa cooperação com a Síria, estamos prontos para apoiar este processo, se ambas as partes forem interessadas.

Pergunta: A Armênia não participou dos eventos organizados em Varsóvia em comemoração dos 80 anos do início da Segunda Guerra Mundial. Mas mesmo depois disso, há a impressão que a Rússia está duvidando da política externa armênia. Quer comentar?

Sergei Lavrov: Me daria um exemplo concreto da posição da política externa armênia que a Rússia comentasse negativamente, porque já estou cansado de responder a esta pergunta.

Pergunta: Por exemplo, o desenvolvimento das relações com a União Europeia.

Sergei Lavrov: Não me lembro termos manifestado insatisfação pelas relações da Armênia com a União Europeia. Vamos discutir coisas concretas. Se a sua pergunta é do estilo “highly likely”, é o costume do Reino Unido de se pronunciar sobre alguns acontecimentos, de que só culpam a Rússia, com ou sem pretexto, mas geralmente sem.

Não temos pretensão nenhuma ao desenvolvimento das relações entre a Armênia e outros parceiros externos – claro, se estes últimos respeitam as obrigações que existem na CEI, na OTSC, na UEEA. Os nossos colegas europeus têm este costume: em cada região onde iniciam sua cooperação, tentam impor suas próprias regras, aceitando doutrinas, declarações, ignorando o que tem sido feito nesta região antes da vinda da União Europeia. Têm estratégia árctica, estratégia do mar Negro, estratégia do Báltico. Há a Parceria Oriental, da qual fazem parte a Armênia, outras repúblicas do Cáucaso do Sul e a Ucrânia, a Bielorrússia e a Moldova. E agora, há uma estratégia centro-asiática.

Por exemplo, no Mar Negro, nós juntamente com a Armênia participamos da Organização da Cooperação Econômica no Mar Negro. A União Europeia tem nesta Organização o lugar de observador. Mas a nossa tentativa de fazer com que os métodos de trabalho da UE no Mar Negro correspondam às decisões da própria Organização, ainda não tem sido vista com compreensão. Os nossos amigos armênios sabem disso. Levamos anos discutindo esta questão, trocando experiência de relações com a UE e com a OTAN. Quando a Armênia estava mantendo negociações sobre o acordo e a parceria abrangente e ampliada com a UE, os nossos amigos da União Europeia tentavam ignorar as obrigações que a Armênia tinha assumido no âmbito da CEI, OTSC e UEEA. Mas a Armênia manifestou no acordo a sua lealdade às obrigações que acabo de mencionar, sublinhando que elas guardam o seu pleno significado, o seu peso. Então, temos aqui um diálogo muito bom, de amigos e verdadeiros aliados.

Pergunta: Há a impressão que a Síria tornou-se novo palco de confronto dos jogadores tradicionais no Oriente Médio. Como o senhor estima esta situação?

Sergei Lavrov: Tentaram impulsar a Síria para o triste caminho que já seguiram o Iraque e a Líbia, destruídos em 2003 pelos EUA, e em 2011, por uma campanha mais massiva da OTAN. Vocês vêem os problemas da Líbia: não há Estado lá. A Líbia é usada pelo tráfico ilegal de armas para todos os outros países do continente africano, principalmente na região saariana e no Sahel. Têm surgido, se multiplicado e coordenado entre si numerosos grupos terroristas, ramos do “Estado Islâmico” e al-Qaeda: os assim chamados Boko Haram, al-Shabaab, “al-Qaeda no Maghreb Islâmico” etc. Já da África e do Oriente Médio vai através da Líbia uma onda de migrantes ilegais, que assola a Europa. É o resultado da aventura líbia. Já o fruto da aventura iraquiana foi precisamente a criação do “Estado Islâmico”, porque foi criado por aquelas pessoas que os EUA libertaram das suas prisões no Iraque. Tencionavam fazer experimento idêntico na Síria. Mas, graças à nossa ajuda, entre outras coisas, graças à ajuda do Irã, que respondemos ao pedido das autoridades legítimas da Síria, conseguimos parar essa praga terrorista. O terrorismo foi eliminado em praticamente todo o território da Síria. Há um foco perto de Idlib, que deve ser eliminado, conforme acordos entre a Rússia e a Turquia, mas para isso a Turquia deve cumprir as suas obrigações, separando os oposicionistas patrióticos dos terroristas da Frente al-Nusra, que lá estão se dissimulando, mudando de nome sem mudar a essência. O segundo foco está na margem oriental do rio Eufrates e a sua presença deve-se principalmente ao fato de estarem lá os EUA, de maneira absolutamente ilegal. Junto com a Turquia e com o Irã, esforçamo-nos por eliminar a ameaça terrorista. Isso exige não somente ações militares, senão também outros meios, inclusive aqueles ligados à justiça internacional, à perseguição de terroristas de acordo com as leis. Ao mesmo tempo, mantemos contatos com outros participantes dos acontecimentos na Síria, inclusive com os EUA. O diálogo com os EUA é sereno, há contatos regulares ao nível militar. Sublinhamos a necessidade de cumprirem a sua promessa: de abandonar a Síria. Inclusive a zona ilegalmente ocupada no Sul da Síria, nas cercanias de uma localidade que se chama al-Tanf, que tornou-se o centro de extremistas e radicais e onde tinha existido o campo de refugiados Rukban, com horríveis condições. Só agora as pessoas que lá moravam começam a obter novo teto, mas antes, os radicais que cooperavam com os estadunidenses proibiram-lhes de saírem daquele caos. Por isso a Síria é agora um país onde chocam os interesses e as ações práticas de muitos jogadores, mas já não se trata de uma quebra do país. A maioria destes esforços visa a salvação da Síria, o respeito da sua soberania e integridade territorial. O principal componente destes esforços é o processo político que começou em Genebra. Um Comitê Constitucional foi criado, graças ao papel de intermediadores entre o governo e a oposição que desempenharam a Rússia, o Irã e a Turquia. Hoje em dia, a situação lá é muito diferente de 2015, quando no outono daquele ano os terroristas estavam prontos a assediar Damasco. Vamos manter estes movimentos positivos.

Pergunta: Recentemente, o Presidente da França, Emmanuel Macron, fez uma declaração em que alegava-se a necessidade de renovar a União Europeia: entre outras coisas, restabelecer o diálogo entre Bruxelas e Moscou. Como o senhor avalia possíveis mudanças e transformações ligadas a isso?

Sergei Lavrov: É uma pergunta atual. Nós nunca temos sido a causa de uma piora, dificultação mínima das relações entre o nosso país e a União Europeia. A situação de hoje, que não é normal, surgiu depois da União Europeia ter apoiado o golpe de Estado na Ucrânia, inspirado do outro lado do oceano – hoje todos sabem disso. Aquele golpe teve lugar no dia imediatamente depois de a França, a Alemanha e a Polônia terem verificado o acordo entre o então Presidente da Ucrânia, Viktor Yanukovich, e a oposição. Quando os radicais – que agiram, vou dizer isso mais uma vez, seguindo conselhos do exterior – rescindiram esse documento e declararam ter criado não um governo de concórdia nacional, mas um “governo de vencedores”; quando a primeira ação instintiva das autoridades ilegítimas foi um ataque direito à língua russa (eles queriam cancelar a lei sobre o idioma); quando no segundo ou terceiro dia, os líderes daquele golpe de Estado armado exigiram publicamente a saída dos russos da Crimeia (pois, diziam, os russos nunca iriam pensar e falar em ucraniano, honrar os heróis da Ucrânia: Bandera, Shukhevich e outros servidores de Hitler) – a União Europeia decidiu então, por uma razão desconhecida, aceitar o fracasso. Pois as assinaturas da Alemanha, França e Polônia não tinham significado nenhum para os inspiradores daquele golpe. Em vez de fazer a oposição respeitar aquilo que as potências da liderança europeia apoiaram, aceitaram o mando dos usurpadores do poder, daqueles quem apoia ou pretende não ver o crescimento do neonazismo na Ucrânia. Claro que semelhantes tendências existem também na Europa, mas na Ucrânia quem manda são os nazistas. Confira a mídia, a televisão e verá que ignoram todas as iniciativas pacíficas das novas autoridades ucranianas.

Bruxelas optou por considerar como o ponto de partida das novas relações o reconhecimento pela Rússia da manifestação da vontade dos habitantes da Crimeia, que estavam à beira de serem eliminados, quando as brigadas de choque dos neonazistas estavam se deslocando para lá, na tentativa de ocupar o prédio do Supremo Conselho. O fato de a Rússia ter apoiado os moradores de Donbass, que recusaram-se a aceitar o golpe de Estado, na defesa dos seus direitos. Até agora está acontecendo lá a assim chamada “operação antiterrorista”, anunciada ainda pelo regime de Piotr Poroshenko. Quem de vocês se interessa pela história, pode lembrar pelo menos um episódio a partir de 2014 de alguém atacar a partir de Donbass o resto da Ucrânia? Tal coisa não houve! Eles disseram: “Rapazes, vocês cometeram um crime, violando a Constituição, nós não queremos ter relação a isso, então deixem-nos em paz: queremos compreender o que vai ser depois e como vamos comunicar com vocês”. Isso bastou para serem chamados de terroristas. Os ataques começaram. Pedimos muitas vezes aos observadores da OSCE, que trabalham em condições difíceis (e há russos e armênios), para indicarem nos seus relatórios não somente a quantidade de vítimas entre civis, a quantidade de ataques premeditados, mas também pedimos mostrar quem o faz e qual das partes em conflito tem mais vítimas e qual tem menos. Logramos isso uma vez, em setembro de 2017; mas o regime de Kiev tentou bloquear a publicação daquele relatório. Está lá a conclusão de que os moradores civis e as estruturas cívicas do lado controlado pelas repúblicas autoproclamadas, sofrem cinco vezes mais. Qualquer especialista em matéria militar compreenderá que são os militares ucranianos, que trabalham na presença quase imediata dos batalhões neonazistas, quem inicia ataques contra a população civil.

Quando deliberamos não aceitar isso e respondemos ao pedido dos habitantes da Crimeia e começamos a apoiar firmemente os moradores de Donbass, que também corriam o risco de serem esmagados e eliminados, a União Europeia ficou ofendida e impôs sanções. Até hoje, ao começarmos uma conversação com eles, eu refiro sempre não a março de 2014, senão a fevereiro daquele ano, quando ninguém da oposição respeitou as assinaturas da Alemanha, França e Polônia. Isso não lhes convém, se sentem incomodados. Propõem “esquecer o passado” e ir avante. Muitos sussurram para nós manifestando o seu desejo de melhorar as relações, mas pedem que façamos algo primeiro, começando assim o movimento, ao qual eles iriam aderir depois. Mas não somos nós quem impôs as sanções, quem quebrou todos os mecanismos de cooperação com a União Europeia. Tínhamos mais de 20 diálogos setoriais, todos dos quais estão congelados. Terminaram as cúpulas, os encontros ao nível dos ministros das relações exteriores e do Alto Representante para Negócios Estrangeiros e Segurança já não acontecem praticamente.

É evidente que esta situação não é normal. Enfim, depois dos sussurros afirmando que eles querem, mas não têm a permissão, ouvimos a voz responsável e alta do Presidente da França, Emmanuel Macron. Ele chamou as coisas pelo seu nome. E fez isso não para agradar aos russos ou às autoridades da Rússia – temos boas relações. Ele próprio explicou o motivo principal da sua iniciativa de normalizar as relações com a Rússia: sem isso, a Europa seria muito menos capaz de concorrência no mundo contemporâneo.

Vladimir Putin e Emmanuel Macron tiveram uma conversa muito detalhada e cheia de confiança em Bregançon, no fim de agosto do ano corrente. Eles discutiram de maneira profunda, serena e honesta um leque de questões principais. Depois disso, Emmanuel Macron pronunciou um discurso perante os Embaixadores franceses no estrangeiro, onde formulou esta postura. Recentemente, na entrevista à revista The Economist, ele falou muito sobre a Rússia.

Eis o que ele disse. A Rússia tem três opções de desenvolvimento. A primeira é ela tentar conservar o seu estado de potência internacional por conta própria – o que, segundo ele, não será possível. A segunda opção da Rússia é visar a cooperação eurasiática, mas nesta situação, a Rússia ficará sob pressão ou influência excessiva da China. Por isso, a única opção realista para a Rússia é a terceira – a da cooperação com a União Europeia.

Estamos a favor disso. Mas a nossa cooperação com a União Europeia não vai significar o fim da cooperação com os nossos parceiros na Eurásia, inclusive a com a República Popular da China. Eu acredito que foi uma declaração muito positiva. Amanhã, em Paris, terá lugar o II Fórum de Paz de Paris. O primeiro-ministro da Armênia, Nikol Pashinyan, e eu estaremos lá. E falaremos com certeza sobre estes assuntos.

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